RODRIGO BUENAVENTURA DE LÉON - LIVRE PENSADOR

Conforme disse no texto anterior, inspirado pelo Prof. Marcelo Bertolucci resolvi republicar estes dois textos e terminar a série com dois inéditos que virão em seguida. Aqui vai…

[…] Por que estou desesperadamente desesperançoso com a capacidade crítica de nossa Universidade Pública? Porque compreendo que ela é o loci da transformação social e esta transformação pressupõe debate, embate, discordância, fluxo e contra-fluxo de ideias. Só que na Universidade pública brasileira, faz muito tempo, desapareceu a diversidade de pensamento. Há apenas uma unicidade do pensamento ideologizado de esquerda, repetido como um mantra em todos os recantos da Universidade e qualquer divergência mínima deste pensamento é combatida até a destruição. A patrulha ideológica é real e cruel no ambiente universitário, arrasa carreiras, amedronta e agride.

Mas o buraco é mais embaixo ainda. Por que se faz política nas Universidades públicas? Simples, dinheiro e poder. Uma Universidade ou Instituto Federal têm um orçamento anual (incluídas as folhas de pagamento) que suplanta a grande maioria dos municípios de médio porte brasileiros. Um Reitor em uma Universidade pública tem centenas de cargos de confiança para nomear, muito mais que os prefeitos dos municípios que as abrigam.

São cargos que podem ser usados para nomear correligionários de fora da Universidade ou pessoal da própria Universidade (na maioria dos casos) e os valores das CC’s somam-se aos salários dos servidores variando entre R$ 600,00 a mais de R$ 7000,00 (há funções de menor valor mas a maioria se situa nesta faixa, no caso das Universidades e Institutos Federais).

Há também o poder de indicar pessoas para Comitês e Conselhos, a destinação de bolsas, de verbas de pesquisa e extensão, diárias, viagens nacionais e internacionais e uma série benesses para os mais próximos e apaniguados do poder ‘reitoral’. Por exemplo qualquer Universidade e/ou Instituto Federal tem em suas contas pelo menos uma centena de telefones celulares ditos institucionais, com as contas liberadas e pagas pelo povo, que são distribuídos para aqueles que comungam das benesses e da proximidade do gestor.

É muito poder e dinheiro e isto cresceu mais ainda durante os Governos do PT com a expansão Universitária. Esta expansão foi feita de forma politiqueira e não técnica e, ao invés de qualificar os cursos (muitas vezes precários) já existentes, passaram a abrir campi nos mais diversos rincões do país.

Na maioria das vezes a expansão se deu através de escolhas políticas, ou seja, o prefeito ou um deputado da região fazia parte de partidos da base ou tinha influência suficiente e pronto a cidade ganhava um campus de Universidade ou Instituto Federal, as vezes dos dois.

Há municípios em são ofertadas mais vagas de ingresso no ensino superior do que egressos do ensino médio, anualmente. Dinheiro jogado fora e, em municípios que faltam estruturas mínimas para o ensino básico. Pura politicagem.

Mas os partidos políticos de esquerda, que já dominavam o ambiente universitário, aproveitaram para aparelharem ainda mais as Universidades promovendo mais um expurgo das ideias contrárias.

O grande poder econômico e estratégico dos reitores e da gestão nas Universidades e Institutos públicos (especialmente federais) fez com que partidos como PSOL, PSTU, PSB, PC do B, PT e Rede passassem a disputar quase a tapa estes cargos. Fazendo qualquer coisa pelo poder gestor nas Universidades, tornaram ainda mais suja a prática política em nossa academia.

A eleição para Reitor, além de encerrar um poder bastante considerável no cargo, é realizada em um ambiente em que há grande hegemonia ideológica (apesar da grande disparidade de interesses individuais e de grupo) mas um ambiente restrito.

Praticamente, além da disputa entre os candidatos a única divergência é sobre o tipo de voto Universal (o voto tem peso individual) ou Paritário (cada grupo professores, técnicos e alunos tem 1/3 do peso final nas eleições). O que é um absurdo pois quem paga a conta, os salários e a ineficiência destas instituições é a sociedade e ela, a sociedade, é solenemente ignorada e desprezada no processo de escolha dos gestores desta montanha de dinheiro público.

