A CASA QUE NASCI NELA

Numa viagem recente
Que fiz ao meu Pé-de-Serra
Pra visitar minha terra
Achei tudo diferente,
Senti a dor comovente
Por não ver mais a cancela
E nem a casa amarela
Que foi a minha morada,
Hoje não resta mais nada
Da casa que nasci nela.

Vendo a macabra tapera
Fiquei bastante abalado
Apagou-se o seu passado
Não demonstra mais quem era,
No embalo dessa quimera
Concentrei-me com cautela
Lembrando o quanto era bela
De saudade até chorei,
E num papel rabisquei
A casa que nasci nela.

Devagar imaginando
Fui seguindo passo a passo
Juntando cada pedaço
Conforme ia me lembrando,
E aos poucos restaurando
Como um pintor que pincela
Fiquei dando uma olhadela
E riscando no papel,
Para ilustrar meu cordel
Da casa que nasci nela.

Daquele alpendre imponente
Não vi sequer os sinais
Como também os portais
Ou ao menos um batente,
Não encontrei tão somente
Um ferrolho, uma tramela,
Senti a cruel sequela
Pesar por sobre meus ombros,
Ao revirar os escombros
Da casa que nasci nela.

Não vi sequer um pedaço
De ripa ou da cumeeira,
E de uma valha cadeira
Encontrei só o bagaço,
Como também o retraço
Dos cacos de uma tigela,
Uma beira da gamela
Onde comia um cevado,
Fez-me lembrar do passado
Na casa que nasci nela.

Fechei os olhos, tristonho,
E a cena causou incômodo
Lembrei-me de cada cômodo
Como se fosse num sonho,
O motivo eu nem suponho
Porque demoliram ela,
Relembrei cada janela
Fiquei emocionado,
Ao recordar o passado
Da casa que nasci nela.

Ainda lembro a fachada
Numa visão excelente,
Tão linda era a sua frente
Cinco esteios na calçada,
Trago a imagem guardada
Na mente em forma de tela
E jamais se desmantela
Porque não tenho coragem,
De apagar a imagem
Da casa que nasci nela.

De um quarto ligado a sala
E mais dois no corredor,
Lembrei com tanto langor
Que até me embargou a fala,
O meu coração se embala
E a saudade me atropela,
Ao encontrar a fivela
Do cinturão de papai,
Meu peito em pranto se esvai
Na casa que nasci nela.

A languidez me provoca
E até me desencanta,
Lembrando a sala de janta
E o quarto da muriçoca,
O meu pensar se desloca
E vai esbarrar naquela
Cozinha, aonde a panela,
Cheinha de feijão quente,
Matava a fome da gente
Na casa que nasci nela.

E nesse monte de entulho
Envolto nos matagais,
Aqui vivi com meus pais
Disso tenho muito orgulho,
Ainda escuto o barulho
Do latido da cadela
Que estava de sentinela
Pronta para reagir,
Com quem tentasse invadir
A casa que nasci nela.

Lembrei-me da velha mesa
Da jarra, o pote, a quartinha,
Dos dois banquinhos que tinha
Não esqueço com certeza,
Duma lamparina acesa,
No oratório uma vela,
Cada evidência revela
Um tudo que hoje é nada,
É em que está transformada
A casa que nasci nela.

O velho fogão a lenha
Onde mamãe cozinhava
Com gravetos que encontrava
Nas capoeiras da brenha,
Quando escutava a resenha
De futebol ou novela
No rádio, sob a tutela,
Que pai estabelecia
Era assim o dia a dia
Na casa que nasci nela.

Desse outrora de bonanças
Restam as reminiscências
Pra garantir as essências
Daquelas boas lembranças,
E como amargas heranças
Resta o furor da procela
Que o tempo sem ter cautela
Deixou por pura maldade
Somente a dor da saudade
Da casa que nasci nela.

Nada do que tinha antes
Mais nesse lugar existe,
A paisagem tão triste
Apaga os tempos brilhantes,
São tão desinteressantes
Que a mente até se esfacela,
Ao dar aquela olhadela,
Deu um piripaque em mim,
Ao ver o macabro fim
Da casa que nasci nela.

Do seu passado eu preservo
As doces recordações,
Que me traz as emoções,
E no meu peito as conservo,
Daquele outrora reservo
O carinho de quem zela,
Inda acendi uma vela
Para guardar os sinais
Que mostra os tristes finais
Da casa que nasci nela.

Aonde a felicidade
Trazia tantos encantos
Cedeu lugar para os prantos
Pra solidão e a saudade
Perdeu a identidade
Hoje não é mais aquela.
Nessa pequena parcela
Da poesia que fiz
Mostro o quanto fui feliz
Na casa que nasci nela!

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