DEU NO JORNAL

Silvio Navarro

O leitor, telespectador, ouvinte a cada minuto mais digital correu para o smartphone até despertar atônito com as notícias do dia 16 de novembro: a esquerda voltou, ganhou as eleições, “é Lula de novo, com a força do povo”. Pois é. Por força da pane no “supercomputador” do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), comandado pelo ministro “iluminista” Luís Roberto Barroso, muitos brasileiros que trabalham cedo dormiram no dia anterior sem saber quem seriam seus novos prefeitos e vereadores. E por culpa do mainstream acordaram ainda mais assustados com as manchetes: uma nova onda de esquerda erguia voo no Brasil da pandemia.

Mas vamos aos números: o PT fechou o primeiro turno com 189 prefeituras, nenhuma delas em capitais. Das 15 cidades em que disputa a segunda rodada, somente uma, Recife, tem densidade eleitoral. O PCdoB levou 46 praças e aposta suas fichas em Manuela D’Ávila na capital do Rio Grande do Sul. O Psol, alardeado pela imprensa como a neoesquerda progressista em curso no país, faturou quatro dos 5.567 municípios no tabuleiro. Repito: quatro. A sigla ainda compete em duas capitais: Belém e São Paulo. Novamente, vamos aos números, mas agora àqueles que saíram das urnas em 2016: o PT elegeu 254 prefeitos; o PCdoB, 82; e o Psol, 2.

O fato é que o PT, uma espécie de estrela-mãe na constelação de esquerda no país, míngua a cada pleito [veja a tabela abaixo] – em 2012, detinha 638 cidades. E os vereadores? Há quatro anos, a sigla conquistou 2.815 cadeiras nas Câmaras Municipais; neste ano, foram 2.665. O PT, que já administrou máquinas como São Paulo e todo o chamado “cinturão vermelho metropolitano”, com musculatura eleitoral do tamanho de Florianópolis ou Curitiba, corre o risco de ficar sem ninguém. O encolhimento é matemático, mas, para a imprensa torcedora, a esquerda venceu.

Fonte: TSE

O que explicaria tanto a torcida nas redações ante a falsa ideia de que a esquerda psolista venceu? Resposta: Guilherme Boulos. O líder do movimento dos sem-teto, conhecido por incentivar a invasão de propriedades alheias, trocou as barricadas com pneus incendiados por mesas no boêmio bairro da Vila Madalena, reduto dos “meio intelectuais, meio de esquerda”. Na campanha, a camiseta vermelha de Che Guevara e a barba pingando deram lugar a um figurino alinhado à classe média alta, com direito a sapatênis, camisa estilo polo e pomada no cabelo. Boulos, com a nova plumagem, é a cara da geração que acorda e dorme nas redes sociais mas não sabe o preço de um bilhete de ônibus. A estratificação das urnas revela, por exemplo, que ele não venceu em nenhuma zona eleitoral na periferia — não ganhou em Parelheiros, na Brasilândia, no Campo Limpo nem em Paraisópolis. É o retrato do menino que não lava o prato do almoço porque tem rejeição à pia, mas diz ter a solução para as queimadas na Amazônia e para o aquecimento do planeta.

O resultado dessa formulação do Psol foi 1.080.736 de votos no maior colégio eleitoral do país. Não é pouca coisa. E nem caberiam todos esses votos na Vila Madalena. O que explica? A exemplo do furacão Jair Bolsonaro dois anos atrás, a campanha de Boulos usou bem a internet na pandemia. Enquanto o PT estava preocupado em marcar posição com o desconhecido Jilmar Tatto – egresso do “martismo” que o próprio Lula odeia – e o PCdoB até hoje sabe-se lá o motivo escolhia Orlando Silva – aquele mesmo que comprou tapioca com dinheiro público – para disputar, o Psol viu terreno para avançar: elegeu seis vereadores, marca histórica para a legenda.

A Edição 25 da Revista Oeste, publicada em 11 de setembro deste ano, dois meses antes da eleição, registrava que o “lulopetismo” rodava à margem do fracasso e que a neoesquerda caviar flertava com o Psol — e quiçá com o PCdoB de Manuela D’Ávila no Sul.

“O desmanche do PT coincidiu com o desmanche do próprio Lula”, avalia o colunista do JBF J. R. Guzzo. “O Psol é a recuperação judicial do PT”, diz o também colunista e escritor Guilherme Fiuza. De uma costela do PT, surgiu o Psol. “É um dos poucos casos na história em que a dissidência ameaça desbancar a ala majoritária”, avalia o cientista político Rubens Figueiredo.

Em síntese, é isso: Lula foi um líder populista – e sobretudo narcisista – que nunca quis alavancar um sucessor. Para ele, o PT sempre seria algo para chamar de seu. Deu no que deu – e ainda bem para o Brasil. Ao sair da cadeia gourmet, por exemplo, chegou a dizer que ao menos em sua cidade, São Bernardo do Campo (no ABC paulista), era questão de honra eleger Luiz Marinho prefeito – Orlando Morando (PSDB), o adversário, ganhou com 67,28% dos votos no domingo.

Em 2002, quando Lula chegou ao poder na mais carnavalesca eleição depois da redemocratização do país, o PT elegeu 91 deputados federais — à época, a máquina era o PFL de Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen, que fazia mais de 100 cadeiras. Nem o PFL nem o PT de Lula existem mais. O PFL virou o Democratas, uma curva da direita para o centro pelas mãos de Rodrigo Maia, o presidente da Câmara (espera-se, de saída). O PT virou qualquer coisa.

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