RODRIGO BUENAVENTURA DE LÉON - LIVRE PENSADOR

Hoje no JBF li um texto brilhante do Colunista Marcelo Bertoluci. Lembrei-me de duas colunas que escrevi fazem alguns anos, e que foram publicadas nesta gazeta. Mostram a visão de um professor de Universidade Pública e o LIXO que é a Universidade brasileira.

Quando escrevi, pretendia fazer 3 ou 4 colunas. Digitei duas partes e parei, fiquei sem saco. Mas hoje, lendo a coluna do Marcelo, resolvi reler meus textos.

Passados dois ou três anos, não há reparo nestas duas colunas e decidi escrever as outras duas.

Por isso pedi ao Berto para republicar as duas primeiras e depois mandarei as outras duas. Só para refletir…

* * *

Cada vez que penso no futuro da política no Brasil acomete-me uma grande desesperança, quer no presente quer no futuro. Também com nossos políticos só poderias perder toda a esperança, dirão alguns.

Não, não é por isso. Se fossem só os políticos e o sistema partidário, o choque de ações como a Lava-jato somado as manifestações de rua acabariam por surtir efeito, resultando em uma grande profilaxia que expurgaria as hordas de políticos corruptos, corruptores e seus asseclas do poder secular quer seja em Brasília quer seja nos mais distantes rincões da Nação.

Minha desesperança vem de algo mais profundo, de minha alma e da constatação crítica de que a situação política brasileira é algo mais grave e duradouro.

Primeiro se olharmos, despidos de lentes ideológicas ou da máscara do personalismo, veremos que desde nosso Congresso Nacional a mais singela Câmara Municipal, os políticos que ali habitam representam de forma precisa a sociedade brasileira, com suas virtudes e mazelas.

Estão ali os radicais, os representantes das diversas fés (e aqueles que delas se aproveitam), os espertalhões, os sinceros, os mentirosos, os semi-analfabetos e os pseudo-intelectuais. Nossos políticos são um retrato nu e cru de nossa sociedade. Os corruptos que ali estão representam, sim, o cidadão que vocifera contra estes mesmos corruptos, mas não se envergonha de furar a fila, de jogar lixo no chão ou de dar uma ‘cervejinha’ ao guarda. Admitamos ou não a política brasileira espelha a alma de nossa sociedade.

Até ai podemos antever algumas saídas. Se colocarmos o dedo na ferida, fizermos o mea culpa, reconhecermos a verdadeira face de nossa sociedade talvez tenhamos um caminho para salvar nossa política e consequentemente nossa Pátria que ainda não é Nação.

Vejam não estou (e estou também) criticando o indivíduo, o brasileiro e, sim o reflexo de suas atitudes na sociedade que o espelha. Política desde a Grécia antiga é a arte de viver na pólis (cidade), ou seja, é a arte ou ciência da organização, direção e administração de nações ou Estados. É por óbvio essencial a vida em sociedade e se espelha exatamente na sociedade que a acolhe. Os políticos são os atores, os entes humanos (ou animais, dirão outros) que gerenciam a pólis, portanto são reflexos dela (sociedade), até porque são escolhidos (eleitos) por esta sociedade.

Esta é uma das razões de minhas inquietações, pois se a política reflete a sociedade como um espelho, para mudarmos a política temos de mudar a sociedade. Isto vem ocorrendo no Brasil e de forma não tão lenta, mas ainda é longo o caminho a ser percorrido e um dos fatores que podem acelerar esta transformação é a educação e aqui mora a principal razão de minha desesperança: a Universidade brasileira, especialmente a Universidade pública brasileira.

Por que? Porque devemos considerar que a política em sociedades mais ou menos democráticas, como a nossa, é feita pela eleição de prioridades e vontades de uma maioria. A vontade da maioria é o reflexo da média das vontades dos indivíduos que nela vivem, portanto pode ser considerada como medíocre. A mediocridade não é um defeito ou xingamento apenas a constatação de que está dentro da média, que não é algo que seja um disparate aos olhos da grande maioria.

