ROQUE NUNES – AI, QUE PREGUIÇA!

Eu sei que muita gente vai atirar pedra em mim, vai me criticar por este texto, mas, seguindo a lição do saudoso Vicente Mateus “quem sai na chuva é pra se queimar”, é da profissão e de praxe. Acontece que eu não consigo ficar de boca fechada e nem guardar meus pensamentos para mim mesmo, principalmente quando o assunto é brasilidade.

Conheci Brasília quando tinha vinte e um ano e fiquei encantado com a monumentalidade, com o desenho da cidade, com suas esculturas a céu aberto. Aliás, Brasília é, em si, uma obra de arte. Mas também, é uma prova inconteste de um crime cometido contra a nação e um monumento ao deboche. Uma prova inconteste de um crime que fica a céu aberto para quem quiser ver.

Nessa minha primeira ida a Brasília fiquei hospedado na casa de um amigo. Na noite em que resolvemos comer uma pizza foi uma verdadeira viagem que fizemos para chegar ao local. No caminho quase pedi para voltar e fazer as malas e seguir a viagem. Esse meu amigo morava, e não sei se ainda mora no chamado “Plano Piloto”. Só se for piloto de avião, porque as coisas ficam mais fáceis se pegar um avião para ir de um local a outro naquele deserto de humanidade.

Pensada para ser uma cidade “sem classes distintas”, a Brasília da realidade se distingue pela diferença de cargos e de carros que se usam para ir de um local a outro. Quanto mais nome o cargo tiver, maior e mais luxuoso será o carro utilizado pelo dito cujo. E esse tal olha, com ar de superioridade para qualquer curiboca que ousar andar pelas superquadras do Plano Piloto. Eis ali vai um “argh” cidadão pagador de imposto – na verdade, o otário que sustenta com o suor de seu rosto toda aquela ostentação estéril e improdutiva.

Brasília é um monumento à improdutividade, ao parasitismo e um valhacouto adequado, planejada e construída para que alguns poucos espertalhões tramassem as piores aleivosias contra a nação, sem serem incomodados pelos botocudos que os sustentam, e ao seu estilo de vida nababesco. Houvesse a capital permanecido no Rio de Janeiro garanto que nem vinte por cento das safadezas ali praticadas seriam cometidas.

Não gosto do Rio de janeiro. Acho-a uma cidade que “veve” de uma falsa sensação de superioridade, desde que não se olhe para os morros. Mas, ao menos ali tem vida. Ali as pessoas interagem com pessoas e, ainda que as relações sejam superficiais, ainda se comunica vida. Brasília, ao contrário. É a capital avessa à vida, avessa a companheirismo. Uma das coisas mais imperdoáveis de Brasília é o fato dela não ter esquina. E, sem esquina, não existe boteco. Isso mesmo. Boteco, ou botequim. Aquelas biroscas em que se vende bebidas, refrigerantes e salgados de procedência duvidosa, mas que enchem de vida uma cidade.

Pensada por Juscelino e colocada no meio do nada, a real intenção de Brasília foi tirar o povo de perto das decisões governamentais. Tentem colocar alguns milhões de cidadãos na esplanada dos Ministérios. Quem olhar de vida vai ver um grande vazio. Como se não houvesse ninguém. E isso acalma aqueles que estão lá apenas lutando pelos seus próprios privilégios e interesses. Diferentemente, o Rio de Janeiro, no Palácio do Catete, qualquer manifestação entulha as ruas de povo e bota medo nas inutilidades que trabalham na administração pública.

Brasília é um crime a céu aberto cometido contra o Brasil. Ainda que até hoje se cante a lorota de que foi para desenvolver o oeste do país que a capital foi mudada para o meio do nada. Brasília fica longe de tudo. A capital mais perto está a quatrocentos quilômetros dela. Brasília com seus arcos monumentais com suas esculturas em concreto armado. Com seus prédios de linhas delicadas deveria ser um monumento á criatividade e à genialidade humana e à arte moderna. Todavia, cada vez que eu olho para aquelas ruas deserta de homens, para aquelas praças vazias de vida e de cheia de interesses escusos que tramam e trabalham para o progresso de nossa pobreza, sinto-me cada vez mais convencido de que Brasília é a prova viva e material de um crime cometido a mais de sessenta anos contra o Brasil. Chamada por Aldous Huxley de “Capital da Esperança”, o tempo provou o seu contrário. É só um monumento à morte por inanição de um país que ainda sonha em ser gigante, mas com a prova de um crime atado em seu tornozelo.

