ADONIS OLIVEIRA - LÍNGUA FERINA

Entre fevereiro e março de 2014, a o povo da Ucrânia se dirigiu em massa à Praça Maidan, ou da República, em sua capital Kiev, para protestar contra o governo do Presidente Viktor Yanukovich, títere de Putin e cabeça de uma roubalheira raramente vista por lá. A roubalheira parecia com a praticada numa republiqueta de merda da América do Sul, esfolada recentemente por alguns anos sob o jugo de hordas de esquerdistas viciados em verbas públicas. Por um desses acasos do destino, eu estava exatamente lá na ocasião, usufruindo de uma oferta que me havia sido feita pela TAP: Ida e volta até Helsinki, por um valor em milhas relativamente baixo, já que estavam inaugurando aquela rota. Fui e, de lá, segui para San Petersburgo, Moscou e, depois, Kiev.

Participei ativamente daquela ocasião histórica. Vi os monumentos aos mais de 100 rapazes que foram fuzilados pelos “snipers” da polícia; visitei os locais onde os raros sobreviventes foram operados; conheci os acampamentos nas barricadas, encontrei com o comando das milícias populares e confraternizei; vibrei com a derrubada do pilantra, seguido da sua fuga desmoralizante, em helicóptero russo, direto para o colo de Putin, para não morrer trucidado pelas massas enfurecidas e acompanhei aterrorizado a invasão da Crimeia pelo exército russo, cinicamente disfarçado de “milícias voluntárias”. A invasão, junto com a anexação forçada que se seguiu, está em curso até hoje, mesmo contrariando resolução da ONU e afrontando o não reconhecimento por todos os países decentes do mundo, com exceção apenas das “repúblicas populares” da Coreia do Norte, do Sudão, Venezuela, Síria, Bolívia, e outras preciosidades de igual jaez.

A Crimeia era parte da Rússia desde 1783, quando o império Tzarista de Catarina – A Grande, a anexou, uma década após ter vencido o exército do Império Otomano, na batalha de Kozludzha. Permaneceu assim até fevereiro de 1954, quando o Soviete Supremo da URSS, com a aprovação do “Politburo” da Rússia e da Ucrânia, autorizou a transferência para a Ucrânia. Tudo perfeitamente “legal”, como se pode ver.

As razões alegadas para a transferência – afinidades com a Ucrânia e celebrar os 300 anos da “união” entre as duas nações – não convenceram. Khrushchev havia sido elevado a 1º Secretário em setembro de 1953 e ainda estava consolidando sua base de poder no início de 1954. Vinha de ocupar a posição de líder do Partido Comunista da Ucrânia, de 1930, até o final de1949. Durante seus últimos anos nesta posição, foi responsável por comandar as forças governamentais na Guerra Civil que se instalou nas províncias a oeste da Ucrânia (Volynia e Galícia), após a iniciativa soviética para anexá-las. Este conflito foi marcado pelo alto número de mortes e pelas terríveis atrocidades cometidas por ambos os lados. Apesar das denúncias posteriormente feitas por ele, relativas às atrocidades cometidas por Stalin, o mesmo também se valeu de violência e brutalidade sem limites a fim de estabelecer o controle soviético no oeste da Ucrânia. Apesar de ocasionais embates ainda ocorrendo, a guerra já havia acabado quando a Crimeia foi transferida. O objetivo real da transferência era conquistar o apoio de seu sucessor no comando da Ucrânia para a sua nova posição de Premier.

