GUILHERME FIUZA

telegram

O Tribunal Superior Eleitoral iniciou uma manifestação de hostilidade à rede social Telegram. Segundo o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, trata-se de um ambiente que tem sido utilizado para a propagação de informações falsas e teorias da conspiração. O TSE diz ter “parcerias” com as principais plataformas de internet para o controle de conteúdo indesejável e não quer que haja exceções. O TSE e seu presidente devem estar achando que estão numa colônia da ditadura chinesa.

A tentação de banir o Telegram do país só pode vicejar em mentes que tenham perdido por completo os referenciais de democracia. Estão confiando demais na retórica indigente do suposto combate a “fake news”, “onda de ódio”, etc. para embargar e suprimir o que der na telha, fazendo política a céu aberto com esse disfarce mal-ajambrado.

Vamos contribuir com essa utopia reacionária: por que não banir também o WhatsApp? Ali circula de tudo – até informação falsa extraída do perfil do próprio TSE, alegando que o projeto da instituição do voto auditável significaria o retorno a cédulas de papel. É ou não é terrível um ambiente suscetível a desinformações desse tipo?

Proíbam o Telegram e o WhatsApp. Mas não só eles. Há uma praça, numa grande cidade brasileira, onde pessoas se reúnem para dizer que o assalto à Petrobras não existiu e todos os bilhões de reais devolvidos foram apenas uma caridade dos ladrões. Por essa praça, passam milhares e milhares de pessoas todos os dias – um contingente expressivo de cidadãos permanentemente expostos a disparates desse tipo. A patrulha da verdade não vai interditar essa praça?

Mas o problema não termina aí. Algum tempo atrás, falou-se muito de um cidadão que trazia ideias estranhas – e nesses casos todo cuidado é pouco. Seu nome era Graham Bell. Como não foi detido a tempo, ele deixou por aí um aparelho perigoso – que tornava a comunicação muito mais rápida que as cartas levadas de navio ou em lombo de burro. Resultado: passou a ser possível a uma única pessoa passar trotes rapidamente para diversas outras – afirmando, por exemplo, e jurando de pés juntos, que o sistema das urnas eletrônicas no Brasil é invulnerável. Como transigir com um risco de desinformação desta monta?

As “parcerias” que o TSE diz ter firmado com as principais plataformas de internet todos sabem de que tipo são – e elas se estendem a toda uma rede de zeladores da verdade celestial. Com o auxílio das milícias checadoras – o braço armado do gabinete do amor – operam o banimento, por exemplo, de uma mãe que perdeu o filho jovem com um AVC pós-vacina de covid. Essa mãe contratou uma investigação clínica que atestou a causalidade, reconhecida pela autoridade de saúde do seu estado. Passou a usar as redes para tentar ampliar o conhecimento sobre efeitos adversos e foi banida.

É assim a nova utopia reacionária: você pode usar uma premissa de depuração para escolher quais verdades você deixará circular. O Telegram tem um mundo de informações e dados de todos os tipos – ciência, filosofia, arte, política – com toda a escala de precisão/imprecisão, confiabilidade/suspeição, boa-fé/má-fé que caracteriza qualquer ambiente livre. Para os delitos, existem as leis. Para os reacionários, não existe remédio.

4 pensou em “A TENTAÇÃO REACIONÁRIA DE BANIR O TELEGRAM

  1. Se (ou quando) banir o Telegram, vai ser a confissão que estamos numa ditadura do tipo China, Cuba, Coreia do Norte e Venezuela, que proíbem a livre comunicação das pessoas.

    Como disse Fiúza, para quem pratica crimes tem as Leis. Aí eu pergunto: – E se quem pratica crimes é quem deveria zelar pelas Leis?

  2. E todos os políticos ,e alguns tendo canais no Telegram , se calam , ficam omissos , assistindo a tudo como se isso só fosse por causa de eleições , e as liberdades , uma a uma vão desaparecendo .

  3. Não estaremos numa ditadura como China, Cuba, Coreia do Norte ou qualquer outra existente. Tais ditaduras são comandadas pelo Poder executivo, que manda também nos demais.
    A nossa será uma forma nova. Comandada pelo judiciário, que manda também no legislativo e no executivo, sob a supervisão de Zé Dirceu e do fala fina.
    Triste sina a nossa. Até nossa ditadura é falsificada.

  4. Pingback: DITADURA FALSIFICADA | JORNAL DA BESTA FUBANA

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