GEORGE MASCENA - SÓ SEI QUE FOI ASSIM

1. O Brasil e a França se enfrentaram em um conflito armado nas águas brasileiras entre 1961 e 1963, tudo por causa de um crustáceo, a lagosta. Esta guerra teve debates diplomáticos, navios de guerra, submarinos, aviões bombardeiros, disputa de frases de efeito e ameaça de anexação de um território ao Brasil, só não teve tiro.

Pesca da lagosta

2. A França perdia território na África, o último foi a Mauritânia onde os navios franceses enchiam seus porões de lagosta e levavam para a Europa, já na iminência da independência deste país africano, os lagosteiros mudaram o tipo de pesca de armadilha para arrasto, fizeram o rapa e retornaram com seus navios para os porto franceses e lá ficaram ociosos, mas não por muito tempo, os empresários tiveram a ideia de mandarem seus pesqueiros para o Brasil, onde a pesca da lagosta ainda engatinhava.

3. No ano de 1960, a França solicitou autorização brasileira para realizar pesquisa nas águas territoriais sobre a lagosta, para isso mandou uma delegação ao Recife para tratarem com autoridades da Marinha brasileira, ficou autorizado que três navios franceses realizassem a pesquisa durante 180 dias. Para garantir o caráter de pesquisa, cada embarcação levaria um militar brasileiro para fiscalizar. Os fiscais relataram que os três navios eram na verdade quatro e que a pesquisa era só desculpa já que a pesca era de arrasto e trazia grandes quantidades de crustáceos. A licença foi cassada antes dos 180 dias.

4. Sem a licença para pesquisa, os empresários pesqueiros franceses mandaram mais barcos para região, desta vez alegando que ficariam fora do mar territorial brasileiro, que naquela época era de 12 milhas náuticas ou cerca de 22 quilômetros, porém os pescadores pernambucanos denunciavam que os franceses estavam pescando em águas brasileiras e os navios da Marinha seguiram para o local para determinar que os pesqueiros deixassem as águas brasileiras, a determinação era pacífica e os pescadores franceses reclamaram ao governo francês.

Frota brasileira se dirigindo para o Nordeste

5. A convenção de Genebra de 1958 reza que os peixes, como nadam, pertencem ao mar, não pertencendo a nenhum país e as lagostas, que caminham, pertencem à plataforma, portanto pertencem ao país dono desse território. Os diplomatas franceses alegaram que como a lagosta pula para se deslocar, se assemelha a um peixe, o Almirante Castro Moreira ironizou que “por analogia, se lagosta é peixe porque se desloca dando saltos, então o canguru é uma ave”. Só por curiosidade, nem o Brasil e nem a França eram signatários desta Convenção de Genebra sobre direito do mar.

6. Como resposta a provocação francesa, o presidente Jânio Quadros chamou as pressas Moura Cavalcanti, governador do território do Amapá, com a finalidade de organizar uma invasão e anexação da Guiana Francesa, a Operação Cabralzinho chegou a movimentar 2500 homens das Forças Armadas, mas com a renúncia de Jânio Quadros, o novo presidente, João Goullart, desistiu da ação, essa anexação tinha outro propósito, evitar o desvio do manganês brasileiro pelo porto da Guiana. Havia uma esperança da França, que tinha perdido muitos dos seus territórios na África, não reagisse a perda da Guiana e o Brasil teria uma superfície territorial que iria desde o Caribe até o Mar da Plata, sonho do presidente Jânio Quadros.

Jornais da época noticiam a presença do Tartu

7. Outra delegação francesa veio ao Brasil para negociar uma permissão de pesca e já avisou antes que os navios pesqueiros já estavam vindo, o Brasil negou a permissão, mas a França avisou que mais barcos estavam seguindo. A Marinha mandou mais navios de guerra para o Nordeste para patrulhar a área, chegando a apreender barcos franceses e obrigá-los a seguir até Natal, no Rio Grande do Norte, onde seriam fiscalizados.
8. Após algumas negociações diplomáticas, o presidente João Goulart mandou liberar os barcos com a carga de lagostas e ainda por cima deu uma autorização provisória para que pescassem em águas brasileiras, essa autorização deu grande repercussão em todo o Brasil, especialmente no Nordeste, o que fez Goulart voltar atrás e cancelar a autorização, o presidente francês Charles de Gaulle não gostou dessa quebra de promessa e disse a famosa frase: “O Brasil não é uma país sério”.

UM B17 da Força Aérea do Brasil acompanha de perto o Tartu

9. Após a desautorização, o presidente francês mandou navios de guerra para proteger os barcos pesqueiros, além de uma frota que incluía o porta aviões Clemenceau para a costa do Senegal, na África, o Brasil estava em estado de guerra com a França, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica foram acionadas e mandaram seus melhores aviões, navios e submarinos para o Nordeste, o porta aviões Minas Gerais e o avião B-17, a Fortaleza Voadora, estavam entre estes. O Clemenceau não chegou a navegar em direção ao Brasil, mas o contra torpedeiro Tartu e a fragata aviso Paul Goffeny chegaram ao front de guerra.

Charles de Gaulle visita o Brasil após o fim da Guerra da Lagosta

10. Antes de haver o primeiro disparo, a França recuou e mandou de volta seus navios de guerra, primeiro o Tartu e por fim o Paul Goffeny além de todos os navios pesqueiros, o país já tinha perdido vários territórios na África, estava travando uma guerra na Argélia e não poderia entrar em outro conflito. Chegava ao fim a Guerra da Lagosta entre as nações amigas Brasil e França sem que tenha sido disparado um só tiro.

2 pensou em “A ESQUECIDA GUERRA ENTRE BRASIL E FRANÇA NAS AGUAS NORDESTINAS

  1. Parabéns, Mascena pelo excelente trabalho. Eu ão seria capaz de
    alterar uma vírgula.

    Relato completo, perfeito sobre os acontecimentos da época.
    A França sempre teve inveja do Brasil e sempre tentou abocanhar um pedaço da
    nossa terra, chegando nos primórdios da nossa história e invadir alguma parte do
    nosso território, como fez no Rio de Janeiro.
    De todos os países da europa, a França junto com a imoral Inglaterra são as maiores
    invasoras de território alheio no passado, e hoje, não arriscam mais porque estão
    desmoralizadas e mal conseguem segurar as calças antes de uma caganeira súbita.

    Nunca desejei visitar a França, pois tive muitas oportunidades. Trabalhei com alguns franceses e fiquei ciente da sua antipatia e falta de higiene.
    Eles detestam o Brasil por vários motivos, somos grandes, com uma imensa riqueza
    que quando for explorada de verdade, será o país mais rico do mundo, temos
    centenas de milhares de belas praias e posso afirmar que temos também as
    mulheres mais lindas do mundo. As francesas que vinham para o Brasil, hábeis
    profissionais, vinham sempre a trabalho, pois tinham sempre preferências de emprego nos Bordéis e cabaréis brasileiros.

    • Obrigado pelo comentário. Nao sabia das preferências de empregos dessas francesas em busca de trabalho no nosso país
      Interessante.

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