CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

Morena dos sonhos do coronel Bitônio Coelho, semelhante à MBM

Depois da última noitada homérica de amor que teve com Maria Bago Mole na alcova dela do cabaré de mesmo nome e ter voltado à fazenda no dia seguinte às dez da manhã, arrebentado, o coronel Bitônio Coelho ficou alguns dias sem ver a Amada, apesar de ela ter-lhe dito que queria falar um segredo importante.

Super atarefado na administração das seis fazendas, o coronel, apesar de estar morrendo de saudade de MBM, tendo-lhe sonhos eróticos todas as noites, vendo-a aparecer nua correndo para os seus braços, sacolejando as ancas bronzeadas, pernas torneadas, peitos grandes e duros, lábios vermelhos e cabelos esvoaçantes, blusa e short listrados de tirarem o fôlego de qualquer macho, resolveu ir ao Cabaré novamente, pois a saudade da Amada estava-lhe deixando doido, alucinado.

Num sábado, mandou que seu capataz de confiança preparasse o cavalo alazão branco, pusesse a sela australiana com os arreios listrados, trouxesse-lhe a carabina dois tiros e uma carreira, “para se proteger de gente safada no caminho”, o punhal à lá Lampião, o chapéu parmesão importado, avisando que tinha um “compromisso na Vila Vintém” e que talvez não voltasse naquele dia. Que o capataz assumisse a responsabilidade das fazendas na sua ausência.

“Arriado até os pneus” por MBM, mas sem “querer dar o braço a torcer”, pois quem administra cabaré “é cobra criada”, o coronel Bitônio Coelho mal sobe à sela e se apoia, começa a sentir uma sensação estranha por todo o corpo: as mãos gelam, o coração dispara, a cabeça fica zonza e ele começa a pensar: “Puta que pariu!” “O que está acontecendo comigo?” “Mal eu começo a pensar “naquela” mulher e não me reconheço!” “Que feitiço é esse?”

Quando se aproxima do cabaré já de noite, depois de trotear por mais de uma légua pelos canaviais, como das outras vezes, Maria Bago Mole, quando o avista, deixa tudo que está fazendo e sai correndo para abraçá-lo, beijá-lo, acariciá-lo e dizer-lhe da saudade imensa e lhe sussurra ao ouvido o quanto o ama:

– Meu filho, onde você estava? Esqueceu de mim, foi? Esqueceu de nós? Nosso cantinho está lá dentro intacto, com o mesmo cobertor do nosso último encontro, só esperando nossos corpos nus!

Foi dizendo isso e beijando seu amado mais uma vez. Passou-lhe as mãos no peito, desceu mais um pouco e percebeu que seu amado estava mais seco que o mês de janeiro no sertão do Seridó.

Ela riu da situação. Ficou feliz. Beijo-o mais uma vez demoradamente e, pegando-lhe a mão, disse:

– Nosso ninho nos espera! Vamos aproveitar enquanto houver desejos e vontades! A vida é curta para quem ama!

Antes de adentrar no aposento, abraçado à Amada, o coronel Bitônio Coelho passa “um rabo de olho pelo salão”, percebe a presença de muitos “fregueses estranhos” no cabaré. Nesse momento um sentimento estranho se lhe apodera e ele sente que é chegada a hora de tirar seu amor daquele ambiente para ele hostil e levá-la para a fazenda. Mas a si mesmo pergunta:

– “Independente como ela é, será que vai aceitar o meu convite?” E não pensou mais com a cabeça de cima.

Nesse momento, fez-se silêncio no quarto e o que se ouvia era o estalar de beijos, sussurros e gemidos!

Deixe uma resposta