MAGNOVALDO BEZERRA - EXCRESCÊNCIAS

No longínquo ano de 1973 estava em andamento a construção da nova fábrica da Detroit Diesel no terreno da General Motors em São José dos Campos, fábrica que depois serviria para a produção dos motores a gasolina para o Chevette e o Monza.

Uma das minhas atribuições era a supervisão da montagem do Parque de Tanques de Combustíveis para o armazenamento dos produtos de petróleo (óleo diesel, lubrificantes, gasolina, etc.) para a nova fábrica. Construídos os gigantescos tanques de armazenamento, e antes da pintura final, era mandatória a inspeção das soldas das chapas de aço. Essa inspeção é feita por radiografia.

Uma empresa especializada nesse tipo de inspeção foi contratada e, com seus equipamentos de radiografia, se deslocou até o local da obra para realizar seu trabalho. No caso, o equipamento para isso utilizava Raios Gama, bem mais indicado para aquele tipo de serviço.

A fonte radioativa para a emissão dos Raios Gama consta de uma determinada quantidade de um isótopo radioativo. Essa massa de radioisótopo é encapsulada e lacrada dentro de um pequeno envoltório metálico denominado torpedo devido a sua forma, ou fonte selada, simplesmente. O torpedo se destina a impedir que o material radioativo entre em contato com qualquer superfície, objeto ou pessoa, diminuindo os riscos de uma eventual contaminação radioativa.

No caso em questão a fonte utilizada foi uma ampola do material radioativo Irídio-192, suficiente para inspecionar chapas de aço de 10 a 40 mm de espessura (para espessuras maiores de aço são utilizadas ampolas com Cobalto-60).

Serviço terminado, é hora de levar seus equipamentos de volta. A fonte de Irídio-192 estava protegida dentro de uma maleta de chumbo, metal que é apropriado para a proteção contra a radiação.

A questão bem questionada aconteceu quando o técnico estava saindo com seus equipamentos. Os guardas da portaria, seguindo a recomendação dos manuais da G.M., resolveram abrir a maleta de chumbo para checar o que havia dentro. Claro, o técnico da empresa não permitiu, explicando para os guardas as razões técnicas porque não fazer isso. Impasse. Os guardas não queriam saber nem o que era Irídio, quanto mais um tal de Irídio-192. E, além do mais, ficaram aperreados ao saberem que havia um torpedo dentro da maleta. O chefe da guarda, o sr. Gustavo B., me telefonou então para tomar uma decisão.

Fui claro e direto ao assunto:

– Senhor Gustavo, se o senhor e seus guardas quiserem ficar brochas pelo resto da vida, podem abrir a maleta. A decisão é de vocês. Se quiserem preservar suas libidos, esqueçam a maleta.

O técnico foi imediatamente instruído a desaparecer das imediações com sua maleta de chumbo.

No dia seguinte dois guardas arretados e sacudidos vieram me procurar:

– Engenheiro, nós não estávamos nem perto da maleta. Podemos ficar tranquilos?

6 pensou em “A MALETA DE CHUMBO

  1. Ando deprê com as coisas que estão acontecendo neste nosso País.
    Creio que eu e mais um punhado de cabavéi…
    Vontade de ir para Parságada como poetava Manuel Bandeira.

    De forma que é um alento ler crônicas agradáveis, alegres e leves como a do colega Magnovaldo.

    Vida que segue.

    • Meu caro Welinton: acho que todos nós, os véios, estamos com a alegria de viver bem esculhambosas por tudo que está acontecendo com o nosso amado Brasil. Mas… bola prá frente. Também estou fazendo um grande esforço para tentar mudar um pouco o pessimismo que me apoquenta a vida. Não está fácil. Por outro lado, sei que não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe. Força, companheiro. Já passamos por um Sarney, um Collor, uma Dilma e também, por duas vezes, por esse cafajeste que está chegando. Vamos sobreviver. Eu, que tenho muito mais passado que futuro não sofrerei mais tanto, mas fico sorumbático quando penso nos meus netos.
      Desejo que você tenha um Natal feliz, alegre, com saúde e paz, junto aos seus queridos.
      Abraços,
      Magnovaldo

  2. Também continuo deprê depois que saíram o resultado das eleições do dia 30.11.2022, principalmente por TER A CERTEZA que foi o povo do “nordeste” que elegeu esse MARGINAL, CHEFE DA ORCRIM DOS PETROÇÕES E MENSALÕES para saquear e roubar o nosso Brasil por mais quatro anos….

    Mas são crônicas feito A MALETA DE CHUMBO do meu queridíssimo Magnovaldo Santos, hilária, cômica, que me faz ter esperança no destino do País, mas sem criar expectativa esquizofrênica!

    Forte abraço estimado cronista do sorriso e esperança nesse Natal e no Ano Novo a toda família Santos de Magnovaldo!

    • Ciço, meu bom compadre: algo de bom sempre acontece no meio dessa desgraceira toda. Por exemplo, no final de março virá ao mundo a querida Maria, minha netinha número 7. Não sei o que o futuro lhe reservará, mas farei tudo para que ela tenha sempre um sorriso nos lábios e uma palavra doce para seus pais, irmãos, primos, tios, avós e, principalmente, para os sedentos de sorrisos.
      Não podemos culpar só os nordestinos. A cidade de São Paulo, a maior e mais importante e desenvolvida do Brasil, votou naquele de alma leprosa e moral inexistente.
      Desejo-lhe um Natal com muita saúde, paz e alegria junto aos seus amados.
      Um grande abraço, esperança para os dias que seguem.
      Magnovaldo

  3. Magnovaldo, você deveria ter dito aos guardas para fazer um teste manual. “vá ali e se exercite, se não subir em 10s, tás ferrado”. Uma coisa interessante é que como somos de áreas correlatas, eu acabo lembrando situações parecidas. Quando era assessor do pró-reitor de pesquisa chegou um projeto, via fundação, que consistia na construção de um bunker para experimentos com um betatron. Esse equipamento seria usado para verificar o estado das torres de trasnmissão de energia. Quando li o projeto, não dei muito crença que seria implementado… um bunker? Devolvi pedindo explicações e colocando as alegações técnicas contra isso. O coordenador mudou o projeto: adaptar uma sala no CTG com chumbo para fazer os teste ali. Discordei de novo. Aleguei que o peso do chumbo poderia derrubar as paredes do prédio. Então, vamos fazer os testes no campo. Leva o betatron, encosta na base de concreto e manda raios gama…..a porra do projeto não deu certo por culpa, inclusive, da CHESF. O projeto termina em 2015, o gerente do projeto – puto da vida – chega no departamento, bota o betatron num carro e leva para CHESF. O coordenador me liga para comunicar. Eu liguei para CHESF e disse: “vocês são malucos? Como é que vocês levam um equipamento radiotivo para dentro da CHESF? Querem o quê? Que todo mundo que tenha contato com ele pegue câncer?”…. Meia hora depois me liga um diretor da CHESF para falar sobre isso. Quando eu falei dos riscos o cara mandou devolver o equipamento, mas os gerentes do projeto lá, ficaram com os cabos de conexão. Eu fiz uma cotação, custavam R$ 100 mil na época.

    • Meu caro Maurício: como dizem os gênios fubânicos, gente besta existe por todos os cantos do mundo. Ainda bem que não nos encontramos entre essa tropa – ou, pelo menos, é o que assim pensamos.
      Tenha um Natal com muita alegria, saúde, paz e prosperidade.
      Grande abraço,
      Magnovaldo

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