ARISTEU BEZERRA - CULTURA POPULAR

Abrindo as porta do dia,
Vendo d’a aurora o clarão,
O galo é quem marca as horas
E é quem chama atenção;
Fecha os olhos igual a um cego;
Todo relógio dá prego,
Porém o do galo, não!

Ivanildo Vila Nova

No meu sertão nordestino
Sei que o pato é o mais broco:
Pra nadar, ele é veloz;
Vai andar; caminha pouco.
Pra nada o pato adianta,
Que não trabalha nem canta
E só vive cansado e rouco.

Geraldo Amâncio

A cabra abana as orelhas
Para espantar o mosquito,
E se acocora lambendo
Os cabelos do cabrito,
Depois vai olhar de longe
Pra ver se ficou bonito!

João Paraibano (1952-2014)

Eu admiro o cachorro
Que atrás da caça sai,
Corre no mato de noite,
Não escorrega nem cai;
Com um radar invisível
Sabe aonde a caça vai.

João Bandeira

Eu admiro a formiga
Que tem problema de vista
Andando no zigue-zague
Sem carta de motorista
Não se atrasa no trabalho
Nem congestiona a pista.

Lenelson Piancó

16 pensou em “A FAUNA NOS VERSOS DOS REPENTISTAS

    • Magnovaldo,

      Grato por seu excelente comentário que elevou minha autoestima. O senso de humor é uma maneira eficaz de se comunicar. Precisamos nos lembrar de que nossos neurônios espelhos copiam o comportamento do outro. Então, ser bem humorado faz com que os outros sejam bem humorados também e se conectem mais facilmente conosco.
      Aproveito esse espaço democrático do Jornal da Besta Fubana para compartilhar uma sextilha do repentista e poeta Valdir Teles (1955 – 2020) com o prezado amigo:

      Eu já parei pra pensar
      E chega doeu na cachola:
      Um papagaio pousar
      Na galha da castanhola,
      Falar igualzin a gente
      Sem ter frequentado escola.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  1. Arretado demais!

    Eu me inspirei e faço, neste instante, os seguintes versos:

    Admiro a acauã
    Uma ave abençoada
    Dando a asa para a cobra
    Que no bote morde nada
    E depois do seu cansaço
    É levada ao espaço
    Para de lá ser jogada.

    • Na força dessa pancada
      Numa pedra, morre a cobra
      A acauã vem com o bico
      Comer da bicha o que sobra
      E com sua paciência
      Nos mostra um quê da ciência
      Que Deus fez em sua obra.

      Jesus de Ritinha de Miúdo, em João Pessoa, 14/11/22.

      • Jesus de Ritinha de Miúdo,

        Agradeço seu magnífico comentário em versos sobre a nossa rica fauna. Você é um poeta inspirado e suas estrofes saem de improviso metrificadas com belas metáforas e provocam no ouvinte atento reflexões importantes sobre o assunto abordado.
        Retribuo sua generosidade enviando uma sextilha do talentoso poeta e repentista Sebastião da Silva:

        Gosto de ouvir a seresta
        Da patativa-de-gola
        E também do canarinho
        Nas traves de uma gaiola:
        Só não canta como a gente
        Porque não possui viola.

        Saudações fraternas,

        Aristeu

  2. Arretado demais!

    Eu me inspirei e faço, neste instante, os seguintes versos:

    Admiro a acauã
    Uma ave abençoada
    Dando a asa para a cobra
    Que no bote morde nada
    E depois do seu cansaço
    É levada ao espaço
    Para de lá ser jogada.

    Na força dessa pancada
    Numa pedra, morre a cobra.
    A acauã vem com o bico
    Comer da bicha o que sobra
    E com sua paciência
    Nos mostra um quê da ciência
    Que Deus fez em sua obra.

    Jesus de Ritinha de Miúdo, em João Pessoa, 14/11/22.

    • Jesus de Ritinha de Miúdo,

      Muito obrigado por enriquecer meu artigo com duas septilhas inspiradíssimas. Fiquei muito feliz por meu artigo servir de inspiração. Tenho certeza que os leitores fubânicos, que admiram a poesia pura do repente, irão se deliciar com os seus belos versos.
      O admrável mundo da poesia popular e do repente possuem verdadeiros gênios, então, usufruo dessa ocasião para compartilhar uma sextilha antológica de Otacílio Batista (1923 – 20030):

      Admiro o vaga-lume
      Voando ao morrer do dia.
      Desafiando a ciência
      Que o homem na Terra cria.
      Com um pisca-pisca na bunda
      Sem precisar bateria.

      Saudações fraternas,

      Aristeu

  3. A nossa fauna é um assunto sempre presente nas apresentações dos repentistas. As estrofes foram muito bem selecionadas e o bom humor predomina nos irrepreensíveis versos. Achei espetacular os versos de João Paraibano: A cabra abana as orelhas/Para espantar o mosquito,/E se acocora lambendo/Os cabelos do cabrito,Depois vai olhar de longe/Pra ver se ficou bonito!