Esta é uma característica da democracia, que pode ser vista como virtude mas que também é seu grande defeito, ou seja, a democracia como regime é medíocre. Mas como disse Winston Churchill (em 1947) “a democracia é a pior forma de governo, à exceção de todos os outros já experimentados ao longo da história”, talvez no futuro possamos ter outro regime melhor, mas por hoje é o que nos resta e, isto não me impede de considerá-la, neste ínterim, medíocre.

Bom então para alterarmos o status quo de nossa política é preciso melhorar nossa democracia, qualificando-a, elevando-a acima da média, suplantando a mediocridade. E como se consegue isto? Com educação, com formação crítica e qualificada, com a maturação de uma massa pensante que fomentará a mudança.

E este é o busílis da cizânia. Onde estão os loci desta formação/transformação? Estão nas Universidades brasileiras, especialmente nas Universidade públicas. Mas nossas Universidades públicas estão tomadas de profissionais medíocres (agora no mau sentido), politiqueiros, acomodados, na sua maioria sonhadores utopistas da esquerda falida. Nossas Universidades foram totalmente aparelhadas, tornaram-se reféns de sindicatos de servidores, são corporativas e em quase nada servem para atender os anseios da sociedade.

Como esperar que a fagulha da transformação saia de um ambiente contaminado por ideias e ideais ultrapassados e rançosos, como esperar que aparelhos corporativistas, do que há de mais torpe na política brasileira, possam fomentar a transformação do país, acabando exatamente com aquilo de que se alimenta.
Difícil, muito difícil. Na Universidade pública brasileira se faz pouca análise de conjuntura, pouco se propõe, menos ainda se executa, mas se faz muito barulho, muita crítica e principalmente muita política ou melhor muita politicagem. O ambiente da Universidade publica virou um cadinho onde funde-se e prolifera o que há de mais torpe na nossa política.

Não há que se estranhar pois foi este o local da gênese de boa parte dos partidos de esquerda e centro-esquerda no Brasil. O PT e o PSDB (sim, meus caros, embora os petistas afirmem o contrário, social democracia é um pensamento de centro esquerda, comentarei isto em outra postagem) se originaram na USP. PSOL, Rede e PSTU nasceram a partir de ações em Universidades e Institutos Federais e nos sindicatos a eles ligados. O PC do B sobrevive nas Faculdades de Ciências Humanas e nas Uniões Estudantis Brasil afora.

Por isso afirmo que a podre política brasileira mais do que refletir parte de nossa sociedade foi idealizada e gestada nos espaço onde deveria ser modificada, pensada, criticada e melhorada, a Universidade pública.

O jogo político neste espaço é ainda mais duro e mais sujo do que nos legislativos e executivos do Brasil. Na política Universitária se joga duro e sujo pois os valores envolvidos são astronômicos, a possibilidade de cargos e ganhos é enorme. Dali saem parte de nossas lideranças já batizadas a ferro e fogo nas práticas que levarão a seus Gabinetes.

Hoje se observarmos além do aparelhamento quase total e de uma política de eliminação do pensamento contrário, as gestões das Universidades públicas foram tomadas de assalto pelos partidos políticos de esquerda. O PC do B controla a UNE e o movimento estudantil, O PT (que vem perdendo espaço), PSB, PSOL (que vem crescendo neste espaço), PSTU e Rede dominam as reitorias e gestões.

Vemos ai que as esperanças de uma Universidade transformadora desaparecem na fumaça fétida que advém dos gabinetes universitários aparelhados, medíocres e reacionários (sim a esquerda pode e é reacionária, assunto para outra postagem).

Por isso minha desesperança cresce exponencialmente, pois não vejo saída próxima para a situação atual. Pelo que me concerne o ambiente Universitário não é reflexo das políticas públicas e dos políticos brasileiros, é ele (o ambiente universitário) que é refletido naqueles. Foi na Universidade pública que originou-se e que alimenta-se o pensamento político brasileiro. E, é nessa sujeira que se faz a política, ou melhor politicagem, da Universidade pública brasileira. Comentar tudo o que penso e as possíveis soluções para a política universitária no Brasil é muito para um texto apenas, por isso continuarei minhas elucubrações na próxima postagem.

Creio que só uma reflexão dura e sincera, doa a quem doer, com a admissão daquelas verdades que ninguém quer admitir poderá dar-nos alguma esperança de futuro. Para alguém que como eu foi professor de Instituição Federal toda a vida é frustrante admitir certas verdades e, mais ainda, é doloroso aceitar nossa impotência em tentar transformar as coisas.

Portanto encerro estes pensamentos com uma afirmação que corroí minh’alma e amargura meu coração só pelo fato de ter de proferi-la, mas que é fundamental à minhas esperanças no futuro. Como diziam os romanos veritatis simplex oratio (a verdade dispensa enfeites), desta feita concluo que:

A Universidade Pública é o Lixo da Política brasileira.

10 pensou em “A UNIVERSIDADE PÚBLICA É O LIXO DA POLÍTICA – PARTE I

  1. Prezado RODRIGO BUENAVENTURA DE LÉON
    Não tenho palavras para descrever o que senti, agora pela manhã, ao ler seu texto.
    O Berto vai entender a que estou me referindo, pois temos trocado algumas mensagens, nesses últimos dias, exatamente sobre a questão das universidades brasileiras, no contexto, irretocável, que você colocou.
    Que coincidência incrível, para mim, em função do que estou passando agora.
    Relatei para ele um pouco do que vivi, também como professor universitário, e mais recentemente, como pró-reitor. E depois de entregar o cargo, doente e indignado, passei a ser perseguido e ofendido, de forma vil, por essa gente maldita que se apossou das nossas universidades, como você muito bem descreveu.
    Acertei com o Berto que iria começar a escrever, neste espaço, da maneira sempre tão acolhedora e democrática que ele sempre disponibiliza para TODOS!
    Como estou organizando alguns textos e informações, até agora, só postei alguns comentários.
    E um dos motivos da satisfação ao ler seu texto, que mencionei no início, é que também pensava em um título semelhante ao seu; e também subdividido em várias partes.
    Sempre terminei minhas postagens – como no comentário ao texto excepcional do Marcelo Bertollucci, que você mencionou – com a seguinte frase: O estrago foi muito grande. Acho difícil ter conserto. Porém, o alento à descrença e desesperança, está, exatamente nas suas palavras finais: “só uma reflexão dura e sincera, doa a quem doer, com a admissão daquelas verdades que ninguém quer admitir poderá dar-nos alguma esperança de futuro”.
    Estou precisando, e querendo muito, ter ainda, alguma esperança no futuro, das nossas universidades, do nosso malsinado país.
    Pobre país!

    • Rômulo,
      Te entendo e como. Fui Pró-reitor, Diretor de Campus, Diretor de Faculdade, atuei na expansão do REUNI e na criação da UAB, ETEC-Brasil e dos Institutos Federais, onde fui Diretor de Campus de novo.
      Resultado um ano doente, em casa, sem poder sequer dirigir e outro ano que retornei ao trabalho com 10 horas semanais, depois 20 horas. Só retornei a normalidade após dois anos.
      Aí vieram as vinganças, pois desafiei o Status quo e denunciei a Gestão e o Conselho que acabaram condenados em 3 instâncias (até no STJ). Bom ganhei um inferno particular, nada do que propunha era aprovado, tentaram em vão fazer sindicâncias contra mim (não deram em nada), etc.
      Por isso te entendo. A Universidade Pública no Brasil é uma caixa preta de politicagem, interesses e corrupção, presta-se a muitas coisas menos ao que lhe é precípuo, formar profissionais capazes.
      Se procurares me Lattes não vais encontrar escrevo sob pseudônimo para evitar brigas desnecessárias, Rodrigo de Léon é um fantasma escritor indignado.
      Um abraço.