Lançada a eleição é a política do vale-tudo. Promessas, mesmo ilegais, viagens, cargos, bolsas, benesses. Pode-se tudo nesta disputa por poder, em um ambiente restrito, com pequeno número de eleitores e totalmente alijado dos sentimentos e necessidades da sociedade que paga a conta, mas que vai glorificar o vencedor com um poder econômico e político imenso.

Campo fértil dos partidos de esquerda, estes transformaram a política universitária em um fac-simile de suas ideologias torpes e conseguiram criar um laboratório de testes para uma política ainda mais suja do que aquela que é praticada pelos executivos e legislativos Brasil afora.

Como esperar que desse ambiente saiam ou sejam formados aqueles livre pensadores que vão romper com o ciclo vicioso da política brasileira, nivelando por cima nossa medíocre democracia? É extremamente complicado esperar que aqueles que comungam e vivenciam este ambiente possam ser capazes de fomentar a mudança.

É preciso ‘desesquerdizar’ a Universidade brasileira. É preciso mudar o acesso a Carreira docente (com concursos e lotações centralizados no MEC, evitando que o ingresso de novos docentes seja direcionado e atenda critérios ideológicos tão danosos ao ambiente acadêmico, mas extremamente comuns nas Universidades públicas), fazendo valer o esquecido principio constitucional da impessoalidade.

Precisamos democratizar os Conselhos Universitários, órgãos máximos da Gestão Universitária e ao qual a sociedade não tem o mínimo acesso. São formados endogamicamente pela comunidade universitária, com viés político e não técnico. Chegam ao extremo de poderem decidir os próprios salários (dos servidores da Universidade) nas Universidade Estaduais de São Paulo. É um sonho um emprego onde um grupo de funcionários decide o salário, deles e dos colegas.

E, principalmente, precisamos mudar a forma de escolha dos gestores passando de eleições para seleções públicas, em todos os principais cargos de gestão. Que escolham-se os mais capazes, independente de grupos políticos e/ou ideológicos. Que aprendam a trabalhar de forma colegiada superando suas diferenças.

Parece um sonho distante, mas vejo, com grande entusiasmo, surgirem aqui e acolá grupos de resistência que contestam e desafiam o status quo do ‘aparelho esquerdista’ universitário. Em geral são alunos, ainda tímidos, mas que aos poucos vêm recebendo o apoio de professores e demais servidores.

Precisamos reagir, precisamos urgentemente desaparelhar e ‘desequerdizar’ as Universidades e Institutos de educação superior públicos do Brasil. Precisamos limpar o fétido ambiente político que instalou-se e gerencia o lixo em que se transformou a política universitária no país. Só assim daremos o primeiro passo na moralização de toda a política brasileira.

Mas para romper o ciclo vicioso temos que começar rompendo o aparelho de gênese política podre que instalou-se nas nossas Universidades públicas.
Comecemos e rápido. Há muito que fazer.

Lembremo-nos:

A Universidade Pública é o Lixo da Política brasileira.

9 pensou em “A UNIVERSIDADE PÚBLICA É O LIXO DA POLÍTICA – PARTE II

  1. Rodrigo,

    O lema deve ser:

    FECHA ESTA MERDA! O BRASIL INTEIRO AGRADECE!

    Sai mais barato, e faz um bem muito maior ao país, dar um voucher para os melhores alunos irem estudar em Harvard..

