CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

Na década de 60 era um vasto terreno. Tudo era mata e uma pequena gruta. A família Breda, uma das mais tradicionais da cidade de Maceió, chegou, construiu sua mansão e começou a lotear o imenso terreno, vendendo por preços módicos. O velho Breda quis homenagear sua esposa, dona Lourdes e Nossa Senhora de Lourdes, e daí surgiu o nome do novo bairro: Gruta de Lourdes.

As famílias de classe média começaram a se interessar pelo local, e foram construindo suas casas, já obedecendo à arquitetura moderna, separada uma das outras por muros, com jardins, garagem e quintal. Também doou terreno para a construção do primeiro grupo escolar. E o bairro foi crescendo.

Jardim do Horto na Gruta de Lourdes é um empreendimento urbano dos mais bonitos e bem planejados da cidade. Nesse aprazível local de ótima qualidade de vida moram os abastados; médicos, engenheiros, promotores, fazendeiros, grandes comerciantes. Apenas sortudos da vida residem nesse paraíso. Entre eles encontra-se o médico e fazendeiro, Dr. Nerivaldo do Amaral. Sua santa esposa, Salete, o tem como um Deus, ou melhor, um santo imaculado, um bom samaritano, imagem conseguida em anos de convívio.

De fato, Nerivaldo é um homem trabalhador. Seu patrimônio foi construído com muito suor. Honesto nos negócios, sempre procurou justiça em suas decisões e na sociedade. Não joga, nem fuma, bebe um pouquinho.

Um cidadão não pode possuir apenas qualidades, seria um absurdo histórico e sociológico. Todos têm algum defeito, o Dr. Nerivaldo também tem seu ponto fraco. Seu calcanhar de Aquiles é uma morena, menina nova e carinhosa. Com truques e artimanhas, ele consegue camuflar suas aventuras. Salete nem desconfia e põe a mão no fogo por seu marido.

Certo dia, ao sair do Jardim do Horto para o trabalho, entrando na Avenida Fernandes Lima em direção ao consultório, parou no sinal vermelho do semáforo, ao lado ambulantes vendiam frutas e verduras. Apareceu de repente uma moça oferecendo macaxeira da melhor qualidade, barata, dizia a morena com vestido leve e solto, cabelos encaracolados, olhos negros que ao encontrarem os de Nerivaldo pareceram sair faíscas. Nosso médico teve tempo de comprar um feixe de macaxeira, logo deu partida no carro quando o sinal verde abriu passagem.

No dia seguinte ao passar pelo mesmo sinal procurou e avistou a morena da cor do pecado que lhe sorriu ofertando um feixe de macaxeira. Ele deu uma nota de R$ 20,00 e alegrou a jovem mandando guardar o troco.

Continuou comprando macaxeira diariamente. Teve de explicar à esposa, comprava para ajudar sobreviver uma família faminta. Salete deu-lhe um cheiro com amor, enaltecendo a generosidade do marido.

Nerivaldo nunca esperou as coisas caírem do céu, sempre as fez acontecerem. No início de uma tarde de uma sexta-feira de verão, quando a bela morena dos olhos de graúna se aproximou, em poucas palavras ele se abriu, disse o que queria. Marcou encontro no ponto de ônibus próximo, às sete da noite.

No retorno do trabalho, na hora marcada, ele foi se aproximando do local, marcha lenta numa avenida de alta velocidade, percebeu que a jovem estava no ponto combinado. Invadiu-lhe uma alegria indisfarçável de aventureiro, freou o carro, a morena entrou, sorriu sentando a seu lado.

Dr. Nerivaldo ficou deslumbrado com a beleza daquela mulher sem pintura, parecia porcelana marrom. O rosto oval coberto pelos cabelos encaracolados abrigava dois olhos negros, brilhantes e desafiantes como se chamuscassem pequenos raios. Boca carnuda sorridente dava o toque sensual das mestiças. Maria da Pureza, 22 anos, nascida em um povoado de Lagoa da Canoa (terra de Hermeto Pascoal). Bastava isso para o Dr. Nerivaldo, nada mais quis saber.

Quebrando o gelo com conversa divertida, o doutor passeou com o carro durante mais de 10 minutos até chegar num motel do Tabuleiro. Pegaram a melhor suíte, bem decorada, cheia de espelhos, impressionou Pureza, ela admirava: Que bonito, que bonito!

Nerivaldo abraçou a morena, beijando-a no pescoço, no rosto, na boca. Num rompante carinhoso desabotoou os laços por cima dos ombros, o vestido de chita caiu-lhe aos pés, mostrando o corpo perfeito, torneado, curvas sensuais, seios pontiagudos, pareciam dois cuscuz de chocolate. Noite inesquecível. De madrugada partiu para a fazenda, aonde deveria estar desde a noite anterior.

O Doutor não pode mais viver sem Pureza, a morena da Gruta, que continua a morar numa casa singela, por trás do condomínio dos ricos. Por imposição de Nerivaldo ela agora estuda à noite, aprendeu a ler, não vende mais macaxeira, está trabalhando numa empresa de um amigo servindo cafezinho e fantasias aos homens. Entretanto, permanece fiel a seu protetor, o bom “samaritano”, Dr. Nerivaldo do Amaral residente no Jardim da Gruta.

3 pensou em “A MORENA DA GRUTA DE LOURDES

  1. Mais uma bela crônica do mestre das Alagoas.

    2018 estive em Gruta de Lourdes. Belíssimo e aprazível lugar em Maceió. Tem o horto 1 e 2.
    Me hospedei no horto 1 na casa de um primo. É um espetáculo!

    Mas, essa história da morena é recente???

    Se for, tu entregou o “home” na bandeja de Lourdes, literalmente, mestre Carlito!

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