A SORTE

Na primeira década do século passado, havia no Palácio do Governo do Rio Grande do Norte, um contínuo chamado Alcântara. Nessa época (1906 a 1909), o Presidente da Republica era Afonso Pena, e estava agendada sua vinda ao Estado. Ao tomar conhecimento dessa visita, o contínuo pediu ao Governador Alberto Maranhão, para fazer parte da comitiva que iria esperar o Presidente na Estação Ferroviária de Nova-Cruz, fronteira do Rio Grande do Norte com a Paraíba.

O pedido do contínuo foi acatado, mas, mesmo assim, o Secretário achou um absurdo essa liberalidade. Afinal, Alcântara era um simples contínuo e estaria ocupando o lugar de algum político ou de mais algum puxa-saco importante. Era muito cabimento do contínuo, querer integrar a comitiva que iria esperar o Presidente da República, em visita oficial ao Governador do Rio Grande do Norte.

Indignado, o Secretário chamou o contínuo em seu gabinete e disse-lhe:

– O Governador deu permissão, então você vai na comitiva, para esperar o Presidente da República. Mas, preste atenção:

Antes do trem chegar na estação, você salta no triângulo, que é o ponto de manobra dos trens, na entrada das estações.

O trem do Governador chegou adiantado. Alcântara saltou no triângulo. Pouco depois, o trem trazendo o Presidente entrou no triângulo, para fazer a manobra. Alcântara, sozinho, subiu, foi entrando e deu de cara com o Presidente da República. E foi a primeira pessoa a dar as boas-vindas à “Sua Excelência”. Muito cordial e simpático, Alcântara foi logo mostrando-lhe a cidade pela janela. Quando o trem do Presidente chegou à Estação Ferroviária, o Governador, o Secretário do Governador, os puxa-sacos do Governador e os demais integrantes da comitiva levaram um grande susto. Alcântara, o contínuo do Palácio do Governo, apareceu na porta do trem, ao lado do Presidente da República e foi quem o apresentou às autoridades estaduais.

Seguiram todos para Natal, numa viagem cansativa e cheia de poeira, quando o progresso tecnológico era uma utopia.

Cansado, o Presidente Afonso Pena chegou ao Palácio do Governo e pediu logo um banho. De repente, entreabriu a porta do banheiro, chamou alguém e perguntou:

– Onde está o Alcântara?

Alcântara apareceu, entrou no banheiro e logo saiu. Ninguém entendeu nada. Chamado mais duas vezes pelo Presidente, Alcântara atendeu aos pedidos, e, novamente, logo saiu.

No dia da partida, à beira do cais ( o Presidente voltou de navio), o Presidente Afonso Pena chamou Alcântara , deu-lhe um abraço, e lhe falou alguma coisa no ouvido. Alcântara sorriu, saiu e não disse nada a ninguém. Os curiosos ficaram “doentes” de raiva.

Um mês depois, o Diário Oficial publicava um ato do Presidente Afonso Pena, nomeando o contínuo Alcântara, Administrador do Porto de Santos , no Estado de São Paulo. Foi um escândalo, no Rio Grande do Norte.

No bolso do paletó, Alcântara carregava uma garrafinha de conhaque francês, tamanho portátil. E Afonso Pena apreciava muito um golinho de conhaque francês.

17 pensou em “A SORTE

    • Sancho perdeu sua garrafinha de conhaque francês, tamanho portátil. E, que notícia maravilhosa…Violante encontrou e colocou no texto… Que esta cronista de mão cheia providencie a devolução através de meu amigo Assuero… Um final de semana ensolarado para todos nós…

  1. Violante,

    Gostei demais da conta da sua crônica com um causo que me fez ganhar o dia. Além de Afonso Pena, tivemos o Presidente Jânio Quadros que gostava muito de tomar uma bebida alcoólica e existem muitas histórias e estórias sobre esse fato. Compartilho, abaixo, um causo envolvendo o conhaque:

    Passageira bebe garrafa de conhaque, fica bêbada e perde vôo na China

    Uma passageira chinesa a qual a segurança do aeroporto de Pequim lhe impedia de embarcar em um avião com uma garrafa de luxuoso conhaque decidiu não desperdiçar a bebida e a tomou de uma só vez, embora isso lhe tenha deixada completamente bêbada e que no final a impediu de pegar o vôo, informou nesta terça-feira o jornal Beijing Times.

    A mulher, de sobrenome Zhao, levava uma garrafa de conhaque francês Rémy Martin de R$ 709 (US$ 200) em sua bagagem de mão, por isso que ao chegar ao controle de segurança, e seguindo os procedimentos frequentes na maioria dos aeroportos de todo o mundo, foi-lhe informado que não podia passar com ela para a zona de embarque e que devia deixá-la ali.

    Zhao, de cerca de 40 anos, optou por não deixar a bebida — que aparentemente tinha comprado em um aeroporto dos Estados Unidos — e a bebeu ali mesmo, por isso que minutos depois o pessoal do aeroporto a encontrou deitada no chão, chorando e gritando.

    “Estava tão bêbada que não podia ficar de pé, portanto a levamos em uma cadeira de rodas para um quarto para que descansasse”, relatou um dos policiais que atendeu a mulher no episódio ocorrido na sexta-feira passada.

