ACÁCIO SABUGUEIRO - MIOLO DE POTE

Baldes aparando água das goteiras

Poucos sabem e entendem os benefícios trazidos pela “transposição das águas do rio São Francisco” para alguns municípios nordestinos, principalmente Paraíba, Pernambuco e Ceará. Aquele amontoado de gente nascido e criado naquelas áreas que hoje são beneficiadas, tem muitas histórias pra contar.

Atualmente, Minas Gerais e Bahia, além daquela região que divide Tocantins do Maranhão, estão passando perrengue por conta do excesso de chuvas.
Mas, para o povo da Paraíba, Ceará e Pernambuco, chuva será sempre uma bênção divina – e sinal de fartura na agricultura, em grande parte de subsistência, que resolveram rotular de “agricultura familiar”. Mas ninguém jamais dispensará as águas da transposição.

Puxa daqui, puxa dali e meu pensamento voou. Voou e retrocedeu no tempo em que moramos na roça. Uma casa grande, com vários cômodos, embora por tempos seguidos abrigasse apenas cinco pessoas.

Por anos seguidos nenhum entre os moradores tinha a preocupação de “revisar as telhas” da casa. Quando a chuva chegava e insistia em permanecer por vários dias, o surgimento de goteiras era certo.

Minha mãe, ainda que sabendo que suas pretensões poucos adiantariam, enchia a casa de cuias, latas e panelas para tentar diminuir o prejuízo que as goteiras provocavam.

Perereca do brejo

Quando a noite chegava e a chuva continuava a cair, aquele lugar se transformava numa verdadeira apresentação da ópera “Sherazade” de Nicolai Rimsky Korsakov encenada pelo corpo de Ballet de Kiev da Ucrânia.

A perereca, no brejo, assumia a regência e iniciava a apresentação. Não demorava muito, a cigarra, com seu som de trompete com decibéis que seriam condenados por qualquer Secretaria do Meio Ambiente continuava a partitura que a Natureza avisara com cada pingo d´água que as goteiras lançavam nas vasilhas. A cuia tinha eco diferente da lata e, esses dois, em nada pareciam com o som emitido pela goteira que caía na bacia de alumínio.

Cigarra

Era uma orquestra, sim. E a ela se juntaria o grilo preto.

Imaginem vocês, a chuva continuando a cair, deitar numa rede ou numa cama, coberto com um lençol velho limpo e cheiroso, depois de sorver uma caneca de chá de erva cidreira e, dar atenção para o espetáculo sonoro que acontecia: uma verdadeira “Sinfonia Molhada”.

Som das goteiras nas vasilhas, pererecas cantando enquanto escondidas ou abrigadas em folhas grandes; cigarra abrigada da chuva, com aquele som estridente e inconfundível; grilo preto, dando o ar da graça.

É a magia da chuva. O que se ouve será sempre melhor que qualquer poltrona do mais luxuoso teatro, seja de onde for. É a verdadeira Sinfonia molhada, que só as pessoas simples entendem e ouvem, sem precisar viajar para o exterior, ou pagar ingresso.

Grilo preto

3 pensou em “A SINFONIA MOLHADA

  1. “sem precisar viajar para o exterior ou pagar ingresso.”

    Tudo tão simples e magnífico.
    Abençoada chuva (aqui em Curitiba chove até demais e sempre é um espetáculo).
    Onde moro as saracuras anunciam escandalosamente a chuva que se aproxima.
    Cedo e você me fez deitar na rede e ouvir todos os sons.
    Magia.

    Abraços

  2. Quando chovia aqui no interior de São Paulo,meu velho pai,nordestino de Garanhuns-PE, colocava uma lata de tinta emborcada debaixo da pingadeira do telhado só para ouvir o som da chuva, era sinfonia dele que saiu do nordeste afugentado pela seca.

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