ALTAMIR PINHEIRO - SEGUNDA SEM LEI

A Vigésima Quinta Hora, assim como outros livros e filmes que se têm, leem-se ou assistimos sobre o nazismo, são coisas que nos levam a pensar na nossa condição humana de URGÊNCIAR nossa liberação de preconceitos. Obviamente, a obra-base, o livro que é um romance de um escritor romeno é muito superior, mais trágica, forte, filosófica, triste e sofrida, mas o filme traz uma ótima adaptação. A película cinematográfica é exageradamente brutal em razão de um simples romeno, vira judeu, depois nazista e tudo isso pra virar romeno de novo, tornando-se numa jornada maluca. Na verdade, é um episódio trágico mas com um final triste e feliz ao mesmo tempo. No seu romance — que virou filme igualmente bem-sucedido do mesmo ponto de vista que qualifica os best-sellers —, o padre da Igreja Ortodoxa e escritor Constantin Virgil Gheorghiu deixa uma mensagem bem clara que só há um motivo para explicar tudo isso: O ROSTO DE HITLER ERA UMA MÁSCARA DE SANGUE…

A sinopse do filme que tem uma duração de uma hora e meia, trata de uma Romênia do ano 1939, que tem em Johann Moritz(muito bem interpretado pelo ator mexicano Anthony Quinn que morreu em 2001 aos 86 anos). No enredo, um simples camponês, é falsamente rotulado como um judeu e enviado para um campo de concentração nazista. O homem responsável pela deportação é um policial do distrito, que cobiça Suzanna, a mulher de Johann. A fim de salvar sua casa de ser confiscada como propriedade judaica, ela é forçada a se divorciar. Dezoito meses mais tarde Johann escapa para a Hungria, mas as organizações de refugiados judeus se recusam a ajudá-lo, porque ele insiste que não é judeu. Capturado, é ironicamente considerado por um coronel nazista, como um exemplar-modelo de ariano (medem seus ossos, nariz, rosto, etc.) e obrigado a alistar-se como um soldado da SS. Ele acaba por passar toda a guerra, sem entender os motivos, de tudo aquilo que lhe está acontecendo, nem as razões do conflito mundial.

O professor de geografia, Jesus Curado, tem uma tese bastante interessante, diz ele: “A mulher pode ser para o homem, motivo de salvação ou de perdição. Isso vale para a vida real, tanto quanto para a literatura. Na literatura talvez com um pouco mais de ênfase, que na vida real. Mas a regra vale para ambos. Helena com sua beleza inigualável, foi a perdição de Troia. E Susana foi a perdição de Johann Moritz”. Moritz e Susana, são personagens do livro que se transformou em filme. Foi por causa de Susana, que o pobre aldeão foi lançado num campo de concentração. Johann Moritz, nada fez, nem mesmo era judeu. Seu único pecado foi se casar com uma mulher bonita, Susana, que caiu nas graças de um capitão da SS, que para ficar com Susana, mesmo que a força, tinha que ter o caminho livre e Moritz era o empecilho para que ele alcançasse o seu objetivo. Alguém já disse que a alma da mulher tem algo de obscuro, de misterioso… Será?!?!?!

O desenrolar do filme é um clássico da incompreensão. Tudo isso em razão de, o camponês Moritz, interpretado por Anthony Quinn estava casado com a linda Suzanna (Atriz Virna Lisi) e levava vida normal, alheio aos embates dos tempos modernos. No filme, há um escritor que se tornou amigo do protagonista Quinn e a certa altura ele desabafa para o amigo: “O Ocidente criou uma sociedade semelhante a uma máquina. Obriga os homens a viverem no seio dessa sociedade e a se adaptarem às leis das máquinas”. Mais afinal, por que o título do livro ou do filme é a vigésima quinta hora? Nas entrelinhas, toda a história nos faz crer ou diz que esta é a hora em que nada mais poderá ser feito. Nem um Messias vai salvar a humanidade na vigésima quinta hora. O dia tem apenas 24 horas, numa alusão de que o que tem que ser feito deve ser feito enquanto for possível. Depois, não adianta mais. O tempo se esgota. VIGÉSIMA QUINTA HORA É um filme penoso, revoltante, que provoca indignação, mas serve para o telespectador concluir que cor era a máscara usada pelo ditador Hitler. Vale a pena assisti-lo.

9 pensou em “A VIGÉSIMA QUINTA HORA: O ROSTO DE HITLER ERA UMA MÁSCARA DE SANGUE…

  1. Pinheiro
    Agora tu pegou pesado sem dar um único tiro, como é o costume e o titulo dcoluna insinua. Fizeste um crônica poética e me convenceu a ver este vilme
    Muitissimo grato

  2. Caro Altamir.

    Eu assisti este filme já deve ter uns 50 anos e nunca o esqueci.
    Apenas não lembrava mais do título original. Um belo filme que mostra o ” non sence ” dos nazistas que continuam em toda parte e em todas as épocas. Pouca coisa mudou.
    Com o talentoso Anthony Quinn ( 2 Oscars ) e a bela Virna Lisi ,
    que além de muito bela, tinha muito talento.
    Abraços.

