VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

Maria Linhares, 69 anos, mulata, alta e um pouco gorda, era dona de uma vila de quartos de aluguel, no bairro da Ribeira, em Natal, década de 70 do século passado.

Muito moralista, com voz firme e forte, tinha suas regras. Alugava quartos somente a casais sem filhos. Às 22 horas, fechava o portão de ferro do “condomínio”, com um cadeado e ninguém mais entrava, salvo se arrodeasse e pulasse o muro.

De acordo com o seu regulamento, era proibido se tomar banho nos quartos, pois na vila só havia um pequeno banheiro coletivo, onde se levava água em um balde. Ali também havia um aparelho sanitário, feito de tijolos e coberto por uma tábua, onde circulavam baratas por dentro e por fora. Nos quartos, sempre apareciam escorpiões, prontos para atacar. Era um ambiente muito pobre e insalubre.

De pouca conversa, Maria Linhares vivia pensativa e triste, com os olhos fixos no nada, em que o destino a transformou. Quem a conhecesse nessa altura da vida, não poderia imaginar o passado criminoso que ela escondia.

Pois bem. Na mocidade, essa mulata bonita, descendente de angolanos, fora empregada doméstica e protagonista de amores e tragédias. Apaixonou-se por Daniel, o filho do seu patrão e os dois viveram uma aventura amorosa clandestina, que, somente para ela, foi um amor fatal. Meses depois, chegou-lhe aos ouvidos a notícia de que o rapaz estava noivo de uma jovem de nome Arlete, e o casamento já estava marcado.

Desesperada, a mulher passou a odiar a jovem Arlete e a paixão que sentia por Daniel tornou-se uma obsessão, mesmo o rapaz tendo posto um ponto final no caso.

Como cozinheira da casa dos pais de Daniel, Maria Linhares também foi encarregada de cuidar da casa nova, já mobiliada, onde ele e Arlete iriam morar depois de casados.

Arlete trabalhava numa loja do futuro sogro, na Rua Dr. Barata, no Bairro da Ribeira. Morava com os pais, irmãs e a tia Otília, jovem e solteira, sua amiga e confidente, no bairro da Cidade Alta. Levava uma vida tranquila e feliz, com o casamento já próximo.

Fingindo querer agradar, Maria Linhares sugeriu a Arlete que fosse até a casa nova, para ver a mobília comprada por Daniel e dar sua opinião sobre a arrumação.

Muito ingênua, a jovem prometeu que logo iria.até lá. Não imaginava que a empregada fosse apaixonada por seu noivo e já tivesse havido um caso entre eles.

A jovem, então, combinou com a tia Otília para, no sábado vindouro, na volta da praia, irem até à sua casa nova, para ver a mobília que Daniel havia comprado.

Na manhã do sábado, 24 de outubro de 1942, Arlete e a tia Otília, depois do banho de mar na Praia do Morcego, hoje Praia do meio, se dirigiram a pé à casa nova, na Av. Getúlio Vargas, esquina com a Rua Joaquim Fabrício, no alto do bairro de Petrópolis.

A empregada as esperava ansiosa, e expressou grande alegria ao vê-las. Arlete resolveu entrar no banheiro, para tomar um banho de água doce, e tirar do corpo o sal da água do mar.

Quando Arlete entrou no banheiro, imediatamente, Maria Linhares chamou Otília para ver a garagem. Lá, as aguardava um homem do tipo lombrosiano (tipo de pessoa com as características físicas definidas por Cesare Lombroso, como sendo as do criminoso nato) e aspecto apavorante. O homem agarrou Otília, enlaçando seu pescoço com um pano e apertando o laço, ajudado pela empregada, e sufocando a jovem, até matá-la por estrangulamento. Com a ajuda de Maria Linhares, o corpo de Otília foi, rapidamente, arrastado e jogado na vala que já estava cavada no fundo do quintal.

Depois de alguns minutos, Arlete saiu do banheiro e chamou pela tia. Maria Linhares respondeu, atraindo-a para a garagem e dizendo que ela e Otília estavam lá. E a jovem dirigiu-se à garagem. Logo à porta, o monstro avançou para ela, que deu um grito de pavor, ouvido pelos vizinhos. Mas, imediatamente, seu grito foi abafado com um pano enlaçado ao seu pescoço, que a sufocou. Novamente, com a ajuda de Maria Linhares, o laço foi apertado até matar Arlete estrangulada, como acontecera com a sua tia Otília.

O cúmplice de Maria Linhares, após o estrangulamento, despojou o cadáver de Arlete das joias que ela estava usando. Tirou-lhe os anéis, o relógio e, do pescoço, tirou um trancelim de ouro.

Era essa a sua paga, pela participação no crime de vingança, arquitetado por Maria Linhares, sua grande amiga.

