A PALAVRA DO EDITOR

Não sei por que, andei de repente lembrando de coisas que se diziam antigamente e que não escuto atualmente. Algumas soam mais delicadas aos ouvidos do que coisas que se dizem hoje, como, por exemplo, vai tomar no cu. Não se falava uma coisa tão grosseira. Em vez disso a gente dizia: – Vai dar! Soa bem menos grosseiro e resulta na mesma coisa em uma frase simples, curta e profunda.

Era interessante, também, o costume de mandar pentear macaco a uma pessoa que estivesse enchendo o saco. Também nesse caso preferia-se uma expressão suave: – Vá pentear macaco! Em vez de “porra, não enche”. E quando a gente mandava alguém pentear macaco era bem divertido imaginar a cena da pessoa penteando um macaco. Se tu estás cansado do teu emprego, manda o teu chefe pentear macaco quando ele te der uma ordem.

E o que dizer de “tá no ré?”? Já começa por uma aparente imperfeita construção no que diz respeito à concordância em gênero, pois imagina-se que deveria ser “tá na ré?”. Mas era “tá no ré”, com interrogação, mesmo. Era uma expressão de superioridade, tipo, falei tá falado. Desconheço a origem da expressão, mas é possível que tenha surgido na área musical, um músico perguntando a outro sobre a tonalidade: – Está no ré?

Enquanto escrevo, lembrei da expressão, também interrogativa, “morou?” Bem, morar é residir, mas a expressão não tinha nada a ver com isso, era como se perguntasse “compreendeu?”. Havia as variantes: Morou no assunto? Morou na jogada?

Porém, uma das palavras mais estranhas, que decididamente não imagino de onde veio, era “breguete.” Breguete significava qualquer coisa: me dá esse breguete, vamos fazer um breguete, ontem fui naquele breguete, comprei um breguete legal… Do jeito que apareceu, a palavra sumiu. Tem gente que é da época e não se lembra dela. Ô memória ruim, sô!

– Me dá um crivo? Pedia o filante. Pedir um crivo era pedir um cigarro. E o filante era o cara que pedia, porque filar era pedir descaradamente.

E o arrogante, dizendo-se machão, fodão, afirmava: – Eu sou pau puro e bêagácê nas pontas. BHC é um agrotóxico chamado “Hexaclorobenzeno”, tão perigoso que foi proibido no Brasil.

Naqueles tempos antigos, a gente vivia teso, ou duro, que significava estar sem dinheiro, completamente sem dinheiro. Também se dizia “estou durango”, que misturava estar duro com o nome de um herói do faroeste da época, o Durango Kid.

E, é claro, quem andasse duro teria dificuldade em abater uma lebre, uma vez que isso significava ter um encontro íntimo, muito íntimo, com uma mulher.

Também caiu no esquecimento a expressão que Roberto Carlos consagrou na época da Jovem Guarda para exclamar que uma coisa era fantástica: – É uma brasa, mora?

Outra que sumiu foi a palavra “babujado”. Uma coisa que já tinha sido bebida por outra pessoa estava babujada.

E por aí vão as inúmeras palavras e expressões que durante certo tempo enriqueceram o modo de falar das pessoas e do mesmo jeito que apareceram sumiram praticamente sem deixar rastros e sem que possamos saber como e porque apareceram no linguajar popular, como a estranhíssima “a barba cresceu”, que significava mais ou menos “eu ganhei e você perdeu” em algumas situações, ou “o cara se lascou”, em outras. Por exemplo, alguém marcou um encontro por telefone sem conhecer a pessoa e quando chegou lá “a barba cresceu”, pois a pessoa era completamente diferente do que era esperado.

Pois, se tu leste até aqui, a tua barba cresceu!

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