VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

Margaret Mee nasceu em 1909 em Chesham, no condado de Buckingham, na Inglaterra. Quando jovem, frequentou as principais Escolas de Arte de sua terra natal. Em 1952, com seu segundo marido, o artista gráfico Greville Mee, veio a São Paulo visitar sua irmã. Acabaram ficando no país e, em 1956, Margaret embarcou rumo ao rio Gurupi, em sua primeira expedição amazônica.

No Brasil, foi professora de Arte na Escola Britânica de São Paulo (conhecida como Saint Paul’s School), tornando-se uma especialista em botânica pelo Instituto de Botânica de São Paulo, em 1958. Explorou a floresta tropical, a partir de 1964, pintando as plantas que via e colecionando algumas para posterior ilustração. Criou quatrocentas pranchas de ilustrações em guache, quarenta sketchbooks e quinze diários.

Perseguia o sonho de ver desabrochar a Flor da Lua, um cacto que só existia na Floresta Amazônica. Possuidora de grandes olhos azuis e enorme cabelo louro, dividido em duas tranças, usava laços verdes na cabeça, em homenagem ao verde da floresta. Maquiava os olhos, para realçar ainda mais a sua beleza.

Encantava-se com os espinhos e flores encontrados na Floresta Amazônica e se preocupava com a sua preservação. Como pintora, passava para suas telas toda a beleza das flores e botões que via de perto, nas expedições das quais participava. Sua mala com pincéis, tintas e telas fazia parte da sua bagagem.

No Rio de Janeiro, o casal residiu numa casa de três andares em Santa Tereza, dentro de um enorme jardim, que era uma mini floresta. Lá apareciam cobras e formigas, que ela não permitia que o IBAMA fosse resgatar. Participou de 15 expedições à Floresta Amazônica, pesquisando plantas, protegendo espécies raras, que estavam prestes a ser destruídas pelos indígenas, para no solo cultivarem mandioca ou construírem choças miseráveis para moradia.

Segundo seus relatos, os índios dispunham de retroescavadeiras e machados de pedra, e com facilidade decepavam as árvores, preparando o solo para plantações.

Achava dinheiro uma coisa suja. Escreveu o livro “Flores da Floresta Amazônica” e ofereceu ao Presidente Geisel, pedindo para que ele o lesse, alertando-o para a importância da Floresta Amazônica e rogando pela sua preservação.

Margaret foi considerada uma das maiores ilustradoras botânicas do século 20. Em 15 viagens à Amazônia, produziu cerca de 400 pinturas da flora tropical, como orquídeas, bromélias, helicônias, entre outras plantas. Parte desse material pode ser vista no seu livro “Flores da Floresta Amazônica”, que inclui ainda trechos de seus diários.

Um trecho de seu diário revela a admiração com que observava a natureza: “Entramos na floresta sozinhas, seduzidas por um campo de plantas maravilhosas: pontas brilhantes e vermelhas de Heliconia glauca […] e a bela orquídea Gongora maculata, com sua longa inflorescência e seu poderoso perfume aromático, equivalente a centenas de lírios.”

Margareth observava o desabrochar das flores na floresta, dormindo em redes armadas entre as árvores, e chegou a ser hóspede de tribos indígenas.

Certa vez, o Cacique de uma tribo, de quem ela chegou a ser hóspede, pediu-lhe de presente as suas duas enormes tranças, das quais ela se orgulhava. Assustada, Margareth respondeu que se ela cortasse as tranças, o marido a deixaria. O índio ficou pensativo e desistiu do pedido.
Expunha seus quadros no BOX de Londres.

Apaixonada pela Floresta Amazônica, em maio de 1988, já aos 79 anos, Margaret Mee participou da sua última expedição, a 15ª. Finalmente, alcançou o seu ideal de pintar a Flor-da-Lua. Depois de horas navegando entre arbustos espinhentos e ásperos em uma canoa, quase ao fim do dia ela atingiu o remoto local onde a flor a esperava – e ilustrou as primeiras imagens dela no hábitat.