  2. Rodrigo, eu discordo de alguns pontos colocados por você. Eu dou professor universitário e trabalhei como assessor do pro reitor de pesquisa com uma gratificação de R$770,00. Então, vejamos:
    1- As verbas de pesquisa, de extensão são destinadas através de editais. Os projetos submetidos são avaliados por uma comissão e definido quais serão beneficiados. Então, a administração não tem autonomia pra apoiar A ou B;
    2- as diárias são baseadas em cotas e obedecem lei. Professor que vai apresentar trabalho congresso pode pedir ajuda. R$ 119,00 a diária e contemplam dias úteis. Eu já vetei diárias em fim de semana e pra professor que ia apresentar trabalho durante as férias dele.
    3- o conselho universitário é formado por diretores dos centros. Eles não tem capacidade de fixar salário de ninguém porque um professor adjunto ganha o mesmo salário em qualquer universidade que ele ensinar. Os diretores são remunerados pelo cargo que ocupam, como cargos de direção, CD4, que dá uns R$ 3.800,00 brutos
    4- a eleição de reitor, por força de lei, deve ter a paridade 70% (discentes), 15% pra técnicos e alunos. Sempre foi assim, no entanto, gestões de esquerda violavam isso e consideravam 1/3. As eleições ocorridas de 2019 pra cá foram feitas segundo a lei.
    5 – a eleição, que na verdade é uma consulta a comunidade, é feita de forma esquisita. O candidato que tiver mais votos nessa consulta, apresenta nomes no conselho universitário, além do dele, para ser votado pelo conselho. Pode incluir nomes que não foram votados na consulta. O conselho escolhe a lista tríplice mantendo em primeiro o mais votado na consulta. É escroto.
    6- a ideologia é mais forte nos cursos de humanas. O pessoal de tecnologia e de ciências sociais aplicadas possuem uma visão mais de mercado.
    Abraços

    • Caros Maurício e Arael,
      Vou responder para vocês em um texto único.
      Vejam este texto é de 2017, é uma republicação. De lá para cá muitas coisas avançaram e outras nem tanto.
      Maurício também fui pró-reitor e também tive diversas questões complicadas: uma vez tive um pedido conjunto de todos os 23 professores de um curso para participarem de um evento por uma semana, questionei como ficariam os alunos, resposta: deixaremos trabalhos. Neguei é claro.
      A partir do final de 2017, com a troca de governos a coisa ficou um pouco melhor, recursos de pesquisa e extensão passaram a ser obrigatoriamente por editais, antes apenas algumas iES faziam. Mas a Reitoria ainda tem discricionariedade para apoiar os ‘da turma’com verbas ou com obras. Também há as cotas de diárias de direções e reitoria que são distribuídas a bel prazer.
      Acho que te enganastes quando a CD de Diretores pois houve uma padronização em 2010 e nas Universidades é um CD3, bruto se não me engano é de 4800,00. Nos IF’s é maior pró-reitores e diretores de Campus tem CD 2 no valor, bruto de 5600,00.
      Quando falei da autonomia para salários me referi as estaduais e municipais, como a USP que quebrou por isso.
      Há que verificar o caso dos IF`s em que os conselhos são, por lei, 1/3 de cada segmento e a eleição, até a MP do Governo Federal era direta com voto paritário e lista uninominal.
      Mas vou comentar isto no próximo texto amanhã.

  3. Também sou professor universitário, ingressante na carreira em 1965, por seleção pública e exerci o meu ofício por mais de 30 anos, tendo ocupado diversos cargos na hierarquia da instituição, até aposentar-me.
    Como tal, vivenciei o desabrochar de muitas dessas instituições, dentre as quais a Federal da Paraíba, onde exercitei meu ofício, notadamente após 1964, quando podemos dizer que o Governo Central passou a olhar para o sistema, seja pela homogeneização de procedimentos, inclusive salariais, seja pela criação de órgãos de apoio e complementação operacional. como a CAPES e outros.
    Infelizmente os chamados avanços sociais e a versão atualizada do bacharelismo colonial travestida de títulos de pós-graduação passaram, a partir de um determinado tempo, a reger os procedimentos dessas instituições que gradativamente se tornavam as entidades políticas que hoje vemos.
    A partir daí, vimos o aflorar das mais diversas conchambranças, que fundamentaram uma política de compadrio hoje tão condenáveis nessas instituições.
    São cursos de alcance social praticamente zero, com professores em regime de tempo integral, presumivelmente dando aulas virtuais para dois ou três alunos, cuja graduação, especialmente no nosso sofrido nordeste, não contribui para o progresso social.
    Ressalte-se, a bem da compreensão de todos, que as universidades públicas federais dão muitas benesses, como essas acima mencionadas, mas não têm ainda poder para fixar seus próprios salários, que geralmente são premiados com alguns penduricalhos travestidos de pesquisas e assemelhados. A política de autogestão salarial se aplica tão somente a muitas das instituições estaduais ou municipais, cujos conselhos universitários esgotam o orçamento da entidade com polpudos salários e passam a pressionar o poder público por mais verbas, para poder funcionar, como tem ocorrido aqui pela Paraíba, “velha de guerra”.

