MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

O que é a tal SELIC?

Governos geralmente estão pedindo dinheiro emprestado, porque gastam mais do que arrecadam. Pessoas físicas, quando querem dinheiro emprestado, vão ao banco e assinam um contrato de empréstimo. O governo faz um pouco diferente: ele vende títulos, ou seja, vende um papel (virtual) que promete devolver o dinheiro, com juros, no futuro. A SELIC é uma das taxas que servem de referência para o mercado de títulos (que é bastante complexo). Serve para o governo fingir que é ele quem manda no negócio, como se dissesse “quem quiser emprestar dinheiro para nós, vai ganhar X de juros”. Claro que na prática não é assim que funciona, porque quem manda é quem têm o dinheiro na mão, não quem está pedindo emprestado.

Qual o valor ideal da SELIC?

A situação ideal, ao menos na visão mais liberal, é o governo não pegar dinheiro emprestado; aí a SELIC simplesmente não existiria. A segunda opção seria o governo emprestar dinheiro como qualquer cidadão, indo ao banco e pedindo. Aí, os políticos teriam limites para suas irresponsabilidades. O que se faz hoje é a pior escolha: o governo interfere no mercado, tabelando os juros. Embora muita gente acredite que o governo, através de seus ministérios e comitês, “regule” o mercado, a verdade é que o mercado regula a si próprio e o poder do governo é bem menor do que ele tenta aparentar.

Se é difícil saber o valor certo, é fácil saber o valor errado: é onde a SELIC está agora. É importante lembrar que a SELIC é uma taxa nominal, que não inclui a inflação. A combinação da SELIC com a inflação futura resulta no que se chama “juro real”. Pois bem, com a SELIC em 2% e a inflação subindo, o juro real brasileiro estava abaixo do da Suíça. Será que nossa economia é mais sólida que a da Suíça? O mercado financeiro certamente não acha.

A SELIC baixa economizou juros?

Na verdade não. Existem basicamente três tipos de título: os pré-fixados, que como o nome diz têm juros fixos, independentes da SELIC; os indexados à SELIC; e os indexados ao IPCA, que é o índice de inflação mais usado. Acontece que a SELIC baixa demais aumenta o IPCA, e a redução da despesa com um é anulada pelo aumento da despesa com o outro. Além disso, os investidores passaram a rejeitar os títulos SELIC e dar preferência aos IPCA. E, principalmente, não podemos olhar apenas a redução de despesas do governo sem olhar as consequências da inflação e da desvalorização do real para a economia como um todo.

Em termos práticos, podemos ver nos dados do próprio governo como a redução da SELIC mudou pouco a despesa com juros:

Por que a SELIC baixa aumenta a inflação?

Basicamente por dois motivos: o primeiro é que a SELIC influencia a capacidade dos bancos de conceder crédito. Com a SELIC mais baixa, eles podem emprestar mais e lucrar mais. Quando os bancos emprestam muito dinheiro, ocorre um aumento na demanda sem o correspondente aumento na oferta, e isso faz os preços subirem (não dá para fugir da lei da oferta e procura, por mais que os políticos estejam tentando há milhares de anos). Este aumento de preços vai direto para o IPCA. É sempre bom lembrar que expansão do crédito costuma formar bolhas: as pessoas gastam o dinheiro que não têm, os preços sobem, as vendas aumentam e há uma sensação de “agora vai!”, até que de repente a bolha estoura e sobram só as dívidas para pagar.

O segundo motivo é que uma parte dos títulos do governo é comprada por investidores estrangeiros. Quando a remuneração (ou seja, os juros) dos títulos deixa de ser atraente, os investidores vendem estes títulos e levam seu dinheiro para outro lugar. Para levar o dinheiro embora, eles trocam reais por dólares, e isso faz o “preço” do dólar aumentar e o real desvalorizar. O processo se realimenta: os outros investidores vêem seu investimento rendendo menos e ainda se desvalorizando, então cada vez mais investidores levam seu dinheiro embora. O que sobra é um real mais fraco, a cotação do dólar mais alta, e o preço de tudo subindo. Algumas pessoas que se orgulham da própria ignorância gostam de repetir coisas como “eu não almoço dólar”, mas a verdade é que o preço do dólar afeta diretamente o preço da comida, da roupa, da gasolina, do remédio, de praticamente tudo, e a única forma de evitarmos isso é nos tornando uma segunda Coréia do Norte, totalmente isolada do resto do mundo.

É interessante notar que quando os investidores estrangeiros trazem seus dólares para cá, o governo sempre comemora, com frases como “É uma prova da confiança em nossa economia”. Quando as coisas vão mal e os investimentos vão embora, o discurso muda: “Não queremos capital especulativo! Não vamos privilegiar rentistas à custa do sofrimento do povo!”. Na verdade, existem investimentos de prazo menor ou de prazo maior, mas o objetivo é sempre o mesmo: ganhar dinheiro. Ninguém investe para perder, e se um país é atrativo para um tipo de investimento, também é para outro. Não há como separar “investimento do bem” e “investimento do mal”, embora os políticos tentem.

Por que baixaram tanto a SELIC?

Aí só olhando dentro da cabeça do Paulo Guedes para saber. “Forçar juros para baixo causa desvalorização da moeda e inflação” é algo tão óbvio e que já foi demonstrado tantas vezes, que é difícil imaginar que gente supostamente qualificada cometa esse erro. Mas podemos pensar em algo que sempre ronda as decisões do governo: populismo.

Um autor de quem gosto muito disse “não há coisa que console mais o pobre do que a desgraça do rico, mesmo que a ele não traga benefício algum”. Nesse caso, nem é verdade, mas mesmo assim muitos pobres gostam de acreditar que a SELIC baixa “acabou com os rentistas” ou “deu fim aos especuladores”. No Brasil, rentistas e especuladores estão sempre na frente, com o governo correndo atrás, e cada vez que o governo faz uma trapalhada eles ganham mais dinheiro.

Alguns dizem que nosso Ministério da Economia segue a Escola de Chicago, e que esta coloca o equilíbrio fiscal acima de todo o resto. Nunca estudei nenhum autor “chicaguista”, mas quem acha aceitável prejudicar a vida do povo com inflação para manter as contas do governo equilibradas tem obrigação de ser a favor do aumento de impostos, o que no fundo é a mesma coisa. Eu já acho que deveria ser o contrário: o governo deveria se sacrificar pelo bem-estar do povo, não o povo se sacrificar pelo bem-estar do governo.

Outra observação: fala-se muito sobre a “independência do Banco Central”. Bem, recentemente o presidente do BC, Campos Neto, disse o seguinte: “A dívida nominal muito grande com taxas de juros muito baixas gera risco maior. O mundo começa a melhorar, os juros sobem e criam um efeito pobreza tão grande que cancela o crescimento antes de ele nascer. Podemos entrar em um círculo vicioso nesse sentido”.

Essa fala mostra que a tal independência é totalmente inócua. A única função do BC, e é por isso que ele é supostamente independente do governo, é manter o valor da moeda. Isso é importante porque, ao contrário de um déficit nas contas do governo ou uma variação da SELIC, a perda do valor da moeda afeta diretamente, e rapidamente, todos os negócios e toda a população do país. Repetindo: o BC deve ser o “guardião do real”, e apenas isso. Taxa de juros, déficit ou dívida do governo são problemas do governo federal, não do BC. Quando o presidente do BC mistura tudo, é porque o BC não é independente, é apenas um puxadinho do Ministério da Economia.

E daqui para frente?

O estrago já foi feito. Voltar ao patamar de alguns anos atrás não resolve mais, porque o déficit hoje é maior, a dívida é maior, a economia está mais fraca. Se (grandissíssimo se) o governo quiser que o real volte a ser uma moeda forte e estável (sinônimos), a SELIC vai ter que subir bastante. Se o governo se contentar em não deixar a inflação explodir até a próxima eleição, não precisará subir tanto, mas vai subir. E é bom lembrar que, se SELIC errada causa estragos, SELIC certa não resolve muita coisa se existem outras coisas erradas na economia (por exemplo, o governo fabricando dinheiro em excesso).

Para encerrar: talvez alguém esteja pensando “mas e a pandemia?”. A economia é uma ciência que analisa os fatos e as ações, e mostra as consequências. As leis da economia não mudam com pandemia, terremoto, tsunami, guerra ou invasão alienígena. Com ou sem pandemia, as consequências são as mesmas, e certamente virão.