Em seguida, os dois assassinos deram início à “cerimônia” do enterramento dos cadáveres. Ao pé do muro do quintal, já haviam cavado a areia frouxa do morro, e já estava feita a vala, que supunham ser a última morada das duas jovens, Otília e Arlete. Ao enterrarem o cadáver de Otília, deixaram, também, na cova, os óculos que ela usava.

Lançaram areia sobre os corpos, cobrindo-os completamente, e deixaram o quintal sem qualquer vestígio do enterramento.

A única testemunha desse duplo e bárbaro homicídio foi o cajueiro, de sombras amplas em todo o redor.

Os dois assassinos cuidaram de espalhar folhas do cajueiro sobre a cova. O caso estava consumado.

Depois de terminado o ritual macabro, o cúmplice se retirou, levando consigo as joias que embolsara. E Maria Linhares foi logo cuidar de lavar o chão da garagem e apagar as manchas de sangue que ficaram.

No dia seguinte, domingo, o cúmplice voltou a procurar Maria Linhares, para devolver as joias, pois, em todas estava gravado o nome de Arlete. Não poderiam ser vendidas. Em troca, ele exigiu da mulher um alto valor em dinheiro.

Tudo continuava em segredo, e os dois assassinos estavam certos de que, dentro de pouco tempo, o caso cairia no esquecimento. Achavam que a impunidade deles estaria garantida.

Mas o crime, cedo ou tarde, seria descoberto, pois os vizinhos da casa nova onde iriam morar Arlete e Daniel, viram a entrada das duas jovens, mas não viram a saída. Além disso, o grito de pavor de Arlete, ao ser atacada pelo monstro, foi ouvido por algumas pessoas.

Maria Linhares cumpriu a pena de 33 anos de reclusão, na Penitenciária de Natal. Confessou seus crimes, denunciou o cúmplice Felinto Saldanha, e inocentou Daniel, o noivo de Arlete.

Maria Linhares, no Rio Grande do Norte, foi a primeira condenada que cumpriu integralmente a pena que lhe foi aplicada pela Justiça.

Em Natal, naquela época, o nome “Maria Linhares” virou um dogma de maldade e perversidade satânica.

14 pensou em “A VILÃ

    • Obrigada pelo comentário, prezado Josinaldo Viturino de Freitas.
      Esse caso macabro foi verídico. e figura nos anais dos mais chocantes processos criminais, que marcaram Natal (RN), na última década da metade do século passado. A Ré cumpriu a pena de 33 anos de reclusão, integralmente. Bem diferente dos tempos atuais.

      Bom fim de semana!

  1. Violante,

    Parabéns por uma excelente crônica que demonstra a transformação de amor em paixão. O relacionamento tornou-se tóxico por ciúme de uma mulata bonita, que se apaixonou pelo filho de seu patrão, e pensou ser correspondida. Faço uma breve reflexão sobre a paixão, pois achei o tema interessantíssimo. A palavra paixão vem do latim passionalis e o homicídio passional, ou popularmente conhecido por crime passional, é uma expressão utilizada para nomear crimes cometidos por paixão ou por intensa emoção. A paixão não é aquela vista como sinônimo de amor, mesmo sendo conceitos distintos. É uma emoção violenta, agressiva, muitas vezes delirante, que quando está atrelada à frustração de não ter o controle sobre o outro, principalmente quando este rompe o relacionamento, decide matar.
    Os homicidas passionais tem uma idealização do parceiro e quando este não corresponde às suas formas de atenção, mostrando-se distante fisicamente ou afetivamente, vivem um intenso sentimento de abandono e, não suportando este sofrimento, matam quem eles julgam amar.
    Vale ressaltar que, qualquer pessoa, mesmo tendo um histórico de equilíbrio emocional ao longo da vida, em algum período de alto estresse, dominado por uma raiva violenta, pode cometer um crime passional. Assim penso.

    Um final de semana pleno de paz, saúde e alegria

    Aristeu

    • Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Aristeu Bezerra! Gostei muito da sua explicação, sobre a diferença entre amor e paixão.
      Esse caso foi verídico e consta nos anais dos mais chocantes processos criminais que marcaram o Rio Grande do Norte, nos meados do século passado. Em Natal (RN), Maria Linhares foi a primeira condenada, que cumpriu, integralmente, a pena que a Justiça lhe aplicou. Foram 33 anos de reclusão, sem qualquer regalia. Bem diferente dos dias atuais.
      O crime foi premeditado. A paixão obsessiva, que a Ré nutria por Daniel, deu lugar ao sentimento de ódio contra sua noiva e ao plano macabro de matá-la.

      Bom fim de semana!