      • Rômulo Simões Angélica e Rodrigo de León, dois gigantes da educação, com visão contrária ao status quo dominante, prova que há esperança. Creio que em todos os setores da sociedade aconteceu algo parecido, quando as cabeças pensantes, os grandes profissionais arregaçaram as mangas e foram trabalhar, enquanto deixaram lideranças, que pensavam totalmente o oposto, surgirem e se apossarem do horizonte… Árduo trabalho a ser feito, senhores. Mas (benedicto mas) quem disse que seria fácil? Não há vácuo quando se trata de “poder”. Alguém sempre ocupa o espaço vago…

  2. O JBF me trouxe um grave problema: saber que meus pitacos serviram de inspiração para professores do calibre do Rodrigo e do Rômulo me deixou de peito tão estufado que não tenho mais camisa que me sirva!

    Falando sério: vocês não imaginam a alegria que sinto em ver meus textos mobilizando opiniões. Espero que vocês dois, falando com muito mais conhecimento de causa que eu, mobilizem mais quatro, e estes quatro, mais oito (a progressão geométrica é uma força da natureza).

  3. Foi ao me aperceber desse estado avançado de putrefação cognitiva nas universidades que não suportei fazer dois períodos numa Estadual quando eu tinha lá meus 21 anos.

    Fui como um fracote querendo entrar no BOPE: quando senti a catinga ideológica, “pedi pra sair”.

    Ainda farei nível superior, mas a distância. Basta-me algum curso furreca de dois anos e meio só pra ter o canudo mesmo e registrar no MEC. Já cumpri com a meta de levar a sério o estudo presencial até o Ensino Médio.

    Daí pra frente, esses tais espaços denominados “universidades brasileiras” no momento só têm uma função a cumprir:

    a de aterro sanitário!

    • Caríssimo Hell,
      A sua desistência e a de muitos outros, além do silêncio omisso dos que lá estão e que não comungam a fé esquerdísta, faz com que o texto do León a cada dia seja mais verdadeiro, pois sem oposição a coisa fica um paraíso para tais lideranças.
      Escreve o brilhante colunista: Hoje se observarmos além do aparelhamento quase total e de uma política de eliminação do pensamento contrário, as gestões das Universidades públicas foram tomadas de assalto pelos partidos políticos de esquerda. O PC do B controla a UNE e o movimento estudantil, O PT (que vem perdendo espaço), PSB, PSOL (que vem crescendo neste espaço), PSTU e Rede dominam as reitorias e gestões.
      Uma turma de Nikolais em tais recintos faria muito bem à democracia, pois não!?
      Sair dos “campus universitários”, deixando tudo à mercê dos mesmos de sempre é deixar o campo de batalha intelectual com uma só voz…

      • Nobre sidekick do lendário Dom Quixote,

        o que vou dizer, né…? Estás coberto de razão.

        Só reforça meu arquétipo de recruta entrão no curso do BOPE: pedi pra sair.

        Agora “jáélvis”. Diferente de meus 21 anos, não tenho mais a devida paciência e paixão para tanta punhetação dialética como a dessa turba.

        Se ela molecada vier conversando geleia pro meu lado, mando dialogarem com Silvério, a minha tora de jatobá de cinco quinas cuja ocupação é ser massoterapeuta de integrante do mundo do crime.

        • Pau neles Nikolai. Também tenho dois tacos de Críquete, aqueles que parecem remos, que herdei do meu avô. Cada um traz gravado seu nome: “Diálogo” e “Bom-senso”. E, é assim baixando o diálogo e o bom-senso no lombo é que devemos tratar esta turba.
          Um abraço.

          • Caro Léon,

            vi em um de seus comentários que você teve experiência com reitoria desses lugares.

            Devia dar uma vontade da porra de trazer essa dupla duríssima para uma sala de aula, hein? Tudo para fazer jus ao ditado “Escreveu, não leu? O pau comeu.”.

            Forte abraço.

Deixe uma resposta