A VERDADEIRA HISTÓRIA DE FRANK SINATRA, O CÃO QUE CANTAVA

Carlito Lima, o cara que imaginou a maior quantidade de contos eróticos passados em praias, deve ser doido por areia e pode ter o Guiness de tanta história de transa à milanesa: é praia da Jatiúca pra cá, praia da Ponta Verde pra lá, e praia da Pajuçara, praia da avenida da Paz, praia do Trapiche da Barra, praia da Boa Viagem e sei lá mais quantas.

Mas algumas vezes escreve sobre outras coisas, como outro dia lembrou o caso do Cachorro Que Chorava.

Trata-se de Johnson, um cão alagoano que não podia ouvir a música Vida Minha na voz de Altemar Dutra que se punha a chorar.

Uivava de dar gosto; e ficou tão famoso que foi levado ao Rio de Janeiro, para um programa de variedades nos anos sessenta, do Flávio Cavalcanti, onde botaram para tocar a música e Johnson chorou que dava pena. Acho que saíam lágrimas.

Johnson ganhou mundo. Ficou famoso.

Contei a Carlito que eu tive um vira-latas, desses amarelinhos, pego na rua, que cantava, e ele me disse: – Frank Sinatra dá um conto, caro Goiano!

É que eu me esqueci de contar que o cão, logo que me foi confiado, tirado do relento para eu acabar de criar, sentava-se na varanda, esticava o pescoço para o alto e se punha a uivar, com saudades de suas cachorras (ele fugiu tanto, tantas vezes, e foi recapturado, porque tinha o número do telefone gravado na coleira, que acabei tirando a coleira e da última vez que ele fugiu ninguém mais telefonou e ele voltou ao, digamos assim, abandono, que era o que ele desejava, para sempre – ou quase).

Mas, o nome, Frank Sinatra, eu o dei como uma homenagem reversa: o cachorro era completamente desafinado.

Nunca vi na minha vida um cachorro uivar tão mal.

Ocorre que as notícias correm o mundo, alguém nos Estados Unidos ficou sabendo de um cachorro que cantava, no Brasil, que tinha o nome de Frank Sinatra, e deve ter entendido que o cachorro cantava igual o Blue Eyes…

Um belo dia, apareceram uns gringos na minha casa, em Petrópolis, com uma tradutora: Queriam porque queriam comprar o cachorro para apresentá-lo na televisão norte-americana.

Me ofereceram uma baba. Em dólares.

Eu nunca menti sobre o cachorro, eles é que chegaram e queriam levar o bicho. Me senti à vontade para fazer doce e disse que Frank Sinatra não estava à venda.

Eles faltaram é chorar. A tradutora implorou por eles e depois do preço quadruplicado ou quintuplicado eu acedi, desde que cuidassem bem do artista e o alimentassem com acém moído, que era o que ele mais gostava.

Eu disse que Frank estava na hora da sesta, ficaram de voltar no dia seguinte, e assim que eles saíram corri para a rua à procura do famoso animal.

Tive sucesso. Meia hora depois encontrei uma loja de bichos com uma tijela de ração e outra de água na porta, para alimentar os cães de rua e tive a certeza de que ali me dariam a dica.

Entrei e não deu outra. Me perguntaram se era um cachorro que uivava feio, eu disse que sim, me contaram que ele tinha acabado de passar por ali, me mostraram a direção e lá fui eu.

Logo vi Sinatra. Ele também me viu e escafedeu-se. Não queria voltar para casa. Meia hora de perseguição, consegui enganar o danado e peguei-o.

No dia seguinte eles vieram, levaram Frank Sinatra, felizes da vida, enquanto eu me sentava olhando a paisagem, tomando uma cerveja e contando o dinheiro da reforma da casa.

Ô, sorte!

Não sei direito o que aconteceu.

Na época, o xará do cachorro ainda estava entre nós, parece que fizeram uma apresentação de tv em rede costa a costa programando a apresentação dos dois, ao vivo.

Alguém me contou que quando Frank Sinatra abriu a boca para o dueto com Frank Sinatra, e se ouviu aquele uivo tão completamente desafinado, Frank Sinatra ficou muito ofendido com a palhaçada e processou a emissora, que está querendo desforrar em mim, em alguns milhões de dólares.