9 pensou em “A CÉU ABERTO

  1. No ato meu caro.
    Não estou falando dos governos estaduais, mas sim do Rio de Janeiro como capital federal, isso até 1960. Se os fluminenses tem vocação suicida é problema deles.

  2. Parece que o autor só andou pelo Eixão e pelo Eixo Monumental. Nas entrequadras e na W3 Norte e Sul existem botecos, restaurantes, padarias, mercearias, açougues, papelarias e todo o tipo de comércio. E se existem botecos, mercearias e padarias, existe vida inteligente. Quem morou lá, como Mestre Berto, sabe disso.

    • Alvaro.
      Confesso que hoje, com meus 49 anos não sei como está a capital federal, mas quando eu tinha meus 21, que é quando eu situo o que era Brasília, era do jeito que te descrevi.

    • De fato, meu caro Álvaro, eu morei lá.

      E conheço as milhares de esquinas, bodegas, botecos, restaurantes, muvucas, recantos e escondidinhos de todos os tipos e em todos os cantos de Brasília e das chamadas cidades satélites, como Taguatinga, Ceilandia, Sobradinho, Gama, Planaltina, e outras. Sem falar dos puteiros, cabarés e quartinhos de hospedarias…

      Já enchi muito a cara no Bar do Chico, na Taba Lascada, no Bar do Quinca, no Feitiço Mineiro. Neste ultimo recanto, o Feitiço Mineiro, eu encontrava sempre com Lula, nos tempos em que ele militava ainda na picaretagem sindical, e já era um cabra conhecido, na cachaça e na pelegagem.

      A comida nordestina do Mercado do Núcleo Bandeirante, era o meu manjar do almoço todas as sextas-feiras, com muito sarapetel, buchada, cabidela e tripa de galinha. Tudo ao som de um forró bem gostoso, cachaça de cabeça e cerveja gelada.

      No Gama, no Bar Itapoã, eu enchia o rabo com um grande poeta e cantador, o meu saudoso amigo Lourival Bandeira Lima, um ícone da cultura da Nação Nordestina.

      Meu compadre Aurino Sant’anna (com apóstrofo e com dois “n” como ele fazia questão de ressaltar) das Neves, o fantástico, o genial embolador e improvisador alagoano Tira-Teima, era meu parceiro de farra no Bar de Dona Maria, localizado na inigualável feira da Ceilândia. Tira-Teima é o autor da fala do camelô que vende o remédio Salsa, Caroba e Cabacinha, que está transcrito na íntegra no meu livro O Romance da Besta Fubana, na boca de um dos personagens. O crédito de Tira-Teima está dado na abertura do volume.

      Cheguei naquele recanto de mundo lá no Centro Oeste aos 19 anos de idade e lá fiz toda a minha história e vivi a maior parte da minha vida adulta. Cheguei num tempo em que cidade, nem de longe, se compara à metrópole que é hoje. E nós, os pioneiros, criamos amor por aquela terra brasílica. Lá eu servi ao exército, fiz concurso, passei no vestibular e estudei na UnB. Lá nasceram meus dois filhos, meus quatro netos e meus três bisnetos, todos apaixonados pelo seu chão de nascença.

      Os netos já são todos adultos, formados, bem encaminhados na vida e com futuro promissor. Minha filha mais velha, Patrícia, diplomou-se em História e hoje é professora da um colégio da rede privada. Ela ama no fundo do seu coração a cidade onde veio ao mundo. Assim como seu irmão, o meu outro filho, Luiz Antonio, formado em Jornalismo, outro apaixonado pelo seu berço e que completa 50 anos em março próximo.

      Foi em Brasília, longe e saudoso do meu torrão nordestino, que escrevi todos os meus livros.

      Sendo que O Romance da Besta Fubana foi escrito inteiramente à mão, numa mesa do Bar do Seu Manuel, um português prestativo e brabo com os cachaceiros impertinentes.

      Este bar era localizado no Cruzeiro, um bairro eminentemente carioca, repleto com os pioneiros que vieram do Rio de Janeiro por ocasião da mudança da capital, há 60 anos. E lá fincaram suas raízes. Foi naquele bairro que eles criaram a ARUC, a Associação Recreativa Unidos do Cruzeiros, uma escola de samba filial da carioca Portela. Quem veio inaugurar a quadra da ARUC foi o saudoso Natal, um mito na história do samba carioca.

