ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

Sem trabalhar com tinteiro
Camaleão muda a cor
Sem tarrafa, anzol nem liga
O socó é pescador
E a pedra da rosa é palco
Pra o balé do beija-flor.

Raimundo Nonato

No meu sertão nordestino
Sei que o pato é o mais broco:
Pra nadar, ele é veloz;
Vai andar, caminha pouco.
Pra nada o pato adianta,
Que não trabalha nem canta
E só vive cansado e rouco.

Geraldo Amâncio

Uma galinha pequena
Faz coisa que eu me comovo:
Fica na ponta das asas,
Para beliscar o ovo,
Quando vê que vem sem força,
O bico do pinto novo.

Manoel Xudu (1932-1985)

Sem combustível da Shell
O condor faz caracol
A lua não troca a lâmpada
O sol não queima o farol
E nunca se deu um blecaute
Nem na lua e nem no sol.

Nonato Costa

O joão-de-barro acha jeito
Pra seu serviço madruga
Faz uma casa e só entra
Depois que a parede enxuga
Enquanto mora não vende
Depois que sai não aluga.

Lázaro Pessoa

11 pensou em “A FAUNA NOS VERSOS DOS REPENTISTAS

  1. Os repentistas são importantes personagens da cultura popular nordestina, são contadores de causos e situações que envolvem a fauna, a flora, as pessoas, fatos atuais e também acontecimentos inusitados que chamam a atenção de moradores da região. O artigo sobre a fauna dos versos dos repentiistas demonstram a habilidade em que descrevem sobre animais estrofes maravilhosamente belas e bem-humoradas. A sextilha do repentista Raimundo Nonato é uma das mais criativas e faço questão de registrar: Sem trabalhar com tinteiro/Camaleão muda a cor/Sem tarrafa, anzol nem liga/
    O socó é pescador/E a pedra da rosa é palco/Pra o balé do beija-flor.

    • Dione,

      Grato sobre suas considerações sobre a respeito da linguagem da cultura popular nordestina através da poesia oral dos repentistas. O repentista utiliza o repente como forma para expressarem toda a sua sabedoria popular. No nordeste quando pensamos em poesia oral, logo a primeira figura que vem nossas mentes é sem sombra de dúvida a do repentista. Aproveito esse espaço democrático do Jornal da Besta Fubana para compartilhar com a prezada amiga uma sextilha sobre a fauna do repentista e poeta Lenelson Piancó:

      Eu admiro a formiga
      Que tem problema de vista
      Andando no ziguezague
      Sem carta de motorista
      Não se atrasa no trabalho
      Nem congestiona a pista.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  2. A fauna nos versos dos repentistas é a melor seleção que já li sobre esse tema, que não falta na apresentações desses poetas. Importantes, singulares, estes cantadores de viola nordestinos são altamente cultos, não a cultura adquirida nas universidades, academias, mas a sabedoria da cultura popular a cultura o povo, aquela originária dos antepassados, passada de pai para filho como uma herança, uma inteligência que se mostra ao observarmos a facilidade que o repentista tem de improvisar quando ao ser sugerido pela plateia de uma apresentação um mote, um tema, no mesmo instante ele declama sua poesia sobre o mote pedido. Todas as estrofes são muito bonitas, então não vou me pronunciar sobre a mais bem elaborada.

    • Fernando,

      Muito obrigado por seu comentário sobre a fauna nos versos do repentista. Gostei do seu argumento sobre a cultura dos cantadores de viola adquirida na faculdade da vida, na observação do seu cotidiano e, principalmente, originária dos seus antepassados. Considero ser uma inteligência muito grande improvisar um tema sugerido pela plateia e os versos serem declamados com lógica, beleza e devidamente metrificados.
      Saiba que suas ponderações me deixaram muito feliz, pois sei que meus artigos são lidos por pessoas que apreciam a poesia pura do repente.

      Compartilho com o prezado amigo uma estrofe sobre a fauna nos versos do talentoso repentista poeta Manoel Xudu (1932 – 1985):

      O homem que bem pensar
      Não tira a vida de um grilo
      A mata fica calada
      O bosque fica intranqüilo
      A lua fica chorosa
      Por não poder mais ouvi-lo.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  3. Parabenizo a publicação de um artigo com estrofes bem insparadas na riqueza da nossa fauna. Tenho lido bastante sobre o repente, essa poesia oral magnífica, e cada vez fico mais entusiasmada com a beleza extraordinária dos versos dito de improviso.
    O repentista é em geral a um poeta popular, um improvisador que, à partir de um mote, que é o verso ou conjunto de versos é utilizado como desafio poético, para criação de uma composição poética como a glosa, cria espontaneamente um poema em forma de repente, ou desafio, uma tradição folclórica brasileira cuja origem remonta aos trovadores medievais. Chamou minha atenção a septilha do repentista cearense Geraldo Amâncio: No meu sertão nordestino/Sei que o pato é o mais broco:/Pra nadar, ele é veloz;/Vai andar, caminha pouco./Pra nada o pato adianta,
    Que não trabalha nem canta/E só vive cansado e rouco.

    • Marina,

      Estou muito alegre por seu comentário admirável. O seu entusiasmo pela importância cultural dos repentistas através de sua poesia oral contagia esse pesquisador e fico pleno de energia para continuar esse meu trabalho prazeroso. Aqui, no Jornal da Besta Fubana, a gente aprende uns com os outros. Aproveito a ocasião para fazer um brevíssimo comentário sobre esse assunto que nos interessa e torna a vida mais amena.

      Especialmente forte no nordeste brasileiro o repente é uma mescla entre poesia e música, na qual predomina o improviso, a criação de versos de repente. A criação de versos de repente é diferente da poesia dos poetas trovadores que criam suas trovas como obra de arte, como literatura e que as divulgavam em livros. Já os poetas repentistas fazem versos de improvisos, na hora junto ao povo que diz um mote.

      Compartilho uma estrofe do repentista poeta Valdir Teles (1955 – 2020):

      Eu já parei pra pensar
      E chega doeu na cachola:
      Um papagaio pousar
      Na galha da castanhola,
      Falar igualzinho a gente
      Sem ter frequentado a escola.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  4. Confesso que não esperava ter essa surpresa de ler na fauna nos versos do repentista algumas estrofes que desconhecia. Desejo prestar uma homenagem citando alguns nomes do repente nordestino, verdadeiros divulgadores da cultura popular através do repente: Ivanildo Vila Nova, Oliveira de Panelas, Raimundo Nonato, Nonato Costa, Geraldo Amâncio, José Feitosa, Raimundo Borges, Ismael Pereira, Carlinhos da Prata, Zé Jabitacá, Moacir Laurentino, Zé Viola, Sebastião da Silva, Raimundo Caetano e Rogério Menezes, entre outros. Todas as estrofes são brilhantes e seria injusto citar apenas uma. Voto em todas.

    • Edmilson,

      Muito obrigado por seu importante comentário. Considero seu texto assistencial aos profissionais do repente por homenageá-los citando alguns nomes daqueles que fazem parte do admirável universo do repente.

      Muitos se destacam e se destacaram, fizeram e fazem fama junto ao público admirador da cantoria do repente, mas um nome é sempre lembrado como o maior cantador, o poeta paraibano Pinto do Monteiro (1895-1990). Muito inteligente e dono de uma grande facilidade para improvisar e ainda uma velocidade espantosa, Pinto, como é conhecido, assombrava os cantadores que o acompanhava nas pelejas, e deixava platéias em polvorosa com respostas, engraçadas e rápidas, o que fazia a alegria das plateias que o assistia.

      Aproveito essa oportundidade para compartilhar uma estrofe do repentista poeta Pinto do Monteiro (1895-1990):

      Admiro o vagalume
      Enxergando de mato adentro
      Com sua lanterna acesa
      Sem se importar com o vento
      Apaga de vez em quando
      Poupando seus elementos.

      (“elemento” no linguajar nordestino é pilha)

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  5. Parabéns, Aristeu, pela excelente postagem A FAUNA NOS VERSOS DOS REPENTISTAS!
    Gostei imensamente de todos os versos e da seleção de poetas feita por você.
    É impressionante a inteligência que Deus deu aos animais. O instinto de conservação da fauna é a própria inteligência.
    O animal fala com os olhos. Coisas de Deus.

    Os versos que mais me tocaram foram os do repentista Raimundo Nonato, que dizem assim:

    Sem trabalhar com tinteiro
    Camaleão muda a cor
    Sem tarrafa, anzol nem liga
    O socó é pescador
    E a pedra da rosa é palco
    Pra o balé do beija-flor.

    Desejo a você uma ótima semana, com saúde, alegria e Paz!

    • Violante,

      Grato por seu excelente comentário. O seu texto torna-se grande por sua sensibilidade poética. Parabéns por amar aos animais demonstrando afeto comum as pessoas que fazem diferença em um mundo tão difícil de viver e conviver. O famoso psiquiatra Sigmund Freud disse que as razões que nos levam a amar um animal com tanta intensidade são compreensíveis quando vemos que o amor delas é incondicional. A relação que temos com nossos animais é libertada dos conflitos insuportáveis da cultura.

      O animal não tem consciencia de que fez algo anormal, a não ser pela reação do dono no ato; o animal percebe o descontentamento , dependendo do relacionamento entre o racional e o irracional . O que se passa na mente de um animal , provoca a sensibilidade entre os donos e adestradores . . .

      Compartilho com minha prezada amiga uma estrofe do repentista poeta Ivanildo Vila Nova:

      Abrindo as portas do dia,
      Vendo d’aurora o clarão,
      O galo é quem marca as horas
      E é quem chama atenção;
      Fecha os olhos igual a um cego;
      Todo relógio dá prego,
      Porém o do galo, não!

      Desejo uma semana plena de paz, saúde e alegira!

      Aristeu

  6. Obrigada, Aristeu, por compartilhar comigo esta bela estrofe do famoso repentista Ivanildo Vila Nova, que aqui repito:

    Abrindo as portas do dia,
    Vendo d’aurora o clarão,
    O galo é quem marca as horas
    E é quem chama atenção;
    Fecha os olhos igual a um cego;
    Todo relógio dá prego,
    Porém o do galo, não!

    Animais domésticos, como o gato e o cachorro, criados com carinho, interagem com os donos, e percebem se eles estão alegres ou tristes. Isso é impressionante!

    Desejo a você também uma semana com muita saúde, alegria e Paz!

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