MARCOS ANDRÉ - DADO & TRAÇADO

Não é que no deserto do Saara não tenha árvores. Tem sim, e muitas. O problema é que, dada a grande extensão deste deserto (alcança 10 países africanos), havia uma peculiaridade espantosa naquelas redondezas desérticas (denominada de Ténéré) no Níger, um dos dez países abrangidos pelo grande deserto do Saara, existiu uma solitária e enigmática acácia, única árvore num raio de aproximadamente, uns 400 km².

Esta árvore, considerada a mais isolada do mundo, funcionava como um marco orientador, um ponto demarcatório para quem quer que se dirigisse lá pelas bandas do noroeste do maior pais da África Ocidental, Níger, capital Niamei. A visão daquela árvore ali, solitária e, ao seu derredor, quilômetros e quilômetros de areias, pedregulhos e rochas, era como uma verdadeira miragem (no calor de 48 grau, em media) no meio do nada, só que, bem real. Logo ela que, outrora (década de 1930), serviu até como ponto de referência em mapas militares europeus. Em 1939, o exército francês encontrou uma fonte d’água após uma escavação de uns 35 metros, junto às raízes da árvore.

Aquela “miragem”, da solitária árvore, funcionava como uma espécie de “bússola” orientadora para caravaneiros motorizados ou de camelos. Era um verdadeiro farol para os “navegantes”.

A última árvore do Ténéré. – Acácia (uns 3 metros de altura)

* * *

ARVORE BÍBLICA

Pelas escrituras sagradas, podemos imaginar como aquela árvore solitária e frondosa sobrevivia em um lugar sem vida. O poder da resistência e o fascínio que esta arvore exerce, já constava no velho testamento.

Em Êxodo 25:10 diz textualmente: “Também farão uma arca de madeira de Acácia; o seu comprimento será de dois côvados e meio, e a sua largura de um côvado e meio, e de um côvado e meio a sua altura”.

E em Êxodo 25:13, diz: “E farás varas de madeira de Acácia, e as cobrirás com ouro”

Ora! o povo de Moisés, saindo do Egito e se embrenhando pelo deserto carregando ouro, prata e roupas, até se compreende. Mas, onde iriam encontrar acácia para confeccionar a tábuas da arca e as varas, se não no meio do deserto?

Reza na tradição local africana, entre os Azalai (povo do deserto de Ténéré) uma crença de que, durante as travessias em peregrinações locais, sob a sombra desta sagrada árvore, muitos acertos tribais eram ali pactuados e respeitados.

* * *

O FIM DE UM ÍCONE

“A Última Árvore do Ténéré”.

O enorme estrelato e sucesso pelo mundo à fora (da árvore de Tenéré) não foi salutar e lhe trouxe um infortúnio letal, até hoje lamentado.
Era o ano de 1973 quando, integrantes do Rali do deserto da Citroen, constataram, incrédulo que a famosa árvore se encontrava sem vida. Comenta-se que um caminhão, pilotado por um líbio, totalmente embriagado ( outros preferem classificá-lo de demente, doido, louco, maluco, alucinado, alienado, tresloucado, desatinado, mentecapto…ou simplesmente grandessíssimo FDP), colidiu, em meio daquela imensidão do deserto, com a pobre e única árvore da região.

A árvore morta está guardada e exposta para visitação, no Museu Nacional de Niamei, capital do país. Em sua memória ergueram uma escultura de metal no lugar original da árvore.

Monumento de metal, erguido em memória da enigmática árvore

Um organismo (símbolo da resistência da natureza) que conseguiu suportar e sobreviver décadas a fio, as duras intempéries e rudeza do desafiador e mortífero deserto do Saara, sucumbiu, desgraçadamente, ante um (dito, ser humano) irresponsável caminhoneiro, bêbado.

Bem que o marcante poema de Drummond “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”, se amolda ao desditoso destino da querida plantinha, podendo ser, ironicamente, assim parafraseado:

“No meio do deserto tinha uma árvore, tinha uma árvore no meio do deserto.”

11 pensou em “A ÚLTIMA ARVORE DO DESERTO

  1. Bom texto , mostra que a vida apesar das dificuldades é insistente. Fui até a wiki procurá-lo . Achei interessante , que no inverno de 38 a 39 o poço aberto mostrou agua a 35 m de profundidade. Então porque não escavar e construir uma cidadela ao redor do local em que estava e colocar mudas de outras plantas já adequadas ao clima e que existem em alguns oasis. Uma escultura de metal é uma homenagem , mas dá para fazer algo mais natural , já que o local era um marco , uma espécie de farol. Quanto ao caminhoneiro ( não foi o Sancho ) líbio ……………………… mais uma na alma do Gaddafi . Brincadeira !.

    • Confirmo: meu amigo Sancho Líbio, amigão do Muammar al-Gaddafi não trombou com a tal árvore, pois descobriu um harém abandonado, largou o caminhão e há muito fica só nos jogos de “fazer amor” c’as moçoilas. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    • Muito grato pela participação, Sr. joaquim.

      Concordo quanto a homenagem em ter um caráter mais natural, digamos.

      Nas investigações constataram não ser o nosso Sancho o motorista responsável. Visto que, à época, ele era um jovem imberbe. .

  2. Não é que no deserto midiático atual não tenha boas árvores. Tem sim, e muitas. O problema é que, dada a grande extensão deste deserto (alcança 27 unidades federativas), havia uma peculiaridade espantosa naquelas redondezas desérticas (denominada de Brasil) na América do Sul, um dos continentes abrangidos por uma mídia majoritariamente á esquerda (com raríssimas exceções), existe um solitário e enigmático JBF, único a defender verdadeiramente a pluralidade de ideias, pois aqui os comentaristas e colunistas vão de um extremo a outro (da extrema-esquerda das amigas de Berto à direita onde paira um único Sancho.

