GOIANO BRAGA HORTA - ARCO, TARCO E VERVA

Pois, então, continuando a apresentação da quinta-feira 10 de setembro de 2020 aquela, em cuja a qual nos reunimos por obra e graça de Maurício Assuero para falar de tudo e mais um pouco pelo milagre da Internet, eu deveria estar mostrando as frases de para-choques de caminhão, mas, para aumentar o suspense, fui levado, pelo distinto público, a comentar alguma coisa da França.

Aí, dei um nó na conversa, para apresentar à plateia o que chamamos de Cultura Popular do Golpismo – muito atuante em Paris.

Para quem desconhecia (e para quem conhecia também), discorremos sobre alguns golpes que os estelionatários aplicam sem parar nos turistas que visitam a Cidade Luz, e posso garantir que eles caem como moscas no mel, no mais das vezes levados pela vontade de tirar vantagem em tudo:

1) Cultura do furto no vagão apertado no metrô: não envolve muita criatividade, só habilidade. Espreme daqui, espreme dali, a mocinha bonita colada em ti, adeus euros.

2) Cultura da lista de assinaturas de apoio aos mudos: elas, falsas mudas, te pedem, por sinais, para assinar, só assinar, para apoiar a sua causa. Logo em seguida ela vai pedir que escrevas um número ao lado da assinatura, para identificação. Aí ferrou, ela (raramente é “ele”) vai te cobrar o valor correspondente àquele número e aí rola uma pressão para que dês o dinheiro que “te comprometestes” a doar. Essas falsas “deficientes auditivas” também se unem em grupos nas redondezas do Louvre, cercam algum turista, o põem na roda, o espremem e o limpam.

3) Cultura da jóia perdida: Uma pessoa “acha” (entre aspas) uma jóia na tua frente e pergunta se é tua. Como o turista pode querer tirar vantagem, diz que é e a pega. Aí o golpista (muitas vezes mulheres também), reclama uma gratificação pelo “achado”. A jóia é vidro. Qualquer valor que dês é preju para ti.

4) Cultura do golpe do casaco: um cara, bem apessoado, encosta o belo carro ao teu lado (você já é o alvo, indicado pelos comparsas) e puxa conversa, em Português com acento estrangeiro, ei, vocês são brasileiros? Adoro o Brasil, vivi lá, etc. E oferece um belo casaco, embalado em plástico transparente, diz que veio da Itália, fizeram um desfile de modas, sobraram aqueles dois, está dando para ti e tua acompanhante. Tu perguntas, mas é dado? Ele diz que sim, só precisaria de uma pequena colaboração para a gasolina de volta à Itália… Ferrou! Tu aceitas, deixas duzentos euros na mão do safado e quando vais ver a coisa, os casacos são compráveis por no máximo vinte euros em uma das feiras das pulgas.

5) Cultura do tíquete usado do metrô: o cara, de terno escuro, parecendo trabalhar no metrô, te vê enrolado e te oferece ajuda na máquina de compra, que é bem diferente do que em geral conhecemos. Ele vai quebrar o teu galho comprando os tíquetes de que necessitas, para uma semana, quinze dias ou um mês, com o cartão de crédito dele mesmo! Tu só terás que reembolsá-lo em dinheiro. Aí, te entrega os bilhetes, tu pagas a ele… e…os bilhetes que ele te entregou são usados, não foram tirados da máquina, só os de cima que vais usar para passar na roleta. Depois, nas próximas viagens, vais dar com os burros nágua.

6) Cultura da pulseirinha de barbante: na subida de Montmartre eles te pegam pelo braço e começam a fazer uma amarração de uma pulseira de cordão, um tipo de barbante escuro, no teu braço. É grátis, igual as fitas do Senhor do Bonfim nas ruas de Salvador. Ele vai te cobrar ao final um preço que não vais gostar, queres tirar a pulseira e devolver, hehehe, ela não sai, o nó não se desfaz, ou pagas ou vais ter de enfrentar o malandro em uma baita discussão. Portanto, não deixes que o golpe seja iniciado.

7) Golpe do “do you speak English?”: Confesso que não sei como funciona. Estava eu encostado em um poste, que não era do PT, esperando minha mulher que tinha entrado em uma loja no Champs Elysées, e (em duas ou três ocasiões diferentes) duas senhoritas bonitinhas me abordaram, perguntando: “Do you speak English?”. Eu respondo em Francês, já pressentindo que ali tem coisa: “Pardon?”. Então elas vão embora, elas só querem estrangeiros. Não sei dizer se é oferta de sexo. Da próxima vez posso arriscar responder “yes” só para ver do que se trata.

