A PALAVRA DO EDITOR

– Meus caros senhores – discursou o cientista, renomado nome dentre os mais destacados psiquiatras do país – vamos estabelecer uma experiência única e só precisamos da aprovação de Vossas Excelências para implementá-la.

Alguns parlamentares aplaudiram, outros, da oposição sistemática, vaiaram, vaiariam qualquer um que estivesse ao lado do governo.

Pois, feito o discurso, o projeto foi posto em votação e aprovado pela maioria governista, de modo que as administrações de todos os manicômios do país retirariam todos os membros das respectivas administrações e passariam a ser completamente dirigidos pelos próprios loucos, sob a direção-geral do psiquiatra proponente, Doutor Ananias Pochete, que acompanharia as atividades de cada um dos dirigentes das diversas unidades mediante videoconferência.

Em vigor a nova lei, Pochete fez a primeira reunião e avisou: – Conseguimos, meus caros! O País é nosso!

Nem precisa dizer que o psiquiatra, Doutor Pochete, era completamente maluco e seu plano constava de conseguir que os hospícios de cada cidade conseguissem dominar os cidadãos locais, de modo que, como um jogo de dominó, cada uma caísse sob seu poder, o que significaria o controle geral.

Seria uma revolução total, inspirada nas obras de Machado de Assis, de George Orwell, de Gramsci e até mesmo de Maquiavel. Ah, a Revolução dos Bichos, O Alienista e O Príncipe foram os que mais lhe deram excelentes ideias.

Em suma, o que aconteceu foi o seguinte: Pochete orientou os malucos a saírem dos hospícios e invadirem a cidade com as idéias mais malucas, burras e estapafúrdias que pudessem ter, de modo a enfeitiçar as pessoas com promessas bizarras de salvar o país de suas desgraças.

Como? Ele mesmo não sabia. Mas que usassem a imaginação. Podiam, por exemplo, propor que cada um possuísse sua própria bomba atômica, para garantir a defesa contra invasões estrangeiras. Também garantiriam que, com uma nova ordem, aos homens seriam administrados hormônios masculinos, para aumento da virilidade, mas com atenção para o uso do sexo somente para a procriação, como estabelecido pelas leis divinas. Outra ideia era a de propor à população que o serviço militar se iniciaria aos três anos de idade, para meninos, e cinco, para meninas, que usariam, respectivamente, fardas azuis e cor-de-rosa.

Com esses princípios em mente, loucos de várias cidades apresentaram sugestões, como tirar as rodas dos carros, para resolver o problema do tráfego; expulsar todos os índios das matas e trazê-los para as cidades para civilizá-los e pô-los em atividades produtivas, para suprir a falta de trabalhadores de pouca qualificação profissional; tornar obrigatório o retorno da cueca samba-canção; cobrar imposto sobre esmolas; acabar com os tribunais e passando a atividade de julgar diretamente ao povo, por intermédio das redes sociais; e tantas propostas profícuas que encheriam páginas e páginas para serem expostas.

As populações das cidades ficaram maravilhadas! Alguns perguntavam se não seria burrice retirar as asas dos aviões, ao que eles respondiam que era a única forma de impedir totalmente a ocorrência de acidentes aéreos – e todos tinham de concordar com a lógica perfeita e terminar por aplaudir a providência.

Tudo aconteceu de tal forma perfeita, segundo bem imaginado por Doutor Pochete em sua loucura de pedra, que todas as ideias foram acatadas e postas em prática, os loucos tornaram-se líderes e expandiram sua administração ocupando os cargos públicos, prefeituras, vereanças, câmaras de deputado, senado, ministérios, enfim, tudo e tudo.

Poderia parecer estranho que o país tivesse prosperado com a loucura e a burrice imperando, mas foi o que aconteceu: as matas foram derrubadas, plantou-se muita soja, criou-se muito boi, a baitolagem desapareceu, a madeira enriqueceu os madeireiros e os cofres públicos, extraiu-se nióbio como nunca visto, a criminalidade foi a zero, os investidores estrangeiros aplicaram em peso suas economias nos negócios do país que, de tão diferente, apinhou-se de turistas aos magotes, os quais vieram deixar aqui abundantemente a moeda estrangeira e enriquecer os hoteleiros, taxistas, donos de bares e restaurantes, aproveitando-se, ainda, da liberdade de poderem andar pelas ruas com revólveres e cartucheiras na cintura brincando de faroeste e afastando o estresse… e por aí foi.

Sempre tem os insatisfeitos, que, da prisão, tramam para derrubar o governo dos pirados tapados e instaurar o comunismo no país, segundo afirma o Ministério do Fuzilamento.

Espero que tenha dado aos leitores uma visão geral dos acontecimentos. Amanhã voltarei com mais informações e análises, pois agora tenho de parar porque hoje é meu dia de ir ao banheiro.

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