      Já a escola de samba Acadêmicos da Asa Norte era uma filial da Mangueira. Fiz parte de sua bateria tocando tamborim. O mestre da bateria era meu aluno de Matemática no Curso Supletivo de 1º Grau.

      Já nós outros, os nordestinos, somados, éramos a maior colônia de Brasília, superando os mineiros, a maior de todas. E lá mantínhamos firmes as nossas tradições, embalados pelos acordes do Trio Siridó, comandado pelo meu amigo Torres do Rojão. E tínhamos uma convivência harmoniosa e rica com os sulistas, sobretudo os gaúchos, amáveis, simpáticos e bonachões.

      Em Brasília existe uma humanidade igual às outras que existe em qualquer cidade. Uma humanidade que dá duro e que trabalha honestamente pra ganhar o pão de cada dia. Lá tem engraxate, médico, motorista, balconista, empresário, enfermeiro, professor, vigia, cobrador, gari, empregada doméstica, engenheiro, costureira, bombeiro, marceneiro, capinador, radialista, garçom, engraxate, carroceiro… e todas as profissões que existem em todas as outras capitais e cidades grandes do Brasil.

      As únicas coisas ruins que existem em Brasília, as mais terríveis, são mandadas pra lá por eleitores de outros estados. O povo de Brasília, nada tem a ver com Alcolumbre, Maia, Renan, Eduardo Cunha, Gleisi Hoffmann….

      E nós, brasilienses de nascença e de coração, temos consciência do que significou para o Centro Oeste e para todo o interior do Brasil a mudança da capital do país lá pra aquelas bandas.

      Pergunte pros goianos, pros mineiros, pros matogrossenses o que é que eles acham.

      Por hoje chega.

      Um dia eu te conto o resto.

      Abraços!!!

  3. Caro Nunes. Concordo cem por cento com TODO o seu ótimo
    artigo. Também acho Brasilia uma fraude imposta pelos políticos
    da época de sua criação até os políticos de hoje.
    Alguém poderá dizer que eu falo por inveja ou desdém.
    Quando houve a criação e transferência do governo para Brasilia, a
    câmara dos deputados fez um concurso para oficiais administrativos.
    Eu era bem jovem ainda e fiz o concurso. Passei e fui chamado para
    tomar posse no cargo, mas a câmara me advertia que não teria
    nenhuma moradia etc.. ( Tenho até hoje o ofício que me foi remetido
    pela câmara, assinado pelo seu presidente na época JOSÉ BONIFÁCIO,
    datado de 17.1.1961.)
    Contatei alguns concursados como eu que puderam visitar a cidade e
    não tive coragem de sair do RJ e enfrentar aquele oeste desbravado
    cheio de hienas vorazes, como até hoje.
    Concordo também com a sua opinião sobre os males da transferência do
    poder central para Brasilia, pois o Rio era bem mais civilizado e o
    povo estava mais atento e cobrava sempre os atos de corrupção.
    Infelizmente aquele RJ acabou e foi vencido, amordaçado e
    esfaqueado pelas costas com a sequência de governos corruptos,
    ladravazes como MAIAS, CABRAL, BENEDITAS, GAROTINHO ETC..
    e toda turma de governadores e prefeitos desde então até hoje, pois
    os Cariocas são teimosos e quase cegos e elegem SEMPRE os
    piores até hoje e amanhã etc…….

  4. Cada um é livre para gostar ou não gostar de uma cidade, sejam quais forem os motivos para o amor, para a indiferença e até mesmo para o ódio. Apenas contestei a visão que muitas pessoas têm de que Brasília é um deserto de gente, apenas uma vastidão plana de concreto, sem alma e sem vida como uma paisagem lunar. E, com certeza, estou bem acompanhado em meu pensar. A apaixonada postagem de Mestre Berto prova que Brasília atendeu os anseios de todos os que tiveram a coragem de encarar um novo conceito de cidade, com urbanização e distribuição de espaços totalmente inovadoras, mas que nunca impediu os goianos de comerem sua galinhada com pequi, os mineiros de entornarem sua pinga com torresmo, os gaúchos de tomarem seu chimarrão e assarem seu churrasco ou os nordestinos de se reunirem em torno de uma buchada de bode. E isso tudo acontecia nos botecos, nas bodegas e nos bolichos sim, senhores.

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