Durante a Guerra Civil que se seguiu à queda do Tzar, em 1917, a Crimeia foi o último bastião do exército Branco, dos Cossacos, a resistir. Só foi vencido em 1920. Nesta ocasião, foram sumariamente fuzilados e enforcados mais de 50.000 prisioneiros. Foi o maior massacre registrado nesta guerra. Em outubro de 1921, passou a fazer parte da URSS como “República Autônoma”. Seguiram-se dois grandes períodos de fome: 1921 e 1922; e o Holodomor, de 1932 e 1933. Na 2ª Grande Guerra, foi invadida pelo exército alemão em 1941, tendo sido palco de inúmeras batalhas sangrentas. Durante a ocupação, as montanhas da península foram sempre foco de resistência aos nazistas. Foi retomada pelas tropas russas em 1944. Em maio deste mesmo ano, toda a imensa população de etnia Tártara da Crimeia foi transferida à força para a Sibéria, por ordem expressa de Stalin. Cerca de 50% morreu ao longo da transferência. A alegação era que teriam resistido à retomada pela Rússia. Procedimento semelhante foi adotado para com as minorias armênia, búlgara e grega. Ao final deste ano, a “Limpeza Étnica” estava completa. Procedeu-se, então, à “russificação” da península, da mesma forma que havia sido feito com os países bálticos e com a antiga Bessarábia, hoje conhecida como Moldávia, através da transferência de grandes quantidades de colonos russos para as terras despovoadas.

A Táurica, nome pelo qual os gregos a conheciam, sempre fora habitada por uma grande quantidade de povos diferentes, já que seu território se encontra em uma posição altamente estratégica, tanto para as sucessivas migrações vindas da Ásia, como para a manutenção do comércio nas fronteiras entre os grandes impérios, situação que prevalece até os dias atuais. O seu controle favorece o domínio de todo o Mar Negro.

As regiões do interior eram habitadas pelos Citas, enquanto a costa montanhosa era habitada pelos Tauros. Haviam também inúmeras colônias gregas espalhadas pela costa. No século IV a.c., a parte ocidental passou a integrar o reino do Bósforo, sendo depois anexada pelo Império Romano no século I a.c. Ao longo dos séculos seguintes, a Crimeia foi invadida pelos Citas, Sármatas, Godos (250 d.c.), Hunos (376 d.c.) Búlgaros (século IV e VIII), Cazares (século VIII), Russ de Quieve (séculos X e XI), Bizantinos (1016) Quipchacos (1050) e Mongóis (1217). No século XIII, os genoveses destruíram ou tomaram as colônias que seus rivais venezianos haviam implantado em Balaclava e Teodósia. Estas feitorias comerciais permaneceram ativas até a conquista pelos Turcos Otomanos em 1475, que já vinham se infiltrando lá desde o século XIII.

Após a destruição da Horda Dourada, por Tamerlão, os tártaros da Crimeia fundaram um Canato independente, em 1427 (ou 1443), sob a liderança de Haci I Giray, um descendente de Gêngis Cã. Os tártaros da Crimeia passaram a controlar as estepes que se estendiam de Kuban até o rio Dniestre, sem, no entanto, conseguir assumir o controle dos entrepostos comerciais genoveses. Após eles finalmente obterem o controle delas, capturaram o sultão otomano Menli I Giray, que foi libertado em troca do reconhecimento dos Cãs da Crimeia pelos otomanos e a aceitação de seu papel como príncipes tributários do Império Otomano. Os Cãs da Crimeia mantiveram um grande grau de autonomia do Império Otomano. Em 1774, caíram na esfera de influência dos russos, com o Tratado de Küçük Kaynarca, o que se mostraria uma péssima troca. Em 1783, toda a Crimeia foi anexada pelo Império Russo.

Até o fim do século XVIII, os tártaros da Crimeia mantinham um ativo comércio escravagista com o Império Otomano e todo o Oriente Médio. Estima-se que mais de dois milhões de escravos, oriundos da Rússia e da Ucrânia, foram vendidos entre 1500 e 1700. Os tártaros tornaram-se célebres por suas incursões devastadoras e quase que anuais contra os povos eslavos do Norte. Apenas em 1769, naquela que é considerada a última incursão tártara, ocorrida durante a Guerra Russo-Turca, cerca de 20 mil pessoas foram escravizadas. Vejam acima uma pequena comparação entre as descendentes das escravas eslavas, vendidas pelos tártaros aos otomanos, e o que os portugueses nos legaram como herança: Funkeiras, bissexuais assumidas, barraqueiras, semianalfabetas e arrogantes, cheias de explicação para tudo em sua sesquipedal ignorância, além de choraminguentas a respeito de uma suposta “dívida social”. Teríamos feito muito melhor negócio com os tártaros.