Essa é só uma amostra de alguns golpes que fazem parte da cultura popular dos golpistas parisienses. Estando lá, fique esperto. E não estando, também, porque tem o Golpe do Aluguel por Temporada, que é bem mais dispendioso: Vais à Europa, procuras anúncios, no, digamos, Particulier à Particulier, tem uma oferta ótima em Paris, studio mobiliado, bem localizado, bom preço, algo como mil eurois, fazes o contato, alugas por um mês, pagas adiantado, pegas o voo e quando chegas é como aquela música da casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Vais ter de ir para um hotel, posso te indicar um bem bonzinho, no 14ème, perto da rue Daguerre, a 85 Euros a diária do casal com café da manhã.

Por hoje ficamos por aqui. Brevemente teremos a terceira parte desse relato, que é o miolo da palestra aquela, sobre frases de para-choques de caminhão, cuja a qual foi assistida por mais de oitocentas pessoas, segundo a contagem oficial que acaba de ser noticiada, e que esperamos possa ser superada em audiência na quinta-feira próxima, dia 24 de setembro de 2020 (que pode ser amanhã, hoje ou ontem, depende), quando Roque deitará falação sobre mato.

3 pensou em “A SEGUNDA CULTURA POPULAR EM PEQUENAS DOSES

  1. Boa Goiano. Não vou prá Paris, prá ser enganado pelos branquelos, mas é bom saber das técnicas, que, aliás, são aplicadas em qualquer país. Aqui, acho que por conta da pandemia, estamos vendo muito o golpe do bonzinho: é gente tirando ratinho da boca de cobra venenosa, gente salvando viadinho das garras de leão faminto, gente tirando a roupa na rua prá vestir quem tá nu, etc, etc. O incrível é que tem sempre uma câmera full hd prá filmar o ocorrido que logo é compartilhado e viralizado. E aí é onde está o pulo do gato.

  2. Beni, o Golpe do Bonzinho está na moda, tens toda razão. Tem neguinho que oferece duzentos, aí vem os outros e dizem que não, tem de ser quinhentos, aí o primeiro mostra que se é pra ser bonzinho ele vai ser o mais bonzinho de todos e cobre a oferta para seiscentos, e por aí vai.
    E também estás certo quanto ao fato de ser necessário ficar esperto, porque há golpes em todos os países, e o brasileiro não fica atrás.
    Só para dar um exemplo, me lembro do Golpe do Balão Apagado que tentaram aplicar em mim e em dois amigos, nos idos de 1960, no Passeio Público, no Rio de Janeiro.
    Golpe do Balão Apagado: uma pessoa se finge de bêbado, te aborda, começa com aquela conversa de bêbado, chora, mostra a carteira com fotos da família e no final de entrega uma foto dele e lhe pede encarecidamente que fique com ela para lembrança daquele momento em que ele foi ouvido e compreendido… etc. etc. etc. Aí ele vai embora. Em seguida, serás abordado por uma dupla de policiais, alegando que foi dada queixa de furto e o “bêbado” se aproxima, já bom, e te “reconhece” como quem levou mil pratas dele. Os “´policiais” vão te revistar, encontrar a foto contigo e dar voz de prisão, salvo se “devolveres” o dinheiro. Para não ires preso, entregas uma grana para os caras, se for preciso vais ao banco com eles para sacar…
    No nosso caso, macacos velhos nas malandragens do Rio, habitués da Lapa e adjacências, fizemos uma coisa perigosa (éramos jovens, saindo da adolescência), pegamos a foto, rasgamos em mil pedacinhos e jogamos em um canto, observando os “policiais” se aproximando. Quem conhece o Passeio Público (na época não era fechado com grades) sabe que há vários caminhos entre jardins e árvores. Nós ficávamos observando a movimentação deles e os enganávamos, não permitindo que eles se aproximassem na perseguição, um entrava por um caminho, outro por outro, nos encontrávamos de novo e andávamos para lá e para cá mantendo distância deles, até que eles perceberam que nós sabíamos o que estava acontecendo e foram embora, certamente para procurar algum otário que caísse na deles.
    Creio que esse golpe nem deve existir mais, hoje é na base do assalto à mão armada mesmo.

  3. Assisti “O Turista Acidental” e agora sei o que faltou no livro e no filme: a sua colaboração!
    ***
    Um amigo, muito viajado, tentava convencer-me a viajar mundo afora.
    Educadamente, disse-lhe “eu já conheço o mundo”.
    “É tudo a troco de dinheiro, não é”?
    “Sim”.
    “Então fico por aqui, se você conhecer um lugar diferente diga-me onde é que eu vou”.
    Espero até hoje…
    Até ele parou de vir a minha casa.
    “””

Deixe uma resposta