    Pluralidade… Testemunha sou que até propaganda de amiga de Berto do PC do B já rolou ´por estas páginas bertianas. Isso sem contar todos os anos de presença marcante do fantástico colunista LULISTA Goyabano Praga Torta, tão íntimo de todos, que vejam o apelido que deram ao simpático parisiense, nestas páginas verdadeiramente democráticas.

    Aqui você pode e deve esculhambar ou elogiar o governante de turno de acordo com a simpatia que por ele nutrir.

    Há AQUI alguns que morrem de amor por Lula, Doria, Moro, Amoedo, Ciro e até Bolsonaro. Sancho, canhoto desde criança, o único que chuta e escreve com as patas esquerdas diz que é de direita. Como assim!?

    Tomara, irmão Marcão, que na atual caça às bruxas conservadoras nenhum caminhão desgovernado, de cor vermelha, DERRUBE nossa solitária árvore democrática, que chamamos carinhosamente de GAZETA ESCROTA, onde gênios da escrita como TÚ aqui nos brindam com textos maravilhosos como A ÚLTIMA ÁRVORE DO DESERTO.

    Vida longa a mestre Berto, que pariu através de sua VAGINA IMAGINÁRIA esses cronistas maravilhosos, que aqui se reúnem diariamente para proporcionar aos leitores a chance de, através da seção de comentários ou da seção de Correspondência Recebida, colocar para o mundo tudo o que pensam, sonham, vivem…

    Abração, Marcão, uma das árvores que frutificam textos neste deserto de ideias que se tornou a internet e a grande mídia (estraníssimos tempos).

    • Sinto-me lisonjeado pelo carinhoso comentário, compadre Sancho.

      É verdade, Sancho. Este frugívero filho de Berto – O romance da Besta Fubana – procriou e procria bênçãos dantes nunca imagináveis na vida do nosso redator. O nosso sargentão, azeitador do eixo do sol, gostou tanto da brincadeira, que pariu outros romances, crônica e novela.
      Daí, pra criar o blog JBF foi um pulo. Fundou o ICAS – Igreja Católica Apostólica Sertaneja (onde o vinho sagrado vira cachaça), e convidou uma penca de gente de primeira qualidade do nosso mundo cultural para formar o clero.

      Tal qual o grande Federico Fellini (fez grandes filmes com atores amadores), o nosso bom e peruador sem compromisso, convidou um bando de colunista tão maluco quanto ele se dispõe a ser, para dar um toque peculiar de irreverencia na internet. .

      Fazemos parte deste modesto grupamento democrático, Sancho.

      Que assim seja!

      ,

  3. Interessante é que essa árvore não tenha nenhum outro tipo de árvores e plantas ao redor, ela deve ser muita antiga e as raízes dela deve ser também muito profunda, se plantar qualquer outra árvore não sobreviverá a temperatura e as raízes não terão tempo de alcançar os 35 metros onde tem água, mesmo ela tendo sementes, as sementes não vão conseguir germinar numa areia quente da região.
    Mas já existem hotéis e mansões de Sheiks, Rei e Sultões, no meio do deserto, arquiteturas de primeiro mundo.
    E o cara que bateu na árvore, se fosse essa época agora e aqui no Brasil, a CTTU tinha multado e apreendido a carteira dele por embriaguez, e ele ia também ser multado pelo IBAMA, por essa árvore patrimônio do Saara.kkkkkkkk

    • Rendo homenagens pelos comentários, Sr. Fernando Vaz.

      Foi um acontecimento muito triste para o mundo botânico, como um todo.

      Só o homem para provocar tamanha desgraça e decepção para a própria espécie. ,

  4. Como sempre, o Mestre Marcos André , nos trazendo temas interessantes em seus textos. Concordo com o autor, que a acácia é sagrada , visto que o próprio Criador, indica qual madeira deve ser usada no preparo da arca da aliança.

    • Agradecido e satisfeito pela vossa presença aqui nos comentários, Dr. Saulo.

      A acácia é uma árvore de valor significativo e místico em várias culturas pelo mundo.

  5. Parabéns pela perfeição do texto, prezado Marcos André!

    Estou encantada com o histórico do deserto do Saara, especialmente, no que concerne ao fato de ali já ter existido uma árvore isolada, bíblica e secular, a Acácia, única árvore num raio de aproximadamente, uns 400 km², “considerada a árvore mais isolada do mundo”.
    E que “Aquela “miragem”, da solitária árvore, funcionava como uma espécie de “bússola” orientadora para caravaneiros motorizados ou de camelos. Era um verdadeiro farol para os “navegantes”.

    Que triste constatação, feita por integrantes do Rali do deserto da Citroen, em 1973, de que a árvore isolada estava morta,, possivelmente após ser atropelada por um caminhão dirigido por algum degenerado, bêbado ou louco! É revoltante.

    O monumento de metal, erguido em memória da emblemática Acácia do deserto, é um marco histórico, mas, jamais a substituirá.

    Grande abraço!

    • Reverencio vossa encantadora participação na minha coluna, musa do JBF!

      Queria muito que fosse ficção (como parece todo este episódio) mas, infelizmente, foi real. Para decepção de todos nós.

      Gratissimo pelos carinhosos comentários.

Deixe uma resposta