ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

O amor de mãe, para muitos filhos, chega a ser estranho. É um amor para a vida toda, mesmo que você cometa todos os erros do mundo. Sempre que você cair, aquela mão estará estendida esperando você se apoiar.

Um amor que passa noites em claro preocupado, entretanto dorme tranquilo quando está do seu lado. Um amor que sente ciúmes, mas não prende, nem domina, nem manipula. Um amor que briga por quase tudo, porém sempre estará de braços abertos esperando você voltar. É tanto amor, que chega a ser incompreendido.

Uma tristeza e uma saudade infinita ficam depois que dizemos o último adeus a uma mãe querida. O repentista Manuel Xudu (1932-1985) descreveu essa dor com a suavidade dos seus versos quando, certa vez, foi desafiado a glosar o seguinte mote:

Quem não tem mãe, tem razão
De chorar o que perdeu.

Xudu, então, improvisou de forma brilhante com versos que se eternizaram na memória dos que admiram a poesia pura do repente:

Mamãe que me dava papa,
Me dava pão e consolo,
Dava café, dava bolo,
Leite fervido e garapa.
Uma vez, deu-me uma tapa,
Mas depois se arrependeu,
Beijou-me onde bateu,
Desmanchou a inchação,
Quem não tem mãe, tem razão
De chorar o que perdeu.

7 pensou em “AMOR MATERNO

  1. Linda homenagem. Aristeu.

    Quando se trada de mãe, toda referência vale a pena porque a alma não é pequena. É grande! É universal!

    O amor da mãe está no centro de TUDO! Eu que o diga da Minha Maria Alves, que nunca me deu um cascudo, mas me alertava para os perigos da vida provocados pelos homens!

  2. Cícero Tavares,

    Muito obrigado por seu excelente comentário. Gostei demais da conta da informação sobre o alerta da sua mãe sobre os perigos da vida provocados pelos homens. O elo que existe entre mães e filhos é uma das ligações mais fortes da natureza. A questão é que o amor por uma criança não é intelectual ou cultural – ele é sim um componente básico da formação de todos os seres humanos.
    E isso independentemente de se ser mãe ou pai, ou pais biológicos ou adotivos, já que somos programados para formar laços fortes com os filhos e eles conosco.
    Aproveito esse espaço democrático do Jornal da Besta Fubana para compartilhar uma sextilha
    do repentista João Paraibano (1952-2014) com o prezado amigo;

    Branca, preta, pobre e rica,
    Toda mãe pra Deus é bela;
    Acho que a mãe merecia
    Dois corações dentro dela:
    Um pra sofrer pelos filhos;
    Outro pra bater por ela.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  3. “Amor, só de mãe”. Em algum para-choque de caminhão, a frase folclórica revela mais o sentimento do caminhoneiro do que a relação psicológica existente entre mães e filhos. É que, por mais intrigante, o amor de mãe pouco difere do amor de pai, irmão, padrasto, madrasta, marido ou mulher. Por mais que as supermães protestem e afirmem que o amor a seus filhos está acima de suas próprias vidas! Isso se deve a razões pouco conhecidas: o instinto materno é um mito e entre os seres humanos o amor é construído. Apesar da minha opinião, o decassílabo de Manuel Xudu (1952-2014) é uma pérola.

  4. Vitorino,

    Grato por seu comentário. Entendo que nem toda mãe possui amor pelo filho. Existe até a psicose puerperal. Esta doença pode causar sintomas como confusão mental, nervosismo, choro excessivo, além de delírios, visões e a paciente pode desenvolver uma indiferença ao seu filho recém- nascido. Com o tratamento, a mulher pode ficar curada e voltar a conviver novamente com o bebé e a família, entretanto, se o tratamento não for logo realizado, é possível que os sintomas se agravem, a ponto de perder totalmente a consciência da realidade, podendo mesmo pôr em risco a sua vida e a vida da criança. Mudando de assunto, aproveito a ocasião para compartilhar uma estrofe do inesquecível repentista João Paraibano (1952-2014):

    Me lembro de minha mãe
    Dentro de um quarto inquieta
    Passando o dedo com papa
    Nessa boca analfabeta
    Sem saber que um dedo rude
    Tava criando um poeta.

    Saudações fraternas,

    Aristeu Bezerra

  5. Parabéns pelo belo texto, prezado Aristeu Bezerra! O amor de Mãe é o único que não tem prazo de validade. É um sentimento sublime e imensurável, que somente as mães entendem. A mãe é a única pessoa que pode apontar algo errado num filho. Mas, ai de quem fizer isso! A Mãe reagirá como uma leoa, em defesa de sua cria, seja qual for o defeito apontado.

    Gostei imensamente dos versos do repentista João Paraibano (1952-2014).

    Para você, vai este poema, que vale a pena ler de novo::

    Para Sempre (
    (Carlos Drummond de Andrade)

    Por que Deus permite
    que as mães vão-se embora?
    Mãe não tem limite,
    é tempo sem hora,
    luz que não apaga
    quando sopra o vento
    e chuva desaba,
    veludo escondido
    na pele enrugada,
    água pura, ar puro,
    puro pensamento.
    Morrer acontece
    com o que é breve e passa
    sem deixar vestígio.
    Mãe, na sua graça,
    é eternidade.
    Por que Deus se lembra
    – mistério profundo –
    de tirá-la um dia?
    Fosse eu Rei do Mundo,
    baixava uma lei:
    Mãe não morre nunca,
    mãe ficará sempre
    junto de seu filho
    e ele, velho embora,
    será pequenino
    feito grão de milho.

    Um grande abraço! Muita Saúde e tranquilidade!

    Violante Pimentel Natal (RN)

  6. Violante,

    É gratificante ler seu valioso comentário. Concordo com todos os seus argumentos sobre o amor materno. Mãe tem a capacidade de ouvir o silêncio. Adivinhar sentimentos, intuir bons pensamentos..Encontrar a palavra certa nos momentos incertos. Fortalecer-nos quando tudo ao nosso redor parece ruir. Ela tem a sabedoria emprestada dos deuses para nos proteger e amparar. Um amor incondicional que nada espera em troca. Mãe é um ser infinito..
    Aproveito a oportunidade para compartilhar um poema de Cora Coralina (1889 – 1985) com a prezada amiga:

    MEIAS IMPRESSÕES DE ANINHA
    (mãe)

    Renovadora e reveladora do mundo
    A humanidade se renova no teu ventre.
    Cria teus filhos,
    não os entregue à creche.
    Creche é fria, impessoal.
    Nunca será um lar
    para teu filho.
    Ele, pequenino, precisa de ti.
    Não o desligues da tua força maternal.

    Que pretendes mulher?
    Independência, igualdade de condições…
    Emprego fora do lar?
    És superior àqueles
    que procuras imitar.
    Tens o dom divino
    de ser mãe
    Em ti está presente a humanidade.
    Mulher, não te deixes castrar.
    Serás um animal somente de prazer
    e ás vezes nem mais isso.
    Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
    Tumultuada, fingindo ser o que não és.
    Roendo o teu osso negro da amargura.

    – Cora Coralina, do livro “Vintém de cobre: meias confissões de Aninha”. São Paulo: Global Editora, 1997.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  7. Poema lindíssimo da sábia poetisa e contista brasileira, Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas.

    Obrigada, amigo!

    Um abraço!

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