CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

Dona Maria da Sucata é uma favelada íntegra. Tem orgulho de ser conhecida por todos por esse epíteto. Para sobreviver sai todos os dias com sua carroça humilde à procura de latinhas de cervejas vazias, refrigerantes, garrafas plásticas, copos descartáveis, papelões, peças de computadores, ferros velhos e outros objetos recicláveis. É uma recicladora do planeta.

Dona Maria da Sucata tem um neto incapaz que é viciado em craque. Por ser inábil em conter sua vontade, não pode ver nada fácil que furta para sustentar o vício da droga. O medo dela: que ele seja executado por débito com os traficantes que não perdoam.

Recentemente foi preso numa boca de fumo, e desceu diretamente para o “Muro das Lamentações” do município de Abreu e Lima. Não houve audiência de custodia porque Dona Maria da Sucata não pôde pagar um advogado, e na hora não havia defensor público para acompanhá-lo.

O Defensor Público plantonista estava ocupado com afazeres pessoais!

Busca aqui, busca dacolá, ela encontrou um advogado para acompanhar o neto, mas de cara ele cobrou mil paus. Ela pagou. Ele não deu recibo do dinheiro recebido e prometeu soltar o neto de Dona Maria da Sucata em menos de vinte quatro horas se ela conseguisse mais mil.

Depois do acerto com o advogado, Dona Maria da Sucata trabalhou dia e noite, quase desmaiando de fome para conseguir o dinheiro. Conseguiu juntar sucatas que valiam mais de dois mil paus, mas o dono do depósito a ludibriou, burlou-a na pesagem e só pagou a metade do valor. Mas, mesmo assim ela aceitou e agradeceu, pois estava precisando do dinheiro para entregar ao advogado que prometera soltar o neto.

Dinheiro na mão, neto liberto! – disse sarcástico o advogado escroque!

Do depósito de sucata com o dinheiro dentro do“porta seio”, ela foi direto para o advogado e entregou a outra metade combinada, sem receber comprovante. De posse do dinheiro o advogado disse a ela que esperasse em casa, preparasse uma feijoada para comemorar a liberdade do neto no outro dia. Não pediu procuração do custodiado, nem cópia do CPF, RG, CTPS, nem endereço residencial, nem rol de testemunhas para preparar a defesa do indiciado. Nada!…Nada! Só quis saber do dinheiro!

Passadas duas semanas do prometido, e depois de várias idas ao “Muro das Lamentações” para visitar o neto, Dona Maria da Sucata descobriu que o advogado a tinha enganado. Sequer visitou o neto. Quem compareceu ao ato processual designado foi um defensor público nomeado pelo juiz que, a contragosto, não abriu o bico na audiência.

Temendo pela vida do neto nas duas visitas feitas ao Inferno de Dante, ela procurou outro advogado que prometeu soltar o neto em vinte quatro horas. De cara para trabalhar no caso e entrar com o pedido de relaxamento de prisão lhe cobrou três mil paus de entrada e os outros três mil divididos em duas parcelas de mil e quinhentos.

Desconfiada com a proposta do “advogado” ela procurou uma vizinha que tinha sido vitima das mesmas artimanhas do jurisconsulto escroque, inclusive, forçada por ele, teve de vender uma casa que alugava para complementar a renda familiar, e o jurisperito não soltou o filho conforme havia prometido. O causídico lhe furtou tudo. Não passou recibo e o viciado continua preso à espera de um habeas corpus de Gilmar Mendes.

Desesperada e vendo a hora o neto morrer envolvido com gangues lá dentro do Inferno de Dantes ela recorreu a uma pessoa de bom coração, lide comunitária, que conhecia um advogado muito solícito que trabalhava para uma ONG da qual ela fazia parte como voluntária!

Sem cobrar nada de Dona Maria da Sucata, o advogado, já aposentado, comovido com o sofrimento dela e percebendo a angústia, o desespero de o neto ser morto lá dentro, juntou provas da incapacidade transitória dele, participou da primeira audiência, juntou as provas da incapacidade do neto da sucateira e requereu ao juiz exame de insanidade mental do preso que foi provado por uma junta médica nomeada pelo magistrado como incapaz, e o juiz o soltou por insuficiência de provas da materialidade do delito e por incapacidade mental do prisioneiro.

Após o neto solto e já em casa, Dona Maria da Sucata recebeu a visita de uma vizinha com o mesmo problema com o filho, informando que tinha sido procurada pelo advogado que a enganou, cobrando-lhe o mesmo valor para soltar o filho em vinte quatro horas como o havia feito com o da “velha da carroça”. E a vizinha queria saber da lisura do tal advogado à colega para confiar a tentativa de soltura do filho a ele.

Ao que Dona Maria da Sucata, curta e grossa, a alertou e aconselhou-a:

– Minha filha, aquilo é um ladrão descarado! Me roubou dois mil reais e não fez nada pelo meu neto. Eu não sei como a OAB mantém nos seus quadros um cabra safado desses enganando o povo desesperado! Se fosse por ele eu teria enterrado meu neto há muito tempo. Foi graça a solidariedade de um advogado de uma ONG que meu neto está comigo. Tome o telefone onde ele presta serviços voluntários e ligue, ou senão procure Fulana, líder comunitária, que ela lhe leva até ele.

Antes de se despedir de Dona Maria da Sucata e agradecer-lhe a orientação, o celular da vizinha toca. Ela atende. Era o advogado querendo saber se ela já estava com o dinheiro na mão para ele ir pegar e preparar a defesa do filho…

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