MAGNOVALDO SANTOS - EXCRESCÊNCIAS

Uma de minhas saudosas lembranças de criança era o pudim de leite que minha mãe fazia.

Uma obra de arte e gostosura, reconhecida com nove estrelas no Guia Michelin e um Prêmio Nobel de Pudim pela comunidade onde vivíamos no sertão de Mato Grosso, sendo esse reconhecimento avalizado pela enorme demanda de tal iguaria por ocasião de festas, aniversários, casamentos e batizados na vizinhança. Convém lembrar que o leite era recolhido diretamente das tetas das vacas, sem essa baitolagem de rótulos informativos, teor de gordura, pasteurização e outras frescuras que só aumentam nossa desconfiança atual sobre a capacidade das vacas brasileiras para produzirem um alimento que atenda a Anvisa, ao Serviço de Inspeção Federal do Ministério da Agricultura e ao Lewandowski.

E, claro, minha mãe recebia generosas recompensas financeiras por tal atividade.

Em um certo dia longínquo, incerto e não sabido, minha mãe recebeu uma grande encomenda para uma festa de casamento, incluindo salgadinhos, bolos, doces e… claro, um pudim de leite.

A tentadora visão de um pudim de leite

A visão daquele pudim repousando na forma em cima da mesa era algo abominavelmente atraente para nós, moleques pervertidos e loucamente vidrados em tal iguaria.

Quando minha mãe foi tirar a tradicional soneca do meio dia, o diabo atentou. A figura do pudim, juro, piscava o olho esquerdo para nós num atrevimento de uma bela fêmea no cio, e … vosmecê sabe, o espírito pode ser forte, mas a carne é fraca!

Quando o cão atenta ele também segreda em algum lugar entre as tripas e o cérebro a solução para o cometimento do pecado. O Asmodeu é a inspiração do crime.

Foi quando meu irmão, com minha ajuda intelectual, teve a brilhante ideia:

– Ora, é fácil: sacamos o pudim da forma, viramos o próprio de cabeça para baixo, tiramos uma lasquinha do fundo e voltamos com ele à posição normal dentro da forma. Ninguém vai perceber.

Assim foi falado e assim foi feito, se bem que a lasquinha foi um pouco exagerada. Ninguém desconfiou de nada.

Quero dizer, de nada até a hora da festa, quando minha mãe chegou com suas obras de arte gastronômica e foi colocando todas elas na mesa forrada com uma alvíssima toalha branca. Que hora terrível! Foi aí que descobrimos apavorados que os pudins são tirados das formas e ficam virados de ponta cabeça na bandeja em que são servidos.

Pois eu lhe digo a vosmecê, meu amigo, que quando o pudim foi tirado da forma e colocado em tal bandeja o buraco ficou à vista de todos e o nosso crime foi descoberto ali mesmo, escancarado, sem nenhum álibi em nosso socorro, para constrangimento inimaginável da velha e risos dos comensais.

Eu me lembro que ela não falou nada. Sua expressão era tão indefinida quanto a cabeça de uma minhoca. Tanto a língua ficou em repouso quanto os olhos faiscaram.

Somente virou o olhar uns 23 graus a bombordo na direção de meu irmão, fazendo com que se lhe eriçassem os pelos do rabo. Em seguida, virando 14 graus a estibordo, alcançou-me como a visão da guilhotina pelo condenado. A tempestade de raios cósmicos emitidos pelos seus olhos apenas nos avisou que preparássemos nossas bundas para a surra que viria à noite.