GOIANO BRAGA HORTA - ARCO, TARCO E VERVA

Jair Bolsonaro foi eleito com cinqüenta e sete milhões, setecentos e noventa e sete mil, oitocentos e quarenta e sete votos!

Foi voto que não acaba mais: a mais do que Haddad dez milhões, setecentos e cinqüenta e seis mil, novecentos e quarenta e dois votos.

Dos votos de Bolsonaro, muitos, muitos milhões foram votos de negros, de mulheres e de homossexuais, não há dúvida disso.

E muitos outros milhões foram de eleitores que abandonaram o PT, convencidos de que o Partido dos Trabalhadores perdeu os rumos, encheu-se de bandidos e levou o País para o buraco em que ainda nos achamos.

Quanto aos que se bandearam para outros lados, uma parte de razão se pode creditar-lhes, uma vez que a propaganda maciça, calcada em certos fatos reais, foi suficientemente forte para convencer os menos seguros de suas convicções, ou que estavam fragilmente ligados aos objetivos petistas, de modo que lhes bastava um sopro para voarem como folhas secas.

O estranho, mesmo, são os outros, o apoio justamente daqueles, discriminados por Bolsonaro.

Uma associação com a Síndromo de Estocolmo se oferece, inevitavelmente.

Trata-se do estado psicológico pelo qual a vítima de um período prolongado de intimidações e torturas desenvolve simpatia, amizade ou amor pelo seu algoz.

Mas, não se trata do único fenômeno, esse em que um personagem notoriamente favorável à tortura, à eliminação sumária de criminosos, preconceituoso quanto a negros, homossexuais e mulheres recebeu o apoio estrondoso da sociedade: aqui há de caber o fenômeno que nos é revelado pela constatação de que é isso que, consciente ou inconscientemente, pensamos a respeito dos costumes. É tudo isso que queremos, é o que desejamos, consciente ou inconscientemente.

Embora façamos o discurso de pessoas civilizadas, somos, no fundo, uns brutos, temos sangue nos olhos e pensamos, mesmo, que negros são pessoas inferiores, que bandidos não têm direitos, que homossexuais são uns desavergonhados e que mulheres deveriam só procriar, servir-nos e encostar o umbigo no fogão.

Também temos a tendência de acreditar que os pobres são pobres porque são preguiçosos, indolentes e aproveitadores. E que os índios não precisam de tanta terra e deviam desaparecer, serem absorvidos pela civilização, parar de atrapalhar o garimpo, irem trabalhar e comprar celulares..

Bolsonaro teve a capacidade de reunir em si todos esses defeitos, com os quais, naquilo que temos de mais obscuro, atrasado e retrógrado., nos identificamos.

É graças a isso que Bolsonaro há de crescer a cada atitude grotesca que adote, no sentido de manter-se assim e, se possível, piorar, afirmando que não vai mudar, como ele tem feito.

E a cada dia, a cada burrada ou maluquice que faz, a cada bobagem que diz, mais as mulheres o admiram e suspiram, mais os como negros e homossexuais se sentem representados!

Além disso, há os amantes de patriotadas e religiosismos, que incluem os citados grupos e vão além deles, para exaltar os costumes rígidos, a educação militarizada e a família idealizada – tudo mal misturado com o modelo norte-americano de viver, este que se revela vivamente no desejo do nosso presidente de pôr seu filho como Embaixador do Brasil nos Estados Unidos, contra tudo e contra todos.

Em suma, Jair Bolsonaro conseguiu atrair o de pior que temos em nossos instintos atrasados, de preconceitos e conservadorismo, tornou-se a pior opção como reação às políticas de esquerda e exatamente por isso foi eleito, algo como o voto que a população de São Paulo deu a um rinoceronte elegendo-o vereador em 1959 – que não assumiu o cargo por incompatibilidades (zoo)lógicas.

O grande problema é que o nosso cacareco assumiu e pratica a política de um rinoceronte, sob aplausos entusiásticos e a total aprovação do resto da manada.

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