A Rússia e o Império Otomano entraram em guerra em outubro de 1853. Alegaram os russos querer proteger os cristãos ortodoxos sob o domínio otomano. A Rússia começou em vantagem, ao destruir a frota otomana em Sinope, no mar Negro. Para frear as conquistas russas, França e Grã-Bretanha entraram no conflito em março de 1854. O grande objetivo de ambas as partes era controlar o mar Negro. As maioria das batalhas terrestres foram travadas na península da Crimeia. Os russos conseguiram defender Sebastopol, base de sua frota de guerra até hoje, por mais de um ano. Após sua queda, um acordo de paz foi assinado em Paris, em março de 1856. Os principais resultados do conflito foram: a neutralização do mar Negro – a Rússia não mais manteria navios de guerra lá – e duas nações vassalas, a Valáquia e a Moldávia, tornaram-se virtualmente independentes, embora ainda sob o domínio nominal dos otomanos. Vejam que as alegações de Putin para o estupro que praticou na Crimeia são apenas a continuação da mesma velha cantilena para justificar o centenário expansionismo do império russo. Hoje, permanece a principal questão: A quem pertence a Crimeia? Será que necessitaremos outra “Guerra da Crimeia” para a Ucrânia sobreviver como nação?

4 pensou em “A QUEM PERTENCE A CRIMÉIA?

  1. Alguns lugares do mundo parecem fadados a uma vida de guerras e conflitos. A Criméia, pela localização estratégica no Mar Negro, é uma delas.

    A Ucrânia também sempre esteve “no caminho” das ambições dos impérios vizinhos (Rússia, Alemanha, Polônia, Áustria, Turquia). Foram poucos e breves os momentos em que a Ucrânia viveu em paz ao longo da história.

    Como tenho 50% de sangue ucraíno, fico todo vaidoso fingindo que o Adônis escreveu a coluna especialmente para mim…

    • Señores Bertoluci e Oliveira
      Com meu sangue fifty/fifty Península Ibérica (pai lusitano e mãe catalã), resolvo abranger mais as fronteiras… E houve algum pouco e breve momento em que o mundo viveu em paz ao longo da história? Subjugar o outro sempre foi o esporte mais praticado por cada recanto do planeta azul…

      O únco intuito de Sancho em meter a enferrujada colher em “prosa de gigantes” foi fazer vocês perderem preciosos segundos lendo o que escrevi.

      Que o ensolarado domingo aqueça vossos corações…

      Aproveito o espaço para mandar beijao apaixonado para minhas quadrigêmeas amantes tailandesas que foram à terra natal visitar os familiares.

      E abuso do espaço para mandar forte abraço a outros gigantescos fubânicos: Marcos André, Jesus de Ritinha, ZéRamos, João Francisco, JoaquimFrancisco, Roque Nunes. Ciço, DMatt, Carlos, Maurino, Mercedita, Violante, Dalinha, Aline, Nacinha, Anita, Constância, Berto, Carlos Eduardo, Assuero, Rodrigo de León, Pedro Malta, Severino, Bernardo, Magnovaldo, Rômulo, José Paulo, Fernando, MM, Carlos Ivan, Constâncio Uchôxu, Paulo Terracota, Brito, Marcelo, Adônis, Polodoro e Xolinha e Chupicleide.

      • Prezado Sancho,

        Não é à toa que nosso amigo Sancho apresenta características marcantes de genialidade. Com esta ancestralidade baseada em duas castas nobres, lusitana e catalã, não poderia sair nada menos brilhante.

        Grande abraço.

    • Caro Marcelo,

      Desconhecia totalmente esta característica da tua ancestralidade mas podes considerar estas minhas mal traçadas linhas, sobre aquele povo que tanto admiro, como tendo sido escrito especialmente para ti.

      Agora está parcialmente explicada a tua personalidade superior.

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