A PRAGA

Décadas atrás, minha tia- avó Idila Lima, solteirona e idosa, costumava às sextas-feiras dar esmolas, na janela da casa onde morava com o irmão, Dr. Nestor dos Santos Lima, na Praça 7 de Setembro, em Natal, onde hoje é o prédio da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte.

Segurando uma bolsa cheia de dinheiro, tia Idila se distraía, fazendo essa caridade. Eram moedas de pequeno valor, mas que, na época, davam para comprar alguma comida. Eram distribuídas moedas de 500 réis, depois de 1 cruzeiro, 2 cruzeiros, etc. Esse gesto provocava o agradecimento dos mendigos.

Tive a oportunidade de ouvir, diversas vezes, um agradecimento de um mendigo cego, ao receber a esmola das mãos de tia Idila, que dizia:

– DEUS TE LIVRE DA PRAGA DO MAU VIZINHO!!!

E tia Idila respondia:

– AMÉM!!!

Nesse tempo, eu era uma adolescente e ainda não conhecia o lado mau da vida.

Em Nova-Cruz, só havia maus vizinhos, na época das campanhas políticas. Eram adversários políticos, que discutiam, defendendo seus candidatos. Depois das eleições, as intrigas eram esquecidas.

Depois de adulta e casada, vi que essa qualidade de gente, o mau vizinho, existe mesmo.

Quando somos nós que temos um mau vizinho, às vezes, o caso torna-se desesperador. Já vi pessoas se mudarem de uma casa, ou apartamento, por causa de um mau vizinho.

Aquele agradecimento que eu ouvia o mendigo cego dizer para tia Idila, ao receber das suas mãos a esmola, nunca saiu da minha memória.

“Deus te livre da praga do mau vizinho!!!” Hoje, na maturidade, cheguei à conclusão de que o mau vizinho é, realmente, a pior praga que existe”.

Logo cedo, convenci-me da existência da praga do mau vizinho, no caso, da má vizinha.

Pois bem. Minha Mãe adorava gatos e criava uma gata Angorá, branca de olhos azuis, a quem chamava de Vélvete. Numa certa manhã, ouvi minha Mãe aos prantos, ao ver sua gata chegar no quintal da nossa casa, cambaleando e completamente sem pelos.

A vizinha, de mal com a vida, odiava a gata, porque ela tinha o costume de pular o muro para o quintal da casa dela. A megera, então, nesse dia, jogou na gata uma panela de água fervendo, o que fez cair todo o seu pelo. A gata morreu em consequência desse ato vil e criminoso.

A mulher negou o ocorrido, mas sua empregada, dias depois, contou à minha Mãe que a patroa vivia planejando dar um fim àquela gata, pois tinha horror quando a via no seu quintal. A gata sempre era enxotada de lá a vassouradas, até que a criminosa pôs em prática o seu plano macabro, jogando-lhe água fervendo.

Tirou na sorte grande, aquele que nunca teve um mau vizinho.

Num prédio onde morei, vi um morador agressivo e bêbado acabar com uma festinha de adolescentes, às 10 horas da noite, jogando baldes d’água nos convidados, diretamente do seu apartamento no 2º andar. A festinha era ao lado da piscina.

Outra vez, esse mesmo homem quis acabar com a comemoração de um aniversário, no salão de festas, mandando um recado pelo porteiro, para que desligassem o som, que o estava incomodando. Eu me meti e mandei-lhe um recado, dizendo que ele devia ir ao centro de velório que havia perto do prédio, para se distrair um pouco, olhando os defuntos que estavam sendo velados. Se ele não gostava da alegria dos vivos, fosse se distrair com a tristeza da morte.

Ainda faltava se cantar o “parabéns pra você”, e, por causa disso, a festa iria se prolongar um pouquinho mais. Era um som antigo, sem muita potência, e que só poderia incomodar os “chatos de galocha”, como ele.

Em edifícios de apartamentos, sempre há um mau vizinho, ou má vizinha, de mal com a vida, cheios de problemas de família, filhos desajustados, e que detestam qualquer manifestação de alegria, por parte dos demais moradores. Essas pessoas tiram a harmonia do prédio. Tornam-se antipáticas e agressivas. Tratam mal aos empregados do condomínio, dando-lhes ordens aos gritos, como se eles fossem seus empregados particulares. Já vi uma vizinha agressiva e violenta, ameaçar de demissão o porteiro do prédio. O homem se recusou a cumprir uma ordem sua de largar a portaria, para ajeitar alguma coisa no apartamento dela, como se o empregado fosse particular e não do condomínio.

Um amigo meu, que morava numa casa, teve seu cachorro envenenado pelo vizinho, que não suportava ouvi-lo latir.

Existem pessoas que carregam uma carga de energia negativa muito grande e acabam transmitindo essa energia consciente ou inconscientemente. Não suportam a felicidade de ninguém.

Os olhos são como lentes que concentram a energia do corpo e da alma, conseguindo transmitir um elevado grau de magnetismo e energia. Todo olhar é poderoso. Pode curar, regenerar, abençoar e até ajudar uma pessoa a prosperar na vida.