  3. Sr. Altamir Pinheiro. Que grata surpresa ler a sua coluna hoje. Constatar e antes de mais nada agradecer -lhe imensamente, pelo pedido que havia-lhe feito sobre esse filme “A vigésima quinta hora”. Suas considerações e comentários são sempre didaticamente abrangentes e explicativos. Uma aula de história sobre cada filme e seus personagens. Um filme intensamente marcante até hoje. Mas, quando o assisti pela primeira vez, como lhe falei, na década de 70. Eu era muito jovem e nosso mundo era outro. Nossa visão daquele mundo, também era outra. Depois de ver o filme e aos poucos aquele impacto foi-se dissipando. Os questionamentos, as dúvidas e as perguntas se misturavam na minha mente. O mais preemente era entender por quê o filme chamava -se “A vigésima quinta hora”? Se o dia tinha 24 horas. O que é que tinha haver esse título com o enredo do filme: violento, insidioso, injusto, desagregador, imoral. Ateístico? Agnóstico? Nossos padrões morais e religiosos, eram inquestionáveis e inquebrantáveis. Confesso ao senhor: gerou um conflito mental que tive que travar. Até o momento que foi possível relaxar e apaziguar as idéias com algumas orientações do meu saudoso pai. Portanto, agradeço-lhe mais uma vez pela honra que me deu, ao tecer, como sempre, seus abalizados e competentes comentários sobre os diversos temas. Mais particularmente sobre esse filme, hoje. Enredo, roteiro, direção, personagens e seus atores fantásticos. Uma verdadeira lição para todos cinéfilos e leitores do JBF. Meus sinceros cumprimentos.

    • Prezado Luiz Carlos, diz você:

      ……….Suas considerações e comentários são sempre didaticamente abrangentes e explicativos… ARREPIANTE É LER UM COMENTÁRIO DESSE… BRIGADÃO PELO DESTAQUE QUE VOCÊ DEU AO TEXTO DESSA EXCELENTE PROJEÇÃO CINEMATOGRÁFICA, QUE É NA VERDADEIRA ACEPÇÃO DA PALAVRA, UM BAITA FILME!!!

      P.S.: – Estou a sua inteira desposição para acatar, se possível, seus palpites. Lembrando-lhe sempre que o meu forte não é a cinematografia como um todo(isso fica a cargo do gigante d.matt). Prendo-me mais aos filmes faroestes.

      Abraços,

  4. Porra, hoje o Altamir está genial!

    Como não aplaudir? Destaco o trecho: Alguém já disse que a alma da mulher tem algo de obscuro, de misterioso… Será?!?!?!
    Cícero Tavares está lá na coluna dele trazendo a beleza de uma deusa brasileira e deixando loucos nossos simpáticos velhinhos, entre os quais me incluo. Valeu, Altamir!!!!!!
    Esses colunistas fubânicos são de encher de orgulho a todos nós.

  5. Caríssimo cinéfilo Altamir Pinheiro.

    Anthony Quinn provou sua genialidade interpretativa no extraordinário filme ZORBA, O GREGO (1964), do excelente diretor grego Michael Cacoyannis.

    Seu encontro à beira dum rio no deserto com um companheiro melancônico, dançado a música Zorba, o Grego, composta pelo magnífico maestro Mikis Theodorákis, é de uma beleza indescritível.

    Anthony Quinn é imortal pelo seu talento interpretativo. Por onde passou deixou seu nome escrito na calçada da fama sem bajulação.

    Valeu o artigo, Mestre.

    Xêro em Antonio Miguel, o Cowboy, o futuro cineasta que vai resgatar com seriedade cinematográfica a magnífica história de Lampião (como bandido) para as telas de cinema.

    • TAVARES,

      Uma curiosidade na biografia de Quinn é que ele adotou uma menina de rua quando esteve certa vez no Brasil, registrando-a como filha.

      P.S.: – Quanto a Antonio Miguel, o cowboy, que nasceu de 7 meses parecendo um fuinha, já está vendendo saúde, pois está com as boxexas parecendo o Fofão…

  6. A título de informação para os apreciadores da Sétima Arte que frequentam este espaço, se já não bastasse os cinemas de interior que tomaram DORIL, e os cinemas ao redor do mundo, principalmente nos Shoppings
    Centers ainda fechados por causa da pandemia a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas começou a disponibilizar para seus membros os filmes inscritos para concorrer ao Oscar de Melhor Filme. Por enquanto, os longas listados têm apenas o apoio dos próprios estúdios.

    Por enquanto, A Assistente (Bleecker Street), Crip Camp: Revolução pela Inclusão, Destacamento Blood, Você Nem Imagina, Lost Girls: Os Crimes de Long Island (os quatro da Netflix), Never Rarely Sometimes Always (Focus Features), Military Wives (Lionsgate), The King of Staten Island e Trolls 2 (ambos da Universal) são os únicos filmes listados. Outros grandes estúdios como Sony, Warner, Disney e Paramount ainda não enviaram seus candidatos.

    P.S. : – Em 15 de junho, a Academia anunciou o adiamento da cerimônia do Oscar em 2 meses. Antes marcado para fevereiro, o evento agora acontecerá em 25 de abril.

Deixe uma resposta