    Diante do fato, o comandante do vôo no qual Zhao deveria viajar, e que cobria a rota entre Pequim e a cidade de Wenzhou, se negou a que ela embarcasse por temor de que pudesse afetar a segurança dos demais passageiros. A mulher acordou da bebedeira horas depois, agradeceu aos policiais que teriam cuidado dela e entrou em contato com alguns de seus familiares, que a levaram para casa.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

    • Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Aristeu Bezerra!

      O vício do álcool tem provocado muitas situações hilárias, em todos os segmentos da sociedade, principalmente no meio político..
      O caso que você compartilhou comigo foi engraçadíssimo! Coitada da chinesa! “A emenda saiu pior do que o soneto” …kkkk…

      Bom fim de semana!

      Muita Saúde e Paz!

      Violante Pimentel

  2. Magnífico! Com certeza o Sr. Alcântara estava no lugar errado. O Governador teve muita sorte em continuar no seu cargo, pelo jeito. Nossos cumprimentos Senhora Violante Pimentel. História rica e divertida, em todo seu relato. Carecemos, todos nós, sempre, de conhecimentos e bom humor. Mais ainda nas circunstâncias atuais. Essas energias que a senhora propicia, nos dá a disposição necessária para seguirmos em frente. Muito obrigado.

    • Obrigada pela gentileza do comentário, prezado Luiz Carlos Freitas!

      O Sr. Alcântara, realmente, devia estar no lugar errado. Apesar de ser um simples contínuo do Palácio do Governo, era bem informado, inteligente e perspicaz, a ponto de saber que o Presidente Afonso Pena gostava de conhaque francês. E conquistou a simpatia do Presidente, à primeira vista. .

      Bom fim de semana!

      Muita Saúde e Paz!

  3. Cara Violante

    Adorei o texto; uma delicia.

    Se tem uma praga impossível de erradicar é o famigerado puxa-saco! sempre grudado aos poderosos. Ainda bem que o Alcântara tinha o conhaque…

    Um abraço

    • Obrigada pelo honroso comentário, prezado Escritor Carlito Lima!

      A realidade do Brasil sempre foi essa. O puxa-saquismo é secular e sempre alimentou a vaidade dos políticos e poderosos. Eles gostam que lhes puxem o saco. .

      A sorte de Alcântara foi grande, ao conseguir se aproximar do presidente Afonso Pena, antes dos puxa- sacos que integravam a comitiva do Governador do Rio Grande do Norte. O Secretário quis prejudicá-lo, por se tratar de um simples contínuo. Mas, Alcântara era inteligente, perspicaz e bem informado, a ponto de saber que o Presidente gostava de conhaque francês.

      Grande abraço, e um feliz fim de semana!

  4. Obrigada pelo generoso comentário, prezado Pablo Lopes!

    Realmente, o puxa-saquismo é uma praga difícil de ser erradicada. A culpa é dos políticos e poderosos, que se alimentam de vaidade e adoram que lhes puxem o saco.

    A figura do puxa-saco é secular e já virou tradição. Na sua antiga música “Retorno”, Juca Chaves, canta:
    ………………..
    “puxa, puxa, quem puxar primeiro,
    é quem leva mais dinheiro”….

    Grande abraço, e um feliz fim de semana!

  5. Violante!
    Dessa eu não sabia. Entrou para a minha coleção do complexo “os humilhados serão exaltados”.
    Sensacional!

    • Obrigada pelo comentário gentil, prezado Jesus de Ritinha de Miúdo! Realmente, no caso, está configurada a frase bíblica “os humilhados serão exaltados” (Lucas, 14.11).
      O Secretário, indignado com a permissão do Governador, para que o contínuo Alcântara integrasse a comitiva que iria receber o Presidente Afonso Pena, exigiu que o humilde servidor descesse do trem, ainda no triângulo de manobras. Foi aí que entrou a sorte. .Com sua inteligência e perspicácia, o contínuo se destacou e conquistou a amizade do Presidente.

      Bom fim de semana e feliz “Dia dos Pais”!

  6. Que primor de história, Violante!

    O Alcântar apostou tudo no jogo. Como um sedutor que lança mão de todas as artimanhas para conquistar a dozela (flores, perfume, impostação de voz, corte de seda, chocolate suíço, belos poemas) Tudo foi substituido por um bom conhaque francês.

    Pra assegurar e complementar a “sorte” nesse jogo de sedução ele foi prestativo, gentil, labioso já sabendo do ponto fraco da vítima. Certamente ele já tinha essa informação priviligiada.(o ás na manga.

    A sorte foi lançada.

    Como um jogador astuto, pensou: “Se não posso mudar a direção do vento, ao menos vou procurar ajustar as minhas velas para alcançar um porto seguro”
    Não deu outra.. Bingo pro Alcântara!
    Bingo para nós, leitores.

  7. Obrigada pelo comentário honroso e envaidecedor, prezado Marcos André M. Cavalcanti!

    Alcântara foi humilhado pelo Secretário, que o considerava indigno de fazer parte da comitiva do Governador, por se tratar de um contínuo.. Em contrapartida, era perspicaz, inteligente e bem informado, a ponto de saber que o Presidente Afonso Pena gostava de conhaque francês.
    E cumpriu-se o princípio bíblico “os humilhados serão exaltados” (Lucas, 14.11).
    A sorte o ajudou e sua vida deu uma guinada de 360 graus.

    Tudo de bom e muitas alegrias para você, neste domingo dedicado aos Pais!

    Um grande abraço!

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