A PALAVRA DO EDITOR

Emilio Gentile, 72 anos, é um dos principais historiadores italianos especialistas em fascismo. O fascismo histórico e real, não o imaginário que existe na mente de dez entre dez pessoas que não concordam politicamente com Jair Bolsonaro ou Donald Trump. O professor aposentado da Universidade de Roma prega que o uso indiscriminado da palavra “fascista” produz uma banalização perigosa do termo: “Usar demais a palavra fascismo não cria uma reação hostil a ele. Ao contrário, torna-o fascinante para tantos desgraçados em busca de respostas simples. Quem se apropria de maneira irresponsável dessa palavra arrisca a ampliar o neofascismo, em vez de combatê-lo”.

Banalizar, conforme ensinamento do nosso recorrente Aurélio, significa vulgarizar. Em outras palavras, tornar irrelevante aquilo que é significativo. Valores importantes passam a ser minimizados e aquilo que é errado passa a ser considerado normal, principalmente quando praticado por pessoas importantes do cenário público.

A banalização de termos sérios e profundos como “fascista” e “nazista”, usados para xingamentos em discussões tão rasas quanto um pires, não tem sido exclusividade de pessoas que não mostram o mínimo de respeito pela História e pelas vítimas de regimes devastadores. Em uma sociedade cada vez mais robotizada e ignorante, celebridades e até jornalistas que deveriam proteger o real significado das palavras usam, distorcem e desrespeitam o léxico e os eventos históricos apenas para satisfazer a sanha militante de sua mente já comprometida com a cegueira ideológica. A banalização das palavras e, consequentemente, dos atos sérios que elas significam, como cassação e impeachment, é um sintoma de sociedade que parece não querer mais pensar.

Nesta semana, foi iniciado mais um processo de impeachment contra Donald Trump no Senado norte-americano. O processo passou pela Câmara a toque de caixa, sem julgamento, sem testemunhas, sem muito papo. Em dois dias a votação foi concluída. A única acusação é que ele teria incitado o motim do qual o Capitólio foi alvo no dia 6 de janeiro. Seu propósito ao provocar a insurreição seria contestar os resultados das eleições de 2020. Mas, objetivamente, as ações de Trump não atendem à definição legal de incitamento, tampouco insurreição.

Diante de cobertura sofrível da mídia norte-americana sobre um impeachment inconstitucional, Anderson Cooper foi o retrato da era dos sentimentos que se sobrepõem aos fatos – era marcada predominantemente pelo ativismo de uma imprensa militante e irresponsável. O âncora da CNN, “emocionado”, comparou o episódio da invasão do Capitólio aos genocídios na Bósnia e em Ruanda, que mataram centenas de milhares de pessoas. “Vimos na Bósnia, vimos em Ruanda, onde as rádios diziam às pessoas que os tutsis eram baratas, incitando o genocídio. E você vê nesses vídeos [da invasão do Capitólio] pessoas que se dizem patriotas enfrentando os policiais”, disse Cooper.

Não foi a primeira vez que o âncora comparou os horríveis eventos do início de janeiro a genocídios históricos. Cooper ofereceu a mesma análise em seu programa em 12 de janeiro, naquela ocasião comparando eleitores de Donald Trump a racistas: “Eu estava em Ruanda no genocídio… Ouço pessoas falando sobre a Guerra Civil na América, fico tão chateado quando ouço essas pessoas em comícios – comícios de Trump falando sobre a Guerra Civil como se fosse uma espécie de limpeza”. A irresponsabilidade e a desonestidade jornalística em seu primor.

As atrocidades em Ruanda ceifaram a vida de cerca de 800 mil pessoas em cem dias em 1994. Outros 8 mil foram assassinados no genocídio da Bósnia, em Srebrenica, durante o verão de 1995. Cinