MARCOS ANDRÉ - DADO & TRAÇADO

A infalibilidade da morte é a maior certeza que o ser humano tem.

Desde a mais remota era das civilizações, o homem se depara com esse tema tão indecifrável e peculiar: A intrigante e amedrontadora morte. Centenas de reflexões, teses e ensaios filosóficos (desde os egípcios, gregos e povos da mesopotâmia), procuraram lançar luz, na vã tentativa de revelar este enigmático “estado” do ser.

Não pretendo me ater a convicções deístas ou não, pois muitos não concebem um “criador” estereotipado e delimitado por conceitos diversos. E, Para não nos alongarmos numa infinda cronologia, vamos tomar como exemplo, algumas passagens significativas de documentos, pinçadas de importantes escritos.

O LIVRO DOS MORTOS

Do antigo Egito, advém o intrigante LIVRO DOS MORTOS – uma coletânea de feitiços, fórmulas mágicas, orações, hinos e litanias do Antigo Egito, escritos em rolos de papiro – em cujos textos, procura orientar o morto em sua viagem para o desconhecido, livrando-o assim, de iminentes atribulações no decorrer da sua viagem para o Além. Colocado na cabeça da múmia ou próximo dela, onde escrevinhava-se em papiros alguns trechos no sarcófago e na tumba. Conforme o historiador Maurice Crouzet, era traçado ao morto, as orientações inerentes para se sobrepor ante os obstáculos e artifícios materiais ou espirituais que o espreitava em sua senda rumo ao “ocidente”.

VELHO TESTAMENTO

Em Gênesis, nos deparamos com a metafórica e difícil acepção quanto ao surgimento da vida e do seu fim, contendo o vaticínio irrefutável: Viste do pó e ao pó tornarás! – Esta passagem bíblica, resta um tanto simplificada àqueles que se inclinam paro o evolucionismo (Teoria Evolucionista), com a seguinte explicação: PÓ lembra terra, barro, então alguém pode concluir que o homem foi gerado a partir do barro (sopro de Deus!) e que logo em seguida, a partir da costela desse primeiro homem gerado do barro, Deus fez surgir a primeira mulher (seria a primeira clonagem).

Ora, ao fenecer, o homem (e a mulher) é enterrado, decompõe-se e se integra à terra, ou seja, ao barro que lhe deu origem. Explicação perfeitamente aceitável para um adepto da Teoria Criacionista.

Para boa parte de biólogos não há contradição pois essa magistral e enigmática frase ” todos foram feitos do pó, e todos ao pó voltarão”, que consta do capítulo 3 do livro de Eclesiastes tornou-se perfeitamente explicável à luz da biologia após o desenvolvimento científico que culminou com a descoberta do átomo, dos elementos químicos e dos micróbios.

NOVO TESTAMENTO

 “Porque não há nada oculto que não venha a ser revelado, e nada escondido que não venha a ser conhecido e trazido à luz.” Lucas 8:17

 Disse a outro: Segue-me; e o outro respondeu: Senhor, consente que, primeiro, eu vá enterrar meu pai. – Jesus lhe retrucou:

Deixa aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos; quanto a ti, vai anunciar o reino de Deus. (S. LUCAS, 9:59-60.)

Se bem analisado, o ato de enterrar um morto, temos que, apenas um corpo sem vida é enterrado. A alma, o ser espiritual que o habitava, ali não está, tendo sido expulso do corpo, quando perdeu sua vitalidade orgânica.

O que torna a terra para, novamente, se transmutar em pó, é um corpo – físico – sem vida, mas que é respeitosamente reverenciado, este que foi um instrumento do Espírito, enquanto encarnado. Cumprida a sua tarefa, decompõe-se nos seus elementos constitutivos, que irão formar outros corpos.

Deixa aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos; quanto a ti, vai anunciar o reino de Deus. (S. LUCAS, 9:59-60.), vemos neste texto evangélico, Jesus impedindo um costume sagrado que é o dos familiares enterrarem os seus mortos, como condição para aceitar alguém como seu discípulo, o que não condiz com a sua doutrina de respeito, de amor ao próximo. Jesus (o “Homão da Galiléia” – como bem denomina o prelado colunista do JBF, Fernando A. Gonçalves – lançava mão de ocorrência e situações rotineiras para expandir e explanar seus ensinamentos, algumas vezes com palavras fortes, para que elas não fossem esquecidas, vez que, nada escrevia.

A LIÇÃO DO MONGE

Um rapaz se queixou ao seu Mestre das muitas calúnias que se levantavam contra ele. Disse-lhe o Monge:

– Vá ao cemitério e faça um sermão enérgico aos mortos, chamando-os de nomes bem pesados.

(O noviço colheu no dicionário os adjetivos mais horríveis, capazes de irritar até a um santo. E foi. Ao voltar, o Mestre perguntou:)

– Qual foi a reação dos mortos? O que responderam?

– Nada. Ninguém saiu do túmulo, nem para olhar.

– Pois bem, volta e faça outro sermão, elogiando-os com os nomes mais lisonjeiros.

(O noviço fez aquele panegírico de arrancar lágrimas e comover até as pedras. Quando voltou a mesma pergunta e a mesma resposta. Então o velho Mestre acrescentou:)

– Faça como os mortos do cemitério. Quer sejas caluniado, ou elogiado, cala-te sempre. Assim não perderás a calma. (Autor desconhecido)

“A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando para frente” (Soren Kierkegaard)

“Para que repetir os erros antigos quando há tantos erros novos a cometer” (Bertrand Russel)

E assim, os mortos vão nos dando lições para vida.

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