Meu advogado garante que não vai dar em nada, não teve contrato, e a coisa está rolando, agora é que chegou, anos e anos depois, na Corte Suprema e eu nem tchum.

Quem mandou não me pedirem uma audição antes?

24 pensou em “A VERDADEIRA HISTÓRIA DE FRANK SINATRA, O CÃO QUE CANTAVA

      • Carlito, se você for publicar, pode corrigir o nome do cachorro que chorava, que ficou só Johnson, e acrescentar o Lyndon, fica mais interessante, Quando recontei o teu caso esqueci de pôr o nome completo do Mr. President rsrsrs

  1. Goiano, essa não colou ok ?
    Essa história está muito upside down.
    Que tal falar de politica ” comme d!habitude ? ”
    O verdadeiro Sinatra gravou em ” My Way ”
    Que estória mal inventada do cacete .

    • D. Matt, a história é real! O cachorro estava na rua, tremendo debaixo de um carrinho de cachorro-quente, parecia já ter mais de um ano de idade, e uma senhora me sugeriu ficar com ele – ela achava que ele estava perdido. Que nada, ele era da rua mesmo, tanto que com casa, boa alimentação e a companhia de outro cachorro, o rottweiler Ranger (eles se estranhavam de vez em quando e o pequenino levava a pior), ele não quis saber, fugia sempre que podia. E eu o resgatava novamente, sempre contra a vontade dele, isso estava na cara, ou no focinho. Logo que o levei, ao pensar no nome que lhe daria, a ele, escolhi Frank Sinatra, porque quando uivava parecia querer cantar, e era um troço desafinado, desentoado, meio rouco, o contrário do Blue Eyes – uma espécie de ironia.
      A venda do cachorro para os norte-americanos, sua apresentação com Frank Sinatra em 1997, tudo está documentado no especial Frank & Frank. Também podes acessar o processo que movem contra mim na Suprema Corte (acho que está catalogado como “Case: The State against a singing dog”). Meus defensores me disseram que se eu ganhar a causa fico podre de rico.

      • Goiano, guerra é guerra.

        Eu tive um papagaio que cantava ” Ne me quite pas ”

        inteiro e melhor do que a Nina Simone ”

        Gostou Papudo ?

  2. Grande Goiano!

    Que maravilha! Um assunto que toca o coração das pessoas de bem.
    Acabou o bloqueio criativo! Viva!
    ***
    Também tive uma cachorra com um dom especial. Não cantava, mas latia numa frequência sonora que atingia o hipotálamo do cidadão.
    Os noiados e pedintes que parassem a frente de minha casa e deparavam-se com ela não suportavam um minuto dos latidos constantes e ensurdecedores. Os noiados saiam primeiro porque parece que aquele ultrassom de Negona cortava o barato e eles tinha que fumar outra pedra para ficarem ligados de novo.
    Negona era uma vira-lata gourmet filha de pastor com boxer. O vigor híbrido prevaleceu e nunca precisou de muitos cuidados veterinários.
    Era a fiel guardião da minha casa e por longos 12 anos nunca permitiu que alguém adentrasse sem licença.
    O seu último ano de vida foi muito sofrido, no entanto. O único em que gastei com veterinário e remédios. Um ano tomando comprimidos que eu escondia dentro de uma salsicha.
    Comer aquelas salsichas que ela gostava e ainda aliviavam as dores deve ter sido bom, pois ela nunca recusava.
    Quando caiu definitivamente tomei a decisão de sacrificá-la.
    Depois de Negona ladrões conseguiram entrar no meu quintal. Duas vezes.
    Mandei instalar alarme com uns alto-falantes de 120 decibéis. Eles imitam, mas não chegam a perfeição do latido de Negona.
    ***
    Negona e outras cachorras leais e carinhosas como ela me fazem entender porque alguns dizem que preferem os cães aos homens.
    ***

  3. Caro Sanianin, posso compreender isso. Tive muitos cachorros em minha vida, poucos tiveram fim “normal”, uns fugiram, e desapareceram para sempre ou apareceram atropelados, outros foram envenenados, uma eu tive de dar porque estranhava as pessoas e chegou a arranhar o rosto de uma criança. Agora, o rottweiler, o Ranger, com seus doze anos (também), toma seu comprimido diário de Glucosamina/Condroitina para a displasia de quadril, mas seu porte e o seu (dele, é claro) latido faz gelar o sangue nas veias, ainda. Quanto a preferir os cães aos homens é normal. Mas prefiro mulheres aos cães, devo assinalar até com uma certa veemência.

  4. Tive uma cachorra (ela insistia para assim ser chamada) num puteiro que deixou grandes recordações. Coisas do amor. Dizem que fugiu para os braços de Sinatra quando esteve no Rio de Janeiro (um cara que traçou quem passou ante deus blue eyes). Dizem certos direitistas despeitados (ainda bem que Sancho é comunista), que o Goiano suspira e revira os olhos com seus discos de vinil de Frank cantando, principalmente quando este canta May Way.

    • Meu caro Sancho Pança, na verdade My Way é um dos sucessos bombásticos de Frank Sinatra; não que eu deixe de apreciar, mas o gosto mais refinado de seu dele jazz vai pirar mesmo é com coisas como River, Stay Away From My Door!
      Quase ninguém tem acesso, only connoisseurs, se me permites a misturada.
      Lá vai, é de cocheira:

      • Goiano, eu pensava que conhecia todas as gravações do grande Sinatra, mas na verdade nunca tinha ouvido esta belíssima gravação que é puro Jazz, da época em que
        a voz do Sinatra estava no auge, era ouro puro.
        Com relação a sua irmã, eu acredito. Mas experimente
        ouvir a gravação da nossa MAISA cantando ” Ne me
        quitte pas ” é sensacional. Voce encontra na internet
        no youtube , que publicaram como se fosse a grande Edith Piaff, quando na verdade a Edith Piaff NUNCA
        gravou essa música.

        Saudações musicais.

  5. D. Matt, tens razão, a Maísa é um caso à parte e cada um com seu estilo.
    Vou lhe oferecer outra apresentação fabulosa de Blue Eyes, quando ela interpreta uma velha canção popular, folclórica, autor desconhecido, Old MacDonald Had a Farm, dando-lhe a sua graça.
    Desfrute:

  6. Caro amigo Goiano,
    Minha patroa foi à caixa de correspondência e trouxe-me, neste exato momento os CD’s, como você prometera.
    Muito agradecido.
    Percebi que você reside em uma cidade que muito aprecio e vizinha da minha mui amada cidade natal, Paraíba do Sul.
    Petrópolis, cidade acolhedora e encantadora. Cultura, bons restaurantes. Estivemos aí, eu, minha esposa e meu neto, em julho do ano passado. Almoçamos em um restaurante português próximo à igreja matriz. Boa comida e excelente atendimento.
    Minha esposa comprou hoje, a meu pedido, uma garrafa de cachorro engarrafado. Abri-la-ei (ataque de mesóclise, Temer, vade retro) no momento para curtir o CD. É bem o estilo que aprecio. Repertório semelhante ao de um CD que possuo, do Roberto Luna, com interpretações de músicas do grande Lupicínio Rodrigues.
    Grande abraço e uma excelente semana.

  7. Mauro, espero que a audição seja agradável – são músicas antigas, que eu aprecio muito, salvo a primeira, que nunca foi do meu repertório e que gravei por determinação do produtor do CD: ele é o arranjador e queria fazer uma experiência – e fez – de variar estilos/ritmos na música, e também queria incluir pelo menos uma menos antiga.
    Roberto Luna foi muito conhecido, bela voz, repertório romântico bem escolhido, creio que está vivo ainda, com seus noventa anos.
    Ah, e quanto ao cachorro engarrafado, me faz cantar que é uma beleza rsrsrs
    O restaurante português onde vocês almoçaram é o Transmontano, top de linha, muito apreciado por quem come lá.
    Vou aproveitar a oportunidade para lembrar do Roberto Luna cantando Molambo, do Lupiscínio:

    https://www.youtube.com/watch?v=UzdtyvCCbeM

    Grande abraço e bom proveito com o melhor amigo do homem engarrafado, que deve ser um cachorro escocês hehehehehe

  8. Goiano,
    Foi isso mesmo, você me lembrou. O nome do restaurante é Transmontano.
    É isso aí, meu amigo. Até por coincidência, ultimamente, devido ao preço mais em conta, tem sido Black & White, com aqueles dois cachorrinhos no rótulo, um branquinho e um pretinho.
    Você se lembra do Roberto Luna cantando Molambo por aí, e eu ouço o Goiano cantando Molambo por aqui.
    Abração!
    .

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