  4. Vitorino,

    Grato por seu comentário primoroso de quem conhece a poesia pura do repente. João Paraibano (1952-2014) nunca frequentou escola, entretanto sempre criou seus versos de improviso com qualidade utilizando sua inspiração privilegiada. Ele foi um dos principais repentistas do país e participou de dezenas de festivais pelo Brasil inteiro.
    Envio ao prezado amigo uma estrofe do poeta e repentista João Paraibano (1952-2014), que partiu antes do combinado, mas deixou um legado de versos antológicos:

    Do nevoeiro pra o chão
    A nuvem faz passarela;
    O sapo pinota n’água,
    Entra na lama e se mela;
    Faz uma cama de espuma
    Pra cantar em cima dela.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  5. O artigo está excelente porque os versos são bem-humorados e faz o leitor descontrair e ri. O bom humor é uma característica das pessoas que vivem de maneira mais leve, cultivam atitudes de cortesia, gentileza, são hábeis em desenvolver emoções positivas, recordam com mais freqüência os momentos bons que vivenciaram, procuram transmitir serenidade e esperança para aqueles com quem convivem.
    Se eu fosse eleger a melhor estrofe, teria dificuldade, entretanto vou me arriscar escolhendo os versos de Lenelson Piancó: Eu admiro a formiga/Que tem problema de vista/Andando no zigue-zague/Sem carta de motorista/Não se atrasa no trabalho/
    Nem congestiona a pista.

  6. Fernando,

    Grato por seu formidável comentário. Concordo plenamente com suas observações a respeito do bom humor, pois são bem apropriadas para a prevenção dos estresses da vida. O bom humor é, antes de tudo, a expressão de que o corpo está bem. Ele depende de fatores físicos e culturais e varia de acordo com a personalidade e a formação de cada um.
    Retribuo a sua generosa contribuição para o meu artigo enviando uma sextilha anônima muito criativa bem-humorada e bela:

    Eu venho de um pé de serra,
    Sem grandeza, sem regalo,
    Onde o nosso caminhão
    Era o jegue ou o cavalo…
    E o relógio era o sol
    Ou a cantiga do galo!

    Saudações fraternas,

    Aristeu

  7. Parabéns, prezado Aristeu, pela bela postagem “A FAUNA NOS VERSOS DOS REPENTISTAS!” Gostei imensamente!

    Todos os versos são lindos, principalmente a septilha do repentista Ivaanildo Vila Nova, que diz:

    Abrindo as portas do dia,
    Vendo d’a aurora o clarão,
    O galo é quem marca as horas
    E é quem chama atenção;
    Fecha os olhos igual a um cego;
    Todo relógio dá prego,
    Porém o do galo, não!

    Uma ótima semana, com muita saúde e Paz!

  8. Violante,

    Grato por seu importante comentário com generosas palavara que incentivam a pesquisar o admirável universo do repente e da cultura popular. A estrofe por você escolhida é de quem tem sensibilidade poética. Ivanildo Vila Nova se destaca pela sutileza de seus versos, capacidade de improviso e pela grande variedade de temas que aborda em seu trabalho. Para Vila Nova, repente e cantoria são duas das manifestações artísticas, poéticas e musicais mais importantes para representar a cultura que existe nos nove estados nordestinos. Ivanildo estreou oficialmente na viola aos 18 anos, porém desde os 12 já acompanhava o pai, o experiente cantador José Faustino Vila Nova, nas noitadas de cantoria.

    Usufruo dessa oportunidade para contar um episódio desse extraordinário poeta e repentista que traz no DNA a herança da difícil arte de cantar de improviso. Ivanildo Vila Nova participou de um congresso de repentista em Patos/PB, em 1994. Ele foi sorteado com o seguinte mote:

    Senti menos o peso do pecado,
    Quando fiz a primeira comunhão.

    Os versos saíram com simplicidade, beleza e sabedoria:

    Na igreja que é casa que ampara
    Eu entrei furioso como um potro,
    Ao sair da igreja eu era outro
    Diferente daquele que entrara.
    E o vigário também em mim notara
    Que eu sofrera a maior transformação
    Eu entrara pra li como um leão,
    Mais saira dali domesticado.
    Senti menos o peso do pecado,
    Quando fiz a primeira comunhão.

    Desejo uma semana plena de paz, saúde e harmonia

    Aristeu

    • Obrigada, Aristeu, por compartilhar comigo este excelente episódio do extraordinário poeta e repentista Ivanildo Vila Nova, ao participar de um congresso de repentistas em Patos/PB.(1994) utilizando a difícil arte do improviso.

      Ao ser sorteado com o mote::

      “Senti menos o peso do pecado,
      Quando fiz a primeira comunhão”, o grande Ivanildo Vila Nova surpreendeu a todos com esta belíssima glosa::

      “Na igreja que é casa que ampara
      Eu entrei furioso como um potro,
      Ao sair da igreja eu era outro
      Diferente daquele que entrara.
      E o vigário também em mim notara
      Que eu sofrera a maior transformação
      Eu entrara pra li como um leão,
      Mais saira dali domesticado.
      Senti menos o peso do pecado,
      Quando fiz a primeira comunhão”..
      :,.

      Gostei imensamente!

      Uma ótima semana, com muita saúde e Paz!

  9. Aristeu,
    Parabéns pelos versos de reflexão.
    Eu admiro;
    Eu admiro a formiga
    Que tem problema de vista
    Andando no zigue-zague
    Sem carta de motorista
    Não se atrasa no trabalho
    Nem congestiona a pista.

    Lenelson Piancó
    Fraterno Abraço.
    Carmen

  10. Carmen,

    Muito obrigado por seu ótimo comentário prestigiando esses repentistas que nos proporcionam a beleza de improvisar versos metrificados ricos em sabedoria e beleza. Aproveito a oportunidade nesse espaço democrático do JBF para enviar uma sextilha do genial repantista e poeta Manoel Xudu (1932 – 1985) para sua apreciação:

    Quanto é bonito a vaca
    Se destacar do rebanho,
    Dando de mamar ao filho
    Quase do mesmo tamanho,
    Lambendo as costas do bicho
    Porque não sabe dar banho.

    Saudações fraternas,

    Aristeu

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