GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

Entre os anos de 1956 e 1960 ocorreu a construção da nova capital brasileira. Brasília foi idealizada e construída pelo presidente Juscelino Kubitschek e usada como propaganda ufanista do governo do único país da América Latina a possuir um porta aviões, o imponente Minas Gerais, do qual eu já contei a história aqui no Jornal da Besta Fubana, para ler clique aqui. Brasília era uma capital moderna encravada no centro do Brasil, numa área de cerrado, longe da antiga capital Rio de Janeiro e de toda a movimentação política que ocorria na Guanabara. Uma cidade moderna, planejada pelos arquitetos Oscar Niemeyer e Lucio Costa.

Placa indicando a direção da construção da nova capital e um retirante chegando em busca de trabalho

Alguns anos antes, longe dali, na região Nordeste, mais precisamente na capital pernambucana, o então governador Carlos de Lima Cavalcanti aterrou uma parte do estuário do Pina para a construção de um campo de aviação, para isso, teve que expulsar os moradores das palafitas da região, esses não tendo para onde ir, invadiram uma área mais ao norte, um sítio que ficava entre a Bacia do Pina e a praia, um lugar cheio de coqueiros e uma beleza exuberante chamado de Areal Novo, pertencente ao governo do estado, que ali pretendia construir tanques de armazenamento de combustíveis, esta foi a primeira invasão do Recife, sem Niemeyer, Lucio Costa, arquiteto ou qualquer tipo de planejamento, estava criada Brasília Teimosa. Mas o local era muito valorizado e logo os invasores foram expulsos, mas sem ter para onde ir, voltaram e construíram tudo novamente, e esse ciclo de destruição e reconstrução se arrastou por anos, nesse período dois incêndios misteriosos consumiram todos os barracos, mas os moradores não desistiam e reconstruíam tudo no mesmo lugar, os barracos eram construídos durante a noite e destruídos pelo poder público durante o dia.

População alinhada para receber o então presidente Lula em 2003, com as antigas palafitas ao fundo

O nome Brasília Teimosa é uma “homenagem” à capital nacional, construída na mesma época do bairro, e da teimosia dos moradores que construíam seus barracos e palafitas mesmo sabendo que seriam derrubados no dia seguinte pelo estado. Essa luta durou muito tempo e a população soube esperar e conseguir seus objetivos, aliás, esperar é o que a comunidade mais sabe fazer. Quando as linhas de ônibus já se espalhavam por toda a zona Sul do Recife, Brasília Teimosa ainda tinha que esperar o vai e vem dos barcos a remo que atravessavam a Bacia do Pina transportando quem precisava se deslocar até o centro da cidade para resolver suas demandas. Anos depois, a luta dos “brasilienses” por linhas de ônibus foi vencida, a CTTU incluiu na sua malha duas linhas para o bairro: “Brasília Teimosa” e “Brasília – Conde da Boa Vista”, e tome demora, essas linhas além de ter poucos ônibus disponibilizados, ainda circulam pelas estreitas ruas de um bairro que cresceu sem nenhum ordenamento como a Brasília de Oscar Niemeyer, para embarcar passageiros, que ao invés de caminharem até a Av. Antônio de Góes, onde passa um número maior de ônibus, ficam nos pontos conversando e olhando as redes sociais nos celulares, aguardando a partida do próximo ônibus.

Campinho na Praia do Buraco da “Véia” em Brasília teimosa. Ao fundo os arranhas céus dos bairros classe A do Pina e Boa Viagem

Só a partir de 2004 foi que Brasília foi recebendo melhorias: retirada das palafitas, urbanização da orla, asfalto nas ruas, posto de saúde e rede de esgotos, antes de 2004 só tinha o Escola Infantil Bernard Van Leer, sustentada pela fundação holandesa com o mesmo nome da escola, que ajuda crianças em vários países pobres e na Holanda, esse nome holandês difícil de pronunciar, foi substituído pelo do cantor brasileiro, as mães dos estudantes chamam de “Bernado Ivan Lins”. O bairro também conta com um grande número de comércios, principalmente de restaurantes, que atraem pessoas de toda a capital pernambucana e até turistas, como o famoso Biruta (hoje Vila Formosa) na beira mar ou o Bar do Samurai, com seus pratos de camarão vila franca, siri mole e lagosta a um preço bem convidativo, se comparado com os dos restaurantes dos vizinhos Pina e Boa Viagem.

Prato de siri mole do Bar do Samuray no site Tripadvisor

Para se chegar ao que o bairro tem hoje, os moradores lutaram desde o principio, “Rio de Janeiro – Após 35 dias de peripécias e tormentas numa longa travessia, chegaram hoje, a esta Capital, os heróicos pescadores do Recife, recebidos festivamente na Praça Quinze. Vieram defender reivindicações da classe e contam com a simpatia da Primeira Dama do País – Sra. Sara Kubitschek. São da Colônia Z-1, de Pernambuco. Voltarão de avião, pois a experiência foi amarga”, publicou o jornal carioca “A Noite” em 30 de janeiro de 1956, esses corajosos pescadores foram para a posse do presidente Juscelino para chamar a atenção do governo para a luta dos moradores em busca de uma moradia próxima ao local de onde tiram seus sustentos: o rio e o mar. Um dos pescadores aventureiros, Seu Salviano contou que a viagem de 1124 milhas de mar (cerca de 2080 km) foi em uma jangada de sete metros de comprimento por 1,80 de largura, mesmo analfabetos, sabiam que a propaganda surtiria efeito. Chegando no Rio foram recebidos pelo presidente, posaram para fotos ao seu lado e ganharam 11 motores para barcos. Perguntado pelo presidente se a viagem havia sido difícil, Seu Salviano respondeu: “viver no mar não é sacrificoso, difícil mesmo é voltar pra casa e ver o seu barraco queimado”.

Foto aérea dos três bairros com praias do Recife, com a visível divisão entre Brasília Teimosa e os hoje homogêneos Pina e Boa Viagem

6 pensou em “A SAGA DE UMA BRASÍLIA SEM NIEMEYER

  1. Está muito diferente, hoje. O Império do camarão era famoso. Quem quer chegar ao parque das esculturas tem duas opções: atravessar de jangada pelo Marco Zero ou ir por Brasília Teiomosa. Essa opção é mais atraente.

    • Sancho também lá esteve em 1984, se não me falha a corroída memória. Andei pelas “pontes” de madeira e tive que deixar o Quixote Vei di Guerra bem antes, pois ou era a pé ou a nado. Tinha um buteco com uma pinga de “rachá os beiço”. Saudade do véi Murilo (abração, mano véi!!!) que me levou por tais recantos.

  2. É verdade. Tinha uma lanchonete, logo na entrada. Eu ia lá porque era cada sanduba raçudo. O cara comia um e passava três dias sem fome

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