4 pensou em “A SELIC SUBIU

  1. Prezado Marcelo, seu artigo trata de um assunto difícil de sintetizar no espaço desse texto. Está bem montado, mas gostaria de fazer pequenas observações. Eu acredito no bom funcionamento dos mercados. Aliás, essa palavra “mercado” está estigmatizada como se só existe para o mal, quando na verdade o mercado é o principal instrumento para equilibrar oferta e demanda. Juros inclusive.

    “Claro que na prática não é assim que funciona, porque quem manda é quem têm o dinheiro na mão, não quem está pedindo emprestado”
    Não é verdade! Existe uma máxima que diz que banqueiro com dinheiro na mão só faz besteira. Nem só banqueiro. O mundo vive um momento em que o dinheiro está atrás de um bom negócio, é evidente. Em nome da segurança os “rentistas” aceitam aplicar com juros reais (de curto prazo) negativos, aqui no Brasil e juros nominais negativos em economias consideradas mais seguras. Por tanto, a taxa de juro de equilíbrio é um acordo entre as partes e nunca uma imposição do devedor ou credor. Não é o credor quem impões taxas negativas com certeza.
    “O que se faz hoje é a pior escolha: o governo interfere no mercado, tabelando os juros”
    Os governos, não só o brasileiro, são os maiores tomadores de empréstimos, por tanto são agentes importantes na composição das taxas. Mas, não tabelam juros. Essa hipótese já foi testada diversas vezes e deu muito errado, em todo mundo. Tenho certeza que você é contra qualquer tabelamento.

    “No Brasil, rentistas e especuladores estão sempre na frente, com o governo correndo atrás, e cada vez que o governo faz uma trapalhada eles ganham mais dinheiro”
    Os especuladores não ganham sempre, isso é muito importante que fique claro. A imagem de especuladores que ganham com erros do Governo também não é correta, os lucros acontecem com as distorções que surgem nos preços. Ganham e perdem com erros e acertos do governo. Bom lembrar que para um ganhar outro tem que perder. Lamentavelmente nossos governos recentes são de uma incompetência a toda prova. O que provoca distorções convidativas.
    Parabéns pela capacidade de abordar tantos assuntos importantes de forma bem sintetizada.

    • Suas observações estão corretas, Eduardo. Eu apenas expressei de forma diferente.

      Quando eu digo que o governo “tabela juros”, eu estou falando da SELIC. Para o leigo, dá a impressão que o governo pode decidir quanto quer pagar de juros (claro que não pode). Claro que eu sou contra qualquer tabelamento, mesmo que ilusório. Mas o pessoal que tem político de estimação vibra quando o político mente que “vamos baixar os juros e acabar com a farra dos rentistas”.

      Cada vez que o governo faz uma trapalhada, por colocar a política e a politicagem à frente do bom senso, cria oportunidades para alguns ganharem e alguns perderem. Infelizmente, às vezes os “alguns que perdem” são a população como um todo, enquanto os que ganham são os mesmos de sempre.

      Grato pelos elogios. Escreva sempre.

  2. Escreveu Carlos Eduardo: “No Brasil, rentistas e especuladores estão sempre na frente, com o governo correndo atrás, e cada vez que o governo faz uma trapalhada eles ganham mais dinheiro”.

    Como nossos governantes DESDE SEMPRE são mestres em fazer trapalhada, especuladores rentistas e rentistas especuladores sempre estão a ganhar imensas fortunas.

    E o meu caminhão está parado, pois a venda de cocos nos quiosques praianos está cada dia mais difícil, o mesmo acontecendo com a venda cocal para bares e restaurantes.

    Caminhão parado, no Brasil, é péssimo sinal, não é mesmo Marcelo?

    • Caminhão parado, máquina parada, loja parada, fábrica parada, tudo isso é sinal de uma sociedade que não está produzindo, e quem não produz empobrece.

      Só não empobrecem os que estão completando um ano de férias, com o salário caindo na conta todo final de mês. Esses ficam escandalizados, hor-ro-ri-sa-dos com essa gente rude e sem empatia que insiste em querer trabalhar para ganhar a vida.

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