GUILHERME FIUZA

O presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, resolveu dizer que “acha” que o projeto do voto auditável não passa na comissão especial. Ele tirou essa profecia da cartola numa live onde estava também Gilmar Mendes, o ministro do STF que faz política diuturna contra o governo federal. Quem dissesse qualquer coisa contra o presidente da República nessa live, direta ou indiretamente, estaria em casa. Você sabe como funciona a resistência cenográfica. E o que o presidente da Câmara estava fazendo nesse videogame?

A proposta de emenda à Constituição que institui o sistema de auditagem das eleições através da impressão dos votos registrados foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça. Seguiu para a comissão especial e, após uma sequência de audiências técnicas sobre as vulnerabilidades do sistema atual e o aumento da segurança com o sistema proposto, formou maioria pela aprovação da emenda. Aí os ministros do STF Luis Roberto Barroso (que preside o Tribunal Superior Eleitoral) e Alexandre de Moraes entraram em campo.

A dupla de representantes do Poder Judiciário reuniu mais de uma dezena de líderes partidários para dizer o que o Poder Legislativo deveria fazer – e deu-se o milagre: os partidos substituíram vários de seus representantes na comissão especial e inverteram a maioria pela reprovação da emenda.

Traduzindo para quem ainda não entendeu: o STF/TSE operaram a comissão da Câmara – e não se sabe qual foi o bisturi usado, só que ele era muito bom. Essa intromissão ostensiva dos emissários do STF na Câmara dos Deputados se deu nas barbas do presidente dessa mesma Câmara dos Deputados – e o que ele tem a dizer sobre isso? Que “acha” que a emenda “não passa” na Comissão…

Tem muita coisa estranha acontecendo, mas essa aí não tem nada de estranho. Se o deputado Arthur Lira não disser que se enganou, ou que não foi isso que quis dizer, ou que desistiu de ser deputado e virou analista político, ou vidente, ele está aliado aos cirurgiões de toga para barrar o aprimoramento da segurança das eleições no Brasil – um anseio de expressiva parcela da população, como ele já deve ter visto por todos os lados. Só não viu se tiver resolvido adotar o modo avestruz de Rodrigo Maia – um burocrata com alergia a povo cuja gestão desastrosa na presidência da Câmara foi criticada pelo próprio Arthur Lira no momento em que o substituiu no cargo. Mas as pessoas mudam. Vamos observar.

O deputado Arthur Lira disse que existe no Senado uma emenda para instituição do voto auditável e que seria melhor discuti-la do que gastar tempo na Câmara. É um distraído. Ele sabe que o projeto em torno do qual o país está mobilizado e cujos proponentes tiveram o expediente de esmiuçar em audiências técnicas está na Câmara. Ele sabe que a liderança, portanto, para levar adiante essa transformação está na Câmara. E disse que é melhor discutir a emenda que está no Senado. Esperteza demais engole o dono – e distração também.

O presidente da Câmara sabe que a comissão especial foi operada e que o país está gritando contra esse escândalo. Sabe que a maioria na comissão pode ser refeita a partir das pressões legítimas da população, que é quem manda no parlamento. E resolveu se antecipar com um “prognóstico” sobre o enterro deste anseio? Qualquer idiota sabe que esse “prognóstico” é tão natural quanto um elefante de asas.

Deputado Arthur Lira, fica aqui uma sugestão de coragem e transparência: deixe de lado essa conversa coreográfica com Gilmar Mendes & cia e assuma sua posição sobre o assunto. Diga que é contra o voto auditável. Diga isso de peito aberto ao povo brasileiro. E explique de viva voz suas razões. Quais são elas? Seja bastante claro nesse ponto. Porque se não for, o senhor irá automaticamente para o lugar da desconfiança com que todos os brasileiros de boa fé hoje veem a movimentação febril, quase desesperada, dos representantes do STF contra essa matéria – sem conseguir explicar por que passaram a se opor quase religiosamente a essa medida de segurança eleitoral.

Não tenha dúvidas, deputado Arthur Lira: todos os que estão nessa trincheira cega contra o voto auditável são hoje, aos olhos dos brasileiros, suspeitos. Até porque os entrincheirados de toga são os mesmos que, em outra manobra de arrepiar, reabilitaram o criminoso Lula da Silva para disputar essa mesma eleição que eles não querem que seja auditada de jeito nenhum. Deu para entender o enredo, não deu?

Ninguém de boa fé e um mínimo de discernimento no Brasil hoje tem dúvidas sobre esse enredo. Ou seja: todo mundo sabe que a democracia brasileira está numa encruzilhada. Escolha o seu lado, Arthur Lira.

2 pensou em “A PREMONIÇÃO INAUDITÁVEL DE ARTHUR LIRA

  1. Eu acho que o nobre deputado já escolheu em que lado fica!

    Para mim, ele escolheu o lado da patifaria, da canalhice, das mentiras, das roubalheiras, dos engodos, dos trambiques, e por aí vai.

    Que o peso desta decisão caia sobre a sua (dele) cabeça.

  2. Teremos eleições para deputado federal em 2022, nunca votei no edil e nem no pai quando candidatos, essa próxima eleição pelos que brigam para que continue como estar, já deixou de ser suspeita, temos certeza que tem gato na tuba. Fui vítima de trambique em um certo pleito anos atrás, já falei aqui e não canso de repetir, um parente foi candidato a vereado e na seção vota eu e minha esposa, não conseguimos dar nosso voto, pois ao digitarmos o numero aparecia um outro candidato do município, fiquei puto, reclamei e foi mesmo que nada, não foi trocada e acabamos votando em branco.

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