A GENÉTICA NO REPENTE SEGUNDO IVANILDO VILA NOVA

Ivanildo Vila Nova é um dos maiores nomes do admirável mundo do repente. Seu trabalho se destaca pela sagacidade dos seus versos, pelo poder de síntese de seus improvisos e pela variedade de temas abordados. Ele cresceu acompanhando seu pai, o famoso repentista José Faustino Vila Nova, pelas noitadas de cantoria.

No ano 2000, foi eleito o Cantador do Século XX, concorrendo com ícones da cantoria de viola como Cego Aderaldo (1878-1967), Dimas Batista (1921-1986) e Pinto do Monteiro (1895-1990), em rigoroso processo de votação conduzido pelos líderes das Associações de Cantadores do Nordeste, os apologistas (incentivadores) da Cantoria e os próprios cantadores.

Certa vez, Valdir Teles desafiou Ivanildo Vila Nova numa cantoria, provocando-o pelo fato de ser filho de repentista, e concluiu sua sextilha com estes versos:

Eu não herdei de ninguém
Você ganhou de seu pai!

Ivanildo repreendeu com criatividade e bom humor:

Mas não é nome de pai,
Que faz ninguém trovador;
Eu tenho um irmão fotógrafo,
Tenho outro agricultor,
Tenho um que é cachaceiro,
Tem raiva de cantador.

7 pensou em “A GENÉTICA NO REPENTE SEGUNDO IVANILDO VILA NOVA

  1. Excelente o artigo lembrando esse famoso repentista. Assisti muitas cantorias tradicionais de viola e festivais com Ivanildo Vila Nova. Há quase 60 anos no ofício, Ivanildo ficou nacionalmente conhecido por conta de “Nordeste Independente”, parceria com Bráulio Tavares gravada por Elba Ramalho em 1984. Censurada pela Ditadura Militar, a canção evidencia as riquezas do Nordeste em uma resposta à xenofobia que sulistas e sudestinos dirigiam aos nordestinos.
    O pernambucano é conhecido por muitos como o maior cantador da atualidade, com participação em mais de 500 congressos, noitadas e torneios de cantadores.

  2. Vitorino,

    É gratificante receber o seu comentário, pois conhece o maravilhoso mundo do repente. Vou aproveitar o assunto levantado por você para fazer uma breve reflexão.
    A música “Nordeste Independente”, um bem-humorado e utópico manifesto contra a discriminação sofrida pelo nordeste, gerou polêmicas no início dos anos 80. A música foi composta pelo escritor, compositor e roteirista, Bráulio Tavares e por Ivanildo Vilanova. A obra foi gravada por Elba Ramalho na década de 80, que aproveitou apenas seis, das, pelo menos, 15 estrofes escritas pelos poetas.

    Já que existe no Sul este conceito
    que o Nordeste é ruim, seco e ingrato,
    já que existe a separação de fato
    é preciso torná-la de direito.
    Quando um dia qualquer isso for feito
    todos dois vão lucrar imensamente
    começando uma vida diferente
    da que a gente até hoje tem vivido:
    imagine o Brasil ser dividido
    e o Nordeste ficar independente.

    Dividindo a partir de Salvador
    o Nordeste seria outro país:
    vigoroso, leal, rico e feliz,
    sem dever a ninguém no exterior.
    Jangadeiro seria o senador
    o cassaco de roça era o suplente
    cantador de viola o presidente
    e o vaqueiro era o líder do partido.
    Imagine o Brasil ser dividido
    e o Nordeste ficar independente.

    Em Recife o distrito industrial
    o idioma ia ser “nordestinense”
    a bandeira de renda cearense
    “Asa Branca” era o hino nacional
    o folheto era o símbolo oficial
    a moeda, o tostão de antigamente
    Conselheiro seria o Inconfidente
    Lampião o herói inesquecido:
    imagine o Brasil ser dividido
    e o Nordeste ficar independente.

    O Brasil ia ter de importar
    do Nordeste algodão, cana, caju,
    carnaúba, laranja, babaçu,
    abacaxi e o sal de cozinhar.
    O arroz e o agave do lugar
    a cebola, o petróleo, o aguardente;
    o Nordeste é auto-suficiente
    nosso lucro seria garantido
    imagine o Brasil ser dividido
    e o Nordeste ficar independente.

    Se isso aí se tornar realidade
    e alguém do Brasil nos visitar
    neste nosso país vai encontrar
    confiança, respeito e amizade
    tem o pão repartido na metade
    tem o prato na mesa, a cama quente:
    brasileiro será irmão da gente
    venha cá, que será bem recebido…
    imagine o Brasil ser dividido
    e o Nordeste ficar independente.

    Eu não quero com isso que vocês
    imaginem que eu tento ser grosseiro
    pois se lembrem que o povo brasileiro
    é amigo do povo português.
    Se um dia a separação se fez
    todos dois se respeitam no presente
    se isso aí já deu certo antigamente
    nesse exemplo concreto e conhecido,
    imagine o Brasil ser dividido
    e o Nordeste ficar independente.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  3. Parabéns pela excelente postagem, prezado Aristeu Bezerra! O talento e a inteligência do grande repentista Ivanildo Vila Nova foram herdados e estimulados pelo pai, o grande Repentista José Faustino Vila Nova, que sempre o levou em sua companhia, para assistir às noitadas de Cantoria, das quais participava..
    Sua consagração como Repentista ocorreu no ano 2000, ao ser eleito o Cantador do Século XX numa competição de Cantoria, em que concorreu com Repentistas famosos, como Cego Aderaldo, Dimas Batista e Pinto do Monteiro,
    No caso, a genética funcionou mesmo. Muitas vezes, filhos de pais talentosos não nascem com o talento deles.

    Gostei muito da presença de espírito de Ivanildo Vila Nova, ao responder à insinuação do repentista Valdir Teles, no sentido de que ele era apenas um discípulo do pai. A sextilha de Ivanildo Vila Nova foi genial:

    :”Mas não é nome de pai,
    Que faz ninguém trovador;
    Eu tenho um irmão fotógrafo,
    Tenho outro agricultor,
    Tenho um que é cachaceiro,
    Tem raiva de cantador.”

    Um verdadeiro show!!!!!

    Um abraço e uma ótima semana!

    Violante Pimentel Natal (RN)

  4. Violante,

    Muito obrigado por suas generosas palavras. O seu comentário com observações importantes sempre me ajuda e estimula a pesquisar o admirável mundo da poesia cantada. Aproveito esse espaço democrático do Jornal da Besta Fubana para compartilhar três estrofes de Ivanildo Vila Nova glosando o mote:

    “A história fará sua homenagem
    À figura de Antônio Conselheiro”

    “Num deserto profundo e sem ter fronte
    Já surgiu um regime igualitário
    Onde um justo já sexagenário
    Fez erguer a cidade de Belo Monte
    Para então vislumbrar um horizonte
    Sem maldade, sem crime e sem dinheiro
    Sem bordel, sem fiscal, sem carcereiro
    Mas, foi morto e tombado por selvagem
    A história fará sua homenagem
    À figura de Antônio Conselheiro”

    “Ó Canudos, país da promissão
    Foi injusta e cruel a tua guerra
    Tu, que eras abrigo dos sem-terra
    Sem justiça, direito, paz e pão
    O fanático era apenas um irmão
    O jagunço somente um companheiro
    Junto ao mestre encontrando paradeiro
    Confiança, família e hospedagem
    A história fará sua homenagem
    À figura de Antônio Conselheiro”

    “Sertanejos morrendo de magote
    A bandeira sangrenta era um molambo
    O quartel sem guarita era mocambo
    A metralha, um feioso clavinote
    O abrigo era a grimpa de um serrote
    Baioneta era a lança do carreiro
    A corneta era o búzio do vaqueiro
    Para-peito e gibão, sua roupagem
    A história fará uma homenagem
    À figura de Antônio Conselheiro”

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  5. Obrigada, prezado Aristeu, por compartilhar comigo essas estrofes do poeta Repentista Ivanildo Vila Nova, em homenagem ao líder religioso Antônio Conselheiro, glosando o mote :

    “A história fará sua homenagem
    À figura de Antônio Conselheiro”.

    Esse religioso brasileiro liderou o arraial de Canudos, um pequeno vilarejo no sertão da Bahia, que atraiu milhares de sertanejos, entre camponeses, índios e escravos recém libertos, e que foi destruído pelo Exército da República na chamada Guerra de Canudos, em 1896.

    Um abraço!

    Violante Pimentel

  6. Fica difícil entendermos o que é realmente herança ou dom.
    Como há muitos anos os filhos se espelhavam nos pais, pois não havia tantas profissões como hoje, na minha visão ser igual ao pai seria um motivo de orgulho. Hoje com o mundo aberto que temos as necessidades são outras, deixando um pouco de lado a tradição.

  7. Marcos Ribeiro,

    Grato por sua opinião sobre um assunto difícil. Acredito que há herança genética e influência do meio ambiente. Se o indivíduo é criado em um ambiente que ouve cantador, pode ser influenciado. Um exemplo do que estou argumentando é a cidade de São José do Egito, pois os seus habitantes cultivam a poesia que chegam a falar rimando. Entretanto, há cantadores de viola que despertam para o repente já adultos porque têm o dom para fazer versos.
    Compartilho uma belíssima sextilha de Ivanildo Vila Nova com o prezado amigo:;

    Em cima corpo, a cova;
    Em cima da cova, a cruz;
    Em cima da cruz, a vela;
    Em cima da vela, a luz;
    Em cima da luz, o céu;
    Em cima do céu, Jesus.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

Deixe uma resposta