A PALAVRA DO EDITOR

Praça Pio X, nos anos 40

Uma das lembranças marcantes da minha infância é a Praça Pio X, desativada para a construção da Catedral Metropolitana de Natal. Margeá-la integrava meu percurso obrigatório no deslocamento de casa para a escola e vice-versa.

Eu morava na Rua Mossoró e estudava no Ginásio São Luiz, situado na Rua José de Alencar, Cidade Alta, propriedade do padre Eymard L’Eraistre Monteiro. Na memória ainda pulsa a simplicidade bucólica daquele logradouro público que ocupava um quarteirão com um hectare de área encravado ao lado do cinema Rio Grande.

A praça pouco lembrava a dos anos 40, quando foi inaugurada. Os canteiros já sem arborização, enquanto os desenhos geométricos da pavimentação combinando pedras brancas e pretas careciam de conservação. Apenas os bancos rústicos de cimento, característicos da época, ficaram preservados da ação do tempo.

Alcancei resquícios do restaurante no centro da praça, aparentando asas de um avião, e o espaço acima dele de acesso ao público por lances de escadas laterais. O ambiente ainda era dominado pelo paliteiro de postes no formato de tridentes, com globos leitosos encobrindo lâmpadas espetadas em cada uma das três extremidades das peças. Deslumbrava-me atravessar a praça iluminada à noite.

A primeira tentativa de construção da catedral aconteceu com D. Marcolino Dantas, o primeiro arcebispo de Natal. De posse de um projeto imitando templos europeus, ele conseguiu levantar algumas paredes. Entretanto, a falta de recursos fez a iniciativa soçobrar no esquecimento.

Em 1972, o jovem arquiteto Marconi Grevi apresentou aos arcebispo e bispo auxiliar de Natal, D. Nivaldo Monte e D. Antonio Soares Costa, um projeto de custo mais em conta, sem tanta pompa e priorizando a rusticidade e a praticidade.

Marconi Grevi, Engº José Pereira da Silva e D. Nivaldo Monte tendo ao fundo o projeto abandonado

Mesmo primando pela simplicidade dos materiais, a proposta arrojada da catedral, num primeiro momento, chocou a população. Não por menos, o vão livre central, em concreto protendido com 60 metros de extensão, consistiria no maior do Norte e Nordeste do país.

O templo abrigaria 3.000 mil fieis sentados e disporia de gigantesco painel representando a Aurora Matutina. O efeito da visão interna seria ao mesmo tempo algo sublime, místico e grandioso. Tudo isso em apenas 25% da área do terreno.

A catedral inaugurada em 1988

Perguntei ao arquiteto qual o significado do entrelaçamento de cruzes da fachada da catedral, e se a ideia chocara a Cúria Metropolitana. Marconi respondeu: A aprovação foi unânime após minha explicação. São três cruzes que podem ser identificadas de qualquer ângulo em que nos posicionemos. Tanto representa a Santíssima Trindade como as cruzes do Monte Calvário, local da crucificação de Cristo.

A construção começou no dia 21 de junho de 1973. Depois de 18 anos de campanhas arrecadando fundos, a obra foi inaugurada por Dom Alair Vilar de Melo, em 21 de novembro de 1988, dia de Nossa Senhora da Apresentação.

Da antiga praça, ainda viva nas minhas recordações, somente restaram os versos do samba de Airton Ramalho, Praça Pio X:

Pio X praça que desapareceu
Praça de muita recordação
Lá foi onde o nosso amor nasceu
E onde eu perdi meu coração
Praça, o teu nome vão guardar
E quem lá foi namorar
Não te esquecerá
Breve, tu serás a casa de Deus
Eis a nossa homenagem
E também o nosso adeus.

6 pensou em “A PRAÇA QUE VIROU CATEDRAL

  1. Fantástico o resgate da nossa História. Sem dúvida, a grande característica do autor. O arquiteto, sem dúvidas, estava inspirado por Deus na elaboração desse projeto.

  2. A leitora Claudine, esqueceu de acrescentar que o autor do texto é seu pai, que também admira o trabalho que ela escolheu desenvolver – cirurgiã dentista-, e que é muita amada pelo autor e todos da família.

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