Mas quando o olhar vem de uma pessoa invejosa, cheia de ódio, despeito, rancor, raiva, ganância, egoísmo, malquerer, que tem o espírito e o coração impregnados de pensamentos negativos e de destruição, pode, em casos raros, causar a morte a quem seja vítima desta forma de olhar. Isso é o que se chama mau olhado ou olho gordo.

Portanto, Deus nos livre da praga do mau vizinho, ou má vizinha, e da cobra que habita dentro deles!

11 pensou em “A PRAGA

  1. ………. Os olhos são como lentes que concentram a energia do corpo e da alma, conseguindo transmitir um elevado grau de magnetismo e energia. Todo olhar é poderoso. Pode curar, regenerar, abençoar e até ajudar uma pessoa a prosperar na vida… FRASE MUITO BEM CUNHADA. É DE ARREPIAR!!!

    P.S1.: – Sempre, sempre, alimentamos aquela velha rixa com o tal vizinho, né mesmo… Por que será que o ônibus elétrico que tem um motorzão não faz barulho, e o liquidificador do vizinho que tem um motorzinho acorda toda a vizinhança toda manhã?!?!?!

    P.S2.: – Só usufruímos de vizinho ruim, o seu WI-FI…

    • Obrigada pelo comentário, prezado Altamir Pinheiro! Já provei dos dois lados da moeda. Considero um mau (á) vizinho (a) a pior praga que existe no mundo. Quem nunca passou por essa experiência, dê graças a Deus!!!. É um sortudo!!! rsrs

  2. nunca tive o azar de ter um mau vizinho ,e procuro sempre não encher o saco de ninguem.agora , ir se distrair com a tristeza da morte , foi muito bom .abraços.

    • Obrigada pelo comentário, francisco pereira! Você é um sortudo, pois nunca teve o azar de ter um mau vizinho…..Parabéns!!!!! Tenho uma má vizinha, que quando a vejo, faço figa e me benzo três vezes, rsrs

  3. Violante,

    Existem diversos tipos de vizinhos, os chatos, os fofoqueiros, aqueles que se tornam amigos e outros que não dá para nem sentir o cheiro. Há os que são reservados, mas também os trapalhões, barulhentos por si só. Viver é conviver, como diz o poeta; entretanto a convivência com um vizinho mal-humorado é um exercício de paciência. Tive a sorte de não ter nenhum vizinho insuportável, mas conheço histórias de alguns amigos que sofreram muito por ter de conviver com pessoas que se acham os donos do mundo. Parabéns pela excelente crônica. Valeu!

    Saudações fraternas,

    Aristeu

    • Obrigada pelo comentário, prezado Aristeu Bezerra! Parabéns pela sorte de nunca ter tido um mau vizinho. Já não posso dizer o mesmo. Já provei dos dois lados da moeda. Há vários anos, moro num prédio com 13 apartamentos, que sempre foi uma tranquilidade. De repente, o apartamento abaixo do meu foi vendido a um casal, cuja mulher não pára de procurar vazamentos, inexistentes, do meu para o apartamento dela. Ela é o terror das reuniões de condomínio…rsrs.

      Um abraço e um feliz fim de semana!

      Violante

  4. Oi Violante. Sou seu fã mais mala, por isso me chamou a atenção a referencia a sua tia-avó Idila Lima, que na certa será irmã de Anna Lima, esta como uma pessoa muito conhecida minha e a quem muito admiro pela obra das “Verbenas” que aliás vc me enviou. Por isso mesmo hoje começo a reler pela quarta vez meu Verbenas e reavivar minha admiração por tão rara sonetista.

    • Obrigada pela gentileza do comentário, prezado amigo Flávio Feronato! De fato, minha tia- avó Idila Lima era irmã da poetisa Anna Lima, minha avo materna, autora de “Verbenas”, Fiquei feliz com as suas palavras. É gratificante saber que você lê os meus escritos, e, o que é mais importante, gosta de reler “Verbenas”. É o meu livro de cabeceira.

      Um grande abraço e tudo de bom!

  5. Querida Violante Pimentel:

    Mal terminei de ler sua belíssima crônica “A FRAGA” me lembrei do mau caratismo inerente a certas pessoas!

    Para que exemplo mais abjeto, cínico, cafajeste, desonroso do que esse comentário do mais que mau caráter “advogado” Antonio Carlos de Almeida Castro – O Kakay, atacando a ministra Damares Alves num grupo de “advogados” no WhatsApp?

    Imagine ser vizinho de um cafajeste desse? Mau caráter até a medula, que, ao comentário maldoso contra a ministra, teve uma resposta civilizadíssima do Ministro Sergio Moro, quando aconselhou a Ministra, que aconselhou a ministra “Há pessoas que merecem ser tão somente ignoradas.”

    O Kaykay é um desses vizinho mau caráter que até o gato tem asco dele!

    Ótimo final de semana para a grande cronista, extensivo a todos que você ama!

  6. Obrigada pelo comentário, querido cronista Cícero Tavares! Há pessoas que detestam a humanidade e não respeitam ninguém. O mau-caratismo dessas pessoas não tem classificação!

    Um grande abraço e um ótimo domingo!.

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