      Violante

  2. Fiquei sem fôlego devido à contundência do texto…Amor e paixão. podem ser um bálsamos ou tornarem-se tóxicos: ciúme, a raiva que mata… Creio qualquer pessoa, mesmo tendo um histórico de equilíbrio emocional aparente (de perto ninguém é normal), em algum período da vida, dominado por uma raiva violenta, pode cometer crime passional…

    Ótimo final de semana para a maravilhosa cronista.

    • Obrigada pelo generoso comentário, prezado Sancho Pança!
      Esse caso foi verídico e consta nos anais dos mais chocantes processos criminais de Natal (RN), da 1ª metade do século passado. A paixão obsessiva por um homem fez nascer, na mulher desprezada, o ódio e o plano macabro de matar a sua noiva.

      Ótimo fim de semana para você também!

      Grande abraço!

  3. Obrigada pelo comentário, prezado Beni Tavares!

    Essa trama diabólica foi verídica. Consta dos anais dos mais chocantes processos criminais do Rio Grande do Norte, do século passado.

    Bom fim de semana!

  4. Sem dúvida um excelente relato da história verídica de uma paixão que acabou com o assassinato de duas pessoas. Dona Violante descreveu e analisou com muita propriedade os motivos que levaram a Maria Linhares ser a principal protagonista desse caso retumbante. Mas fiquei curioso: o que realmente motivou o Felinto Saldanha a participar e ser a principal mão do abate das duas mulheres? Estranho que Arlete anteriormente à sua morte estivesse tomando banho de mar com tantas jóias… De que maneira Felinto soube, “a prirori”, que tais jóias seriam sua paga pelo crime? Soube que Felinto Saldanha residia em Serrinha com mulher e filhos. É pertinente pensar que, nessa situação – talvez – pudesse o Felinto ter sido enfeitiçado por Maria e levado a ser co-autor do crime. Não pelas jóias, mas pelos “dotes” da jovem Maria… Poderia dona Violante discorrer sobre esse possível e provável desdobramento do caso?

  5. Obrigada pelo comentário, Carlos Ferreira Filho!:

    O que mais existe no Brasil são pessoas homônimas, ou seja, com o mesmo nome, o que tem causado muita confusão na área judicial. Deve ser o caso dessa pessoa de Serrinha, que você citou.
    Esse crime ocorreu ha 78 anos, quando Natal era uma cidade pacata e sem violência. Isso justifica o fato de uma jovem vaidosa poder usar joias, quando bem quisesse.

    Os fatos demonstram o grau de intimidade e cumplicidade que havia entre Maria e o matador profissional. A paga com as joias foi coisa do acaso.

    Bom fim de semana!

  6. Um belo texto, ainda que terrível. Carregado de emoção mostrando o ciúme impulsivo e irracional.
    Por ter sido fato, nem os mais tenebrosos contos do colunista Newton Silva, retrataria tão bem
    .
    No ciúme patológico, são sentidas várias emoções, como a depressão, raiva, ódio, ansiedade, vingança, insegurança, medo, culpa, vergonha, aumento do desejo sexual, entre outros.
    Entre os conflitos conjugais, o ciúme é um dos fatores preponderantes, ainda mais quando transforma-se num sentimento depreciativo e doentio.

    Vem à tona sensação de posse misturado a vitimização sexual. A velha história de não aceitação em perder a pessoa “amada”. Declaram que: ”se não posso ter, ninguém pode”.
    Numa pseudo acepção psíquico-juridica, o ciúme sempre mereceu acalorados debates e polêmicos julgamentos. Agiria o agente por motivo fútil (banal, insignificante), ou, impelido por motivo torpe (vil, repugnante). Alguns “especialistas” o tomam como uma mistura de amor próprio, egoísmo, instinto sexual e de uma noção deformada de justiça.

    O ciúme é um sentimento universal, que acomete homens, mulheres e crianças independentes de raça, condição social ou idade. Pesquisas indicam que aproximadamente 20 (vinte)% dos homicídios cometidos são causados pelo ciúme.

    O Código Penal disciplina que os estados emotivos ou passionais não excluem a responsabilidade penal. Daí a condenação pela pena máxima.

  7. Obrigada pelo comentário, prezado Marcos André M. Cavalcanti!

    Esse terrível crime consta nos anais da história dos processos criminais do Rio Grande do Norte, como um dos mais chocantes, ocorridos na metade do século passado..
    O crime foi friamente premeditado, por motivo torpe e mediante paga. O ódio e a vingança pela perda do objeto da paixão recaíram contra duas vítimas inocentes. A crueldade de Maria Linhares marcou época em Natal. Ela foi a primeira condenada, que cumpriu integralmente a pena de reclusão que lhe foi aplicada.

    Um abraço, e uma ótima semana!

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