  4. Mas (educativo mas), para romper o ciclo vicioso temos que começar rompendo o aparelho de gênese política podre que instalou-se nas nossas Universidades públicas.
    Weintraub, o que tiraram exatamente por querer o que diz trecho de seu texto, que copiei acima, publica nas redes: “Não abandone a luta”.

    Parece até que endereçou tal frase aos gigantes do ensino, que transitam brilhantemente pelo JBF, os señores Assuero, León, Arael e Bertoluci.

  5. Prezados,

    Segue os valores atuais das CDs (Cargos de Direção) e FGs (Funções Gratificadas), facilmente encontrados na internet.

    CARGO TOTAL 60%
    ———————————————–
    CD-01 R$ 13.474,12 R$ 8.084,47
    CD-02 R$ 11.263,53 R$ 6.758,12
    CD-03 R$ 8.842,39 R$ 5.305,43
    CD-04 R$ 6.421,26 R$ 3.852,76

    Como muito bem colocado pelo Rodrigo:
    é a moeda de troca dos Reitores, pagamento dos apoios políticos.
    É a tropa de choque do político, digo, do Rei-Tor, “pau pra toda obra”, claque de whatsapp, distribuidores de santinhos e o que for mais necessário.
    Um verdadeiro escárnio.

    CD-01 é apenas para o Rei-Tor. CD-02 é para o vice-reitor e para os pró-reitores. CD-3 para os diretores de unidades acadêmicas (Centros, Institutos). CD-4 para os vice-diretores de unidades acadêmicas e diretores das pró-reitorias. Para quem está na ativa, não pode receber o valor total. Mantém o seu salário e recebe mais os 60% da CD. Alguém de fora da instituição, e que percebe a CD como única remuneração, recebe o valor total.

    Os valores, das FG é bem mais baixo: A FG-01 é R$ 975,51 e a última, FG-09, é de R$ 61,67.
    Essas são para a ralé, para os 3os e 4os escalões. Há exemplos de pró-reitorias com uma diretoria (CD-4), com apenas um funcionário, que representava uma coordenadoria, com uma FG-01. Porém, a briga também é grande, e não tem para todos.

    Vou seguir, depois, em um outro comentário.

    • Rômulo,
      Não esquece que no Institutos Federais Diretores Gerais (de Campus) São CD-2, depois os Campus tem Diretores administrativos, de Ensino, de pesquisa com CD3 e um monte de Chefes de Depto com CD4. Além das FG e das FCCC.
      Meu caro, trabalhei na expansão do REUNI, não tens noção do que vi e vivi.

  6. Prezado Rodrigo, demais professores indignados, e leitores fubânicos.
    Não tenho o que acrescentar ao texto do Rodrigo, a não ser, a vontade de, em cada parágrafo, fazer um comentário adicional e, principalmente, dar um exemplo. Contar um caso vivido.
    Como falei em comentário anterior, tinha a intenção de colocar textos semelhantes, aqui no JBF. Mas a sua análise já está tão bem-feita que acho que acabarei me repetindo.
    O que seria preciso, nesse momento, é aproveitar o que você já tem, e que esses textos saíssem, extra-muros do JBF.
    Os esquerdistas farsantes, comprados pelas CDs e FGs, obviamente não vão ler e, se o fizerem, ainda será com o objetivo de tentar rebater, desfazer, destruir reputações, típico da sua natureza.
    Como alcançar mais gente, como dar maior visibilidade a estes documentos ?

Deixe uma resposta