A PALAVRA DO EDITOR

Por estes dias, ando macambúzio. Só o que me desalivia o peso sobre o espírito são os ares de Paris.

Paro em um grego do Quartier Latin e peço um cone de batatas fritas a dois euros e saio comendo pela rua, quase de cabeça baixa. Ando pela beira do Sena, desbundo-me na Ponte Alexandre Terceiro, peso-me o coração de dor ao olhar a fachada da Notre Dame, queimada e vazia por dentro, espanto-me com as sirenes de um comboio de carros da polícia que vão descer o cacete nuns coletes amarelos.

Mas nada me tira, completamente, o fardo de chumbo derretido que me deprime com as notícias de que Sérgio Moro e o Ministério Público praticaram atos que confirmam as suspeitas de que os processos contra o presidente Lula foram baseados em falsidades.

Pensarão que eu devia estar alegre e com a alma leve! Pois, então, não existe mesmo a possibilidade de que, com as revelações do The Intercept, possam mesmo os processos contra Lula (e até contra outros) serem anulados, como aconteceu com a Operação Satiagraha (2004/2011) e com a Operação Castelo de Areia (2009/2011)?

Sim, existe.

E isso, para quem acompanhou os processos contra o Lula, desde as investigações, passando pelas apurações e denúncias, até o desenrolar do processo, sua sentença e confirmação pelo TRF4 e pelo STJ, traz um sentimento de que a Justiça possa ser feita e que Lula (que acreditamos inocente das acusações, até por inexistirem dados concretos de sua pretensa corrupção e por nunca ter sido encontrado o dinheiro grosso, que essa corrupção teria de ter rendido, em qualquer conta sua escondida no Brasil ou no exterior, ou debaixo do colchão) possa ter todo o processo revisto, desde às origens, que hoje todos sabem que devem estat contaminadas – de cabo a rabo.

É que insistíamos em acreditar que esses homens acreditavam, ainda que a meu ver envolvidos pelo ambiente político e social contaminado, estar aplicando a lei; e pensavam estar fazendo um julgamento isento.

Algo semelhante acreditei que pudesse ter havido com o segundo processo, sentenciado pela juíza Gabriela Hardt, que copiou a fórmula, acreditando que – pelas aparências formais – tudo tinha andado bem e ficava claro que se Lula tinha aprontado no tríplex não havia porque não tê-lo feito em Atibaia: a juíza, pelo menos, estava de boa-fé?

Pois, o castelo de cartas caiu e com ele a minha crença na isenção de propósitos de toda essa turma, inclusive na imparcialidade dos juízes do segundo e terceiro grau, que não tiveram a capacidade de ver que, ainda que os aspectos formais dos processos parecessem regulares, existia uma evidência de animosidades mais do que latentes, patentes, em episódios como o da apresentação de Lula como o centro de tudo no esquema de corrupções, bem como em atitudes do juízo do primeiro grau na condução do processo – de modo que esse fechar de olhos e o apoio irrestrito à barbaridade processual, mesmo com as reduções da pena e da multa absurda pelo STJ, denotam a existência do “tour de force” condenatório.

Hoje, não há mais dúvida: todos agiram, seja em concluio, seja em combinação, seja em vista grossa ou apoio tácito, com o fim de justiçamento, adotando o princípio de que os fins justificam os meios, para tomarem-se em cruzada contra a corrupção.

E isso me leva a esta tristeza. Agravada pelo fato de que Lula está preso há um ano, por uma condenação absolutamente irregular.

E há quem aplauda.

E minha tristeza aumenta ainda mais ao sentir que quem aplaude também há de estar envolvido na conspiração.

É esse, mesmo, o País que dizem querer deixar para filhos e netos?! Um País de nulidades?

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