Margareth Mee morreu na Inglaterra, em 30.11.1988, vítima de um acidente automobilístico. Em sua honra, foi fundada a “Margaret Mee Amazon Trust”, organização para educação, pesquisa e conservação da flora amazonense, promovendo intercâmbio para estudantes de botânica e ilustradores de plantas brasileiros, que desejam estudar no Reino Unido ou conduzir pesquisa de campo no Brasil.

No carnaval de 1994, no Rio de Janeiro, a famosa ilustradora botânica e pintora foi homenageada pela Escola de Samba “Beija-Flor de Nilópolis”, cujo enredo foi “Margareth Mee, a Dama das Bromélias” assinado pelo então Carnavalesco Milton Cunha.

“Margaret era uma ecologista quando esse termo ainda nem existia e defender a natureza não estava na moda”, conta Gilberto Castro, velho amigo e proprietário do barco usado em algumas de suas incursões pela Amazônia.

Um ano depois da morte de Margaret Mee, seu marido Greville Mee foi ao Amazonas, cumprir o último desejo da mulher: lançar suas cinzas sobre as águas escuras do rio Negro.

Por onde passava o barco, que conduzia o cortejo fúnebre, a vegetação acompanhava, e ia se fechando, formando um imenso tapete de folhas e pétalas, como se Margareth estivesse assistindo a tudo, o que provocou em todos uma grande emoção.

7 pensou em “A FLOR DA LUA

  1. Violante,

    Parabéns pela crônica resgando a história de Margaret Mee. Ela foi uma artista botânica inglesa que se mudou para o Brasil na década de 50, se apaixonou pela natureza tropical e se especializou em plantas da Amazônia brasileira. A partir de 1964, iniciou a sua pesquisa nas florestas tropicais brasileiras, criou mais quatrocentas pranchas de ilustrações botânicas em guache e aquarela e se tornou a ilustradora botânica mais conhecida do Brasil. Aproveito a oportunidade para compartilhar o enredo da Escola de Samba “Beija-Flor de Nilópolis” homenageando Margaret Mee:

    Enredo: Margareth Mee, a dama das bromélias
    Autores: Arnaldo Matheus, J. Santos e Almir Moreira

    Desperta a alma brasileira
    Bate forte o coração bretão (bretão) (bis)
    Que faz a festa na Sapucaí
    A Beija-Flor de Margareth Mee

    Que sedução
    Cortando o ar, lá vem a “garça” encantada
    E ao chegar à “Mata Atlântica”
    A “Lady” por bromélias é saudada
    Navegando em expedições na Amazônia
    Retratou riquezas naturais
    Bromélias de real beleza contemplou
    Obras da mãe natureza

    Se enrosca nos meus braços
    Me dá seu calor
    Como o “Negro” e o “Solimões” (bis)
    Vem que eu vou
    Me leva, me leva nesse rio de amor

    Se encantou com Uirapuru
    A pororoca, e a pesca do pirarucu
    Curtiu a lenda do boto Tucuxi
    Crenças e mitos, viu cruel devastação
    Anoiteceu e o “Cactus da Lua” floresceu
    Pintou a flor mulher com sutileza
    Foi premiada no Brasil e Corte Inglesa

    E da primavera hoje com amor
    É rainha coroada pela Beija-Flor (bis)

    Desejo um final de semana pleno de paz, saúde e alegria

    Aristeu

  2. Bela crônica, Violante.

    São pessoas como a inglesa Margareth, que a arquitetura universal se encarrega de enviar pra nós, para que o progresso moral seja continuo entre nós.
    Ele foi um ser de luz que veio para nos orientar, preparar caminhos e deixar frutos.
    Cumpriu sua missão e deixou Violante a espalhar suas sementes.

    Aqui no canteiro do JBF.

    Minhas saudações a grande dama!

    • Obrigada pelo carinho de suas palavras, prezado Marcos André! .Seu generoso comentário me deixou emocionada.

      Grande abraço e um feliz fim de semana! .

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