GOIANO BRAGA HORTA - ARCO, TARCO E VERVA

Estou morando em Paris há alguns meses, vivendo certas aperturas, mas ainda assim gozando de algum conforto em um pequeno apartamento no quarto andar, sem elevador.

Enquanto me alimento convenientemente e durmo confortavelmente, porque não me faltam a cama e o cobertor, observo, nas ruas, tanta gente miserável, formada de diversas raças e origens, pedindo dinheiro para comer, para se agasalhar, sendo que alguns para comprar bebidas e drogas.

Uns vivem nas ruas porque querem, perambulando por aí acompanhados dos seus cachorros.

Outros, na maioria, são pessoas efetivamente pobres, sofridas, infelizes – gente desgraçada, suja e maltrapilha, que precisa realmente da caridade alheia e da esmola para sobreviver.

Tento comparar com o Brasil, mas as realidades, apesar de semelhanças, são outras. Fico confuso, notando que parecem diferentes, mas, no fundo, talvez não sejam tanto – temos nossa classe média, certamente menos média do que a dos franceses, nossos ricos, possivelmente em geral menos ricos do que os ricos europeus, mas a pobreza… essa é uma só.

Pois bem, saio de casa e me deparo com um drama desses, bem dentro da minha amena realidade: Ao descer as escadas encontro, no hall do primeiro andar, um homem deitado no chão, meio encoberto em panos pobres, manchados e desgastados pelo tempo.

Vejo-lhe apenas os cabelos compridos, encaracolados, e um pouco da pele morena.

Não sei quem é, de onde veio.

É quase impossível um estranho entrar no prédio sem ser visto: há duas barreiras a serem vencidas: há a primeira, pois é necessário um código para abrir a porta principal; e há a segunda porta, que também depende de senha para ser aberta.

Naquelas condições em que o homem se encontra não tenho dúvida de que não se trata de algum morador do prédio preso do lado de fora de casa.

Seus pés estão muito sujos, usa uma sandália de dedos desgastada, os panos que o cobrem são pobres e encardidos.

Decididamente, trata-se de um morador de rua, daqueles que encontramos por toda parte em Paris.

Passo pelo homem e acabo de descer as escadas, sem saber o que fazer.

Meu senso de solidariedade social se esvai, desaparece completamente, superado pelo medo.

Uma pessoa desconhecida, provavelmente um vagabundo, entrou no prédio onde moro e ameaça minha segurança dormindo no chão da escadaria.

Telefono para o síndico, a ligação cai na secretária eletrônica.

Ando de um lado para outro, atormentado.

Ligo para alguém que consta no quadro de avisos como sendo do conselho do prédio e o interfone não atende.

Passo meia hora de angústia, quando finalmente um vizinho entra no prédio.

Digo a ele apressadamente o que está acontecendo, ele me diz para falar com a proprietária do apartamento; explico que o proprietário mora fora de Paris, o vizinho me sugere que chame a polícia e eu respondo que estou inseguro de fazer isso por ser estrangeiro; gostaria que ele fizesse algo, que tomasse uma providência em favor da segurança do prédio.

Ele, ainda que algo contrafeito, decide resolver a questão. Sobe os degraus ao primeiro andar e chama:

– Monsieur!

O homem ressona, dorme profundamente.

O vizinho repete, mais alto e enérgico:

– Monsieur!

Ouve-se como resposta um “huuummm”.

– Il faut partir! Ele completa. É preciso que tu saias, que tu vás embora.

Após dizer isso, o vizinho desce os degraus e ficamos ambos embaixo esperando a saída do intruso.

Passos leves pisam a escada e quando o mendigo surge à nossa frente.

Posso ver seu rosto suave e sentir sua forte presença.

Ao olhar Sua face e Sua imagem radiante, caio de joelhos, em prantos, aos Seus pés.

Vejo e compreendo, atônito, que o homem que estamos expulsando é Jesus Cristo!

Peço-lhe perdão, chorando.

Ele passa a mão suavemente em minha cabeça e se vai.

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