JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

Vila Pasteur

O cosmopolita bairro Jamacaru em Missão Velha, era um dos três mais antigos da cidade. Os primeiros moradores do bairro foram também os primeiros a chegar, antes mesmo da emancipação municipal, ocorrida em 8 de novembro de 1864.

Vindos, todos, numa leva trazida por um navio espanhol, sabe-se que teriam vindo da Armênia e, assim, culturalmente viviam apegados uns aos outros, até pelas dificuldades de relacionamento em função do dialeto usado na cidade de origem.

Foram morar em Jamacaru, e ali construíram uma vila de casas, a qual deram o nome de Vila Pasteur, para facilitar as entregas de correspondências e encomendas que chegavam pelos Correios. E assim ficou: Vila Pasteur, bairro Jamacaru, em Missão Velha.

Mas, pela distância que ficava do centro da cidade, apesar do aspecto cosmopolita, os demais moradores da cidade diziam que a Vila Pasteur ficava na “Baixa da égua”!

Construída de forma proposital numa rua que só tinha entrada (todos entravam e saiam pelo mesmo local), dando a impressão do que hoje chamam de Condomínio Fechado.

Duas fileiras de casas, divididas por uma alameda central. As casas do lado direito de quem entrasse, tinham os números pares, e, as que ficavam do lado esquerdo, os números ímpares. Na alameda central foram plantadas mudas de ipês amarelos e brancos e, de forma organizada, mudas de acácias rosas.

As pessoas que ali moravam, faziam parte (provavelmente) da quarta ou quinta geração dos fundadores da Vila. Quase ninguém atingira 100 anos de idade.

Alzira, uma senhora que havia anos ficara viúva de Alcides, tinha apenas um filho Aristeu – que viajara para o interior de Minas Gerais, onde cursava uma escola de formação de sargentos do Exército – o que obrigou Alzira a viver praticamente só naquela casa. Adquirira o hábito de passar boa parte da tarde na janela da casa, observando o cântico dos passarinhos que viviam e se reproduziam nos ipês e acácias da alameda central da Vila.

Alzira, diziam, dava conta da vida de todos que ali moravam. Dava cumprimento de “bom dia” a quem passasse na calçada da porta próxima da janela onde se debruçava. E tinha o hábito de cobrar respostas para o cumprimento.

A meninada da Vila passou a chama-a de “cabra velha” – por ela morar na casa de número 6.

Na Vila Pasteur, todos conheciam todos. O carteiro dos Correios também conhecia todos pelo nome e sabia exatamente onde cada um deles morava – o número da casa. Fazia anos ele entregava correspondências – já era conhecido e amigo até dos cachorros que, quando o viam agitavam o rabo em sinal de alegria, retribuindo um carinho qualquer.

Nos sábados pela manhã, os moradores se reuniam em mutirão para a limpeza da alameda, poda de alguns galhos envelhecidos e, por vezes, também se reuniam em mutirão para a pintura da parte frontal de alguma das casas da vila. Todos eram amigos – desde os primeiros que ali chegaram.

As casas de numeração par, seguiam até o número 12. Do lado esquerdo de quem entrava na vila, as casas seguiam até o número 11.

No número 9, moravam Bráulio e Iraci, aparentados de um político que se candidatara com o objetivo de facilitar a convivência dos seus e de alguns que tivessem motivos para votar nele – eles, os descendentes dos armênios, não praticavam a política do “toma lá, dá cá”, mas passaram a admitir que “gentileza gera gentileza”.

Todos que ali nasceram e moravam, sabiam das dificuldades que os antepassados enfrentaram desde a saída da Armênia, o embarque quase clandestino num navio espanhol e, mais ainda, a liberação para viver no Brasil. Foi lhes oferecido e indicado um pedaço de terra de marinha em Jamacaru, Missão Velha. A oferta lhes pareceu um presente dos céus de uma nova terra prometida.

Vestes e hábitos chamaram a atenção, o que praticamente os obrigou a viver do nada ou do quase nada que trouxeram. Resistiram. Persistiram. Cresceram, e hoje são uma pequena parcela dos mais de 200 milhões de brasileiros.

Alzira viveu boa parte de tudo isso. O que não presenciou, ouviu dos pais e avós. As mágoas que trouxeram da quase fuga, foram transformadas em fertilizante para a vida e o bem comum entre todos. Inclusive os da Vila Pasteur, com raízes que continuavam crescendo por conta das gerações atuais.

OBSERVAÇÃO: Viver fora do nicho, certamente não é coisa boa. Aqui mesmo no Brasil, a cidade de “Treze Tílias”, em Santa Catarina, é um dos melhores exemplos de adaptação e crescimento de estrangeiros numa “terra prometida”. Sem que tenha sido uma leve pretensão de equiparação com Israel e a defesa do seu estado contra a Faixa de Gaza.

A cidade de Jamacaru, a Vila Pasteur e a Faixa de Gaza ficam todas na “baixa da égua”.

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