GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

Nos anos 80 eu estudava no Colégio Nóbrega e para fugir das linhas “Setúbal” e “CDU – Boa Viagem”, sempre lotadas, eu ia caminhando até a Nossa Senhora do Carmo pra pegar o “Shopping” ou “Aeroporto”, mais vagos. Nessa caminhada pela Conde da Boa Vista, eu passava por 3 lojas de revelações de fotos: a Aba Film, a Tabira Filmes e a Sonora, essa última tinha lançado a moda comercial: quem revelasse o filme lá, ganhava outro filme virgem, e a propaganda na televisão rezava: “na Sonora é assim, filme vai, filme vem”. Na Tabira Filmes eu procurava alguma foto na parede da minha cidade Tabira, mas não tinha, também nenhum funcionário tabirense, na época já me perguntavam se eu conhecia o dono, ainda hoje me perguntam. Na Aba eu dava uma parada porque tinha fotos dos cangaceiros, uma delas, grande lá no fundo, mostrava Benjamin Abrahão cumprimentando Lampião.

Imagem que havia no fundo da Aba Film da Conde da Boa Vista

Essa minha atração pela Aba Film fazia sentido por esta ter sido a empresa que revelou as fotos e filmagens do bando de Lampião na sua loja matriz em Fortaleza, propriedade do bancário Ademar Bezerra de Albuquerque, que emprestou suas iniciais para o nome da empresa, emprestou também todo o equipamento e treinamento para que o libanês Benjamin Abrahão Botto filmasse e fotografasse os cangaceiros no seu ambiente natural, a caatinga nordestina.

Benjamim enquanto secretário de Padre Cícero do Juazeiro

Benjamin era um mascate libanês que veio para o Brasil correndo da I Guerra Mundial e aqui se estabeleceu, depois conheceu Padre Cícero e ficou sendo seu secretário, foi através deste posto que conheceu Lampião na sua passagem por Juazeiro do Norte em 1926, quando foi pedir a benção de “Padim Ciço Romão” e receber a patente de Capitão para combater a Coluna Prestes. Após a morte do Padre Cícero, Benjamin tentou entrar no ramo dos souvenires, cortou o cabelo do “padim” e vendia para os romeiros, ganhou muito dinheiro durante uns 6 meses, tempo suficiente para perceberem que o padre não possuía essa quantidade toda de cabelos, foi ai que Benjamin procurou Lampião para pedir para acompanha-lo nos deslocamentos e filmar o dia-a-dia dos cangaceiros, Lampião topou e Benjamim foi para Fortaleza pegar o material com Ademar da Aba Filmes.

Foto antiga da Aba Film de Fortaleza. A empresa faliu em 2010 por falta de clientes

O governo de Getúlio Vargas não gostou muito deste feito, de divulgar o Brasil sem lei no interior do Nordeste e apreendeu os filmes dando um enorme prejuízo a Benjamin e principalmente a Ademar que teve o equipamento confiscado e não pode ganhar dinheiro com as filmagens. Após a fama ganha como fotógrafo veio um novo desemprego e Benjamin foi procurar trabalho de fotógrafo no Diário de Pernambuco, e conseguiu, nesse período da vida do libanês não há muito registro e os que tem são desencontrados. Em 7 de maio de 38, Benjamin Abrahão Botto foi morto em Pau-ferro, hoje Itaíba, à época distrito de Águas Belas, em Pernambuco, com 42 facadas. O crime não teve seu autor nem sua motivação desvendada, especula-se que foi latrocínio, porém com ele nada havia de valor. Outra versão diz que foi morto a mando do sistema.

Cobertura fotográfica feita por Abrahão para o DP da vaquejada de Pau-ferro

Sobre a Tabira Filmes eu descobri o porquê do nome. Na década de 50 foi construído um grande edifício para a época na Av. Conde da Boa Vista, e o seu construtor homenageou o amigo deputado estadual Pedro Pires Ferreira, dando o nome da sua terra natal, Tabira, que recentemente havia mudado seu status de distrito para cidade, uma das lojas no térreo do Edifício Tabira foi batizada com o nome do prédio: Tabira Filmes. Atualmente a empresa conta com várias lojas em shoppings do Recife e passou a se chamar Tabira Digital.

Loja Tabira Digital no Shopping Recife

6 pensou em “A VIOLENTA E MISTERIOSA MORTE DO FOTÓGRAFO DE LAMPIÃO

  1. O contar a História é sempre muito proveitoso para quem vc nota e para quem lê.
    É reviver tudo sem poder interferir em nada.
    É a verdadeira máquina do tempo nos deixando cara-a-cara com o passado.
    Ótima coluna!

    • Eu ja tinha lido sobre essa possibilidade, Luiz. No filme O Baile Perfumado, do pernambucano Lirio Ferreira, dá a entender q foi a mando de um coronel que Abrahao tinha dívidas. O interessante é que ele fotografou a vaquejada em setembro e morreu no mesmo lugar, hj Itaiba, q ele não tinha razão de está lá de volta, apenas alguns meses depois.

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