MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

San José de Chiquitos, Bolívia

Meu pai, na década de 1950, trabalhou na construção da Estrada de Ferro Brasil – Bolívia e por essa circunstância passamos alguns anos naquele país. Moramos em Roboré, San José de Chiquitos e El Tinto, na beira da estrada de ferro, e isso me permitiu aprender o básico da língua espanhola.

Em 1996, a empresa para a qual eu trabalhava em São Paulo, antes de mudar-me para os Estados Unidos, me determinou fazer um reforço na língua espanhola para encarar trabalhos na Argentina, no México e na Venezuela, reforço esse conduzido com muita competência pelo meu professor José Luiz, um madrilenho muito simpático e destro na ensinação de seu idioma.

Tornamo-nos amigos. José Luiz havia se casado com uma brasileira, Maria Teresa, e já tinham um rebento de seus 3 anos de idade. Voltou para a Espanha um ano depois e foi morar em Madri.

Em 1998 fui trabalhar por uma semana em Genebra, na Suíça. Viajei no domingo. O voo da Varig de São Paulo para Genebra parava em Madri, e a Swissair completava o percurso.

Na quinta-feira telefonei para meu amigo José Luiz e disse que tinha umas 5 horas de espera no final do dia seguinte, sexta-feira, no aeroporto de Barajas em Madri e caso ele estivesse disponível poderíamos tomar um café no próprio aeroporto. Recebeu meu telefonema com grande alegria e insistiu em que eu passasse a noite na cidade com ele, sua esposa e com os dois pirralhos que faziam parte da família. Conversando com o pessoal da Varig, consegui que meu trecho de Madri a São Paulo fosse adiado por um dia. Ótimo.

José Luiz me pegou no aeroporto. Fomos à sua casa, onde dois irmãos, suas esposas e filhos, além de um outro casal de amigos já estavam a postos para um lauto jantar à espanhola.

“Tortilla” espanhola

Sua esposa Maria Teresa preparou um jantar inesquecível. Um dos pratos principais era uma “tortilha espanhola” que, diferentemente da tortilha mexicana, é uma torta gorda, bem recheada, e que foi acompanhada por frutos do mar, minha paixão gastronômica depois de uma rabada com polenta e uma carne de sol de Caicó.

Vinhos e alegria não faltaram à mesa. Quando o teor alcoólico já estava elevado fizemos um ruidoso brinde ao nosso reencontro e busquei expressar meu agradecimento, alto e bom som, ao elogiar os dotes culinários de sua esposa em preparar tão deliciosa tortilha:

– José Luiz, sua esposa Maria Teresa é a melhor “tortillera” do mundo!

Deu merda.

Silêncio imediato na galera. Os meninos arregalaram os olhos, assombrados. As mulheres começaram a rir. Os homens se olharam assustados. Então José Luiz veio em socorro de sua esposa:

– Minha mulher não é uma “tortillera”, garanto. Sou seu marido e não tenho nenhuma queixa!

E as gargalhadas pipocaram pela sala.

Foi aí que descobri que “tortillera” na Espanha significa lésbica.

Felizmente minha alegada ignorância das nuances da língua espanhola perdoou meu vexame.

2 pensou em “A TORTILHA ESPANHOLA

  1. Rapaz isso é comum demais. Até mesmo entre regiões. Uma colega fez
    doutorado comigo e é cearense. Então, ela tomava café numa padaria perto de onde morava e aí disse que queria um rocambole. A atendente disse que não tinha e ela disse “olhe aí, atrás de você”. A outra disse isso não é rocambole é bolo de rolo. Ela dizia “vocês dizem que o café está aguado. Aguado e com água. O correto é dizer que está sem açúcar”
    Agora, quando é de uma língua pra outra a merda pode ser grande.

    • Pois é, Maurício:
      Quando o José Luiz saiu a primeira vez comigo e com mais três amigos em São Paulo, fomos a um bar tomar um chopinho. Na segunda rodada o garçom perguntou a ele se também ia querer. Ele respondeu: “Dentro de um rato”, ou seja, daqui a pouco. A galera em volta caiu na gargalhada.
      Um abraço, e tenha um ótimo final de semana.

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