CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

Como qualquer jovem inteligente que nascia na Zona da Mata Sul ou Norte do Estado de Pernambuco, e assistia aos pais serem explorados pelos senhores de engenho na palha da cana, Raimundo Julião, adolescente, formou a consciência de que não era aquilo que ele queria para seu futuro. Teria de buscar novos horizontes para ele e a família, como o fez o radialista Geraldo Freire quando migrou de Serra Talhada (PE), se quisesse ser gente na cidade grande, vencer as borrascas da vida e viver com dignidade.

(Que fique bem claro aqui que Raimundo Julião não tinha ilusão por nenhuma ideologia proletária ou socialista. Política partidária pior ainda. Por nada disso simpatizava o jovem, embora tivesse plena consciência de que o homem era um animal político na sua essência, como assegurava Aristóteles.)

Aos poucos foi se conscientizando de que só o estudo e o trabalho levados a sério é que o salvariam da miséria e o possibilitariam a ajudar os pais e os irmãos que preferiram ficar no engenho sendo explorados pelos coronéis.

Dos doze irmãos da prole, Raimundo Julião foi o único que teve a coragem de deixar a roça e partir para cidade grande, com a cara e a coragem, feito um náufrago à deriva sem bússola, mas tendo plena consciência de que chegaria nalguma ilha e lá plantaria uma semente para florescer e dar fruto.

Quando desembarcou na cidade, vindo de trem, foi que deu conta que só teria o futuro garantido se estudasse. Empregou-se numa casa de secos e molhados e, em seguida, se matriculou numa escola pública para aprimorar seus conhecimentos, já que na roça teve acesso à alfabetização estudando à noite com uma professora da redondeza que lhe dava aula particular.

Depois de três anos de muito estudo e trabalho e sentindo que já estava preparado para fazer qualquer concurso público aberto pelo estado, Raimundo Julião resolveu se inscrever no exame de seleção para auditor fiscal à época do secretário José do Rego Maciel, que fez história no Sefaz-PE no momento mais conturbado da Era Vagas, passando em primeiro lugar no certame e logo sendo nomeado e designado com uma equipe de novatos para fazer cobranças de tributos atrasados nos engenhos de cana de açúcar.

Cheio de moral e comandando uma equipe sem experiência no trato com os homens dos engenhos, Raimundo Julião e equipe se hospedaram num hotel à lá Cabaré de Maria Bago Mole e mandou intimar todos os fazendeiros devedores para acertarem os tributos atrasados sob pena de serem punidos com multas pesadas e cassação das concessões estaduais, como previa lei estadual da Secretaria da Fazenda do Estado.

Assim que tomaram conhecimento de que os fiscais da Sefaz estavam hospedados no hotel da cidade com a missão de cobrarem tributos e contribuições atrasados, os fazendeiros mandaram seus capangas irem até o hotel onde estavam os homens do governo para os convidarem a participar de um churrasco de confraternização regado a muita carne de bode, galinha, peru, e muita cachaça da região.

Raimundo Julião fincou os pés no chão e disse que ninguém da sua equipe iria à confraternização, e que estava ali para cumprir as ordens do secretário, em nome do Estado: receber os tributos atrasados dos senhores de engenho!

Depois de muitas idas e vindas dos senhores de engenho e os capangas numa tentativa de “diálogo”, e percebendo que os homens da lei não sediam nem a pau, “reuniram-se” os coronéis na fazenda de um fazendeiro desafeto e traçou-se um plano diabólico: dar uns sopapos nos fiscais e os expulsarem do hotel onde estavam hospedados a tiro de baioneta. Mera coincidência com o momento político atual?

Hora combinada, à noite, os senhores de engenho juntaram uma ruma de capangas e ordenaram que fossem ao hotel dar uma sova nos fiscais intransigentes e os expulsassem da cidade a tiro de mosquetão. Mas antes dos capangas chegarem, os fiscais, avisados às pressas pelo dono do hotel que vinha chumbo grosso por aí, fugiram por dentro do canavial dos engenhos e sumiram estabanadamente.

Perguntado por um gaiato se o plano de fuga havia dado certo, Raimundo Julião não se fez de rogado e respondeu, rindo pelos cantos da boca:

– Se deu certo ou não eu não sei. Se ficou alguém perdido no meio do canavial, também não sei. Mas até hoje, pelo que tomei conhecimento do relato de alguns colegas, tem gente perdida correndo no meio do mato todo cagado, fugindo da sombra dos capangas armados de mosquetão.

Foi quando outro gaiato entrou na conversa e perguntou:

– E o Senhor, Seu Raimundo, como escapou do tirinete?

– Eu? Eu me fingi de hóspede vagabundo e orei a todos os orixás para eles não me reconhecerem a cara. A estratégia deu certo, mas as roubas novas que eu levei para passar uma semana no hotel, eu tive que jogar fora. A caganeira foi tão braba que todas as peças viraram papal higiênico.

6 pensou em “A HONESTIDADE DE RAIMUNDO JULIÃO

    • Beni Tavares, bom dia.

      Obrigado pelo comentário, e mais interessante, ter verossimilhança com o “causo” vivido pelo nobre comentarista!

      Quando eu fazia o corso de corretor de imóvel Raimundo Julião, que hoje ensina direito tributário em várias universidades do Recife, nos passou essa pérola vivida por ele.

      Interessante que até hoje, passado mais de 30 anos ele mantém a mesma personalidade. Faria tudo outra vez nem que para isso levasse uma sova dos capangas. Kkkkkkkkkkkkkk.

      Pense no sujeito incorruptível!

      Creio que o comentarista dos bons e Advogado Marcos Cavalcanti, um assíduo frequentador do CABARÉ DO BERTO, o conhece.

  1. Bela história, Mestre Cícero.

    Julião pagou um certo preço pela esperteza. Os coronéis não estavam para brincadeiras. “Diálogos e sopapos a tiros de baionetas” é uma coisa assustadora. Os donos de engenho são muitos autoritários e arrogantes. Suas “honras e otoridades” estavam acima de tudo. Acima da lei.

    Se houvesse queixas pelos sopapos e “diálogos”, tudo cairia em breve no esquecimento. Pois havia muita influencia politica e dinheiro em jogo.

    Eu teria feito o mesmo.

    Quando eu era jovem, era atletas velocista dos 100 e 200metros rasos. Ganhei medalhas pelos jogos estudantis.
    Nunca gostei de briga. Costumava dizer que meu gosto por briga é com uma nega na cama. Aí o pau come!
    Quando era desafiado para uma luta corporal, chegava para o desafiante e dizia: Tu só é mais home do que eu e só bate em mim, se me pegar na carreira. Plantava-lhe a mão e saia correndo. O raivoso cidadão corria atrás. Deixava-o chegar bem perto, porém sem que pudesse colocar as mãos em mim.
    Parei de desafiar quando suspeitava que o sujeito pudesse porta uma arma de fogo.
    Hoje, com minha obesidade mórbida, corro só em sonhos.

    Parabéns pela crônica.

  2. Se deu certo nem Ciço sabe. Se ficou alguém perdido no meio do canavial, também não sabe. E eu, o que sei? Que me diverti e muito com a crônica ceceriana…

  3. Parabéns pelo ótimo texto, querido cronista Cícero Tavares!
    Raimundo Julião é um exemplo de perseverança, para quem tem medo de ir à luta, para ganhar a vida.
    Sua vitória deve-se ao fato de ter se conscientizado, em tempo, de que “só o estudo e o trabalho levados a sério é que o salvariam da miséria e o possibilitariam a ajudar os pais e os irmãos que preferiram ficar no engenho sendo explorados pelos coronéis.”
    A investida dele e sua equipe de auditores fiscais, todos sem experiência, para fazer cobranças de tributos atrasados, nos engenhos de cana de açúcar, foi hilária. Melhor ainda foi a fuga em debandada…rsrsrs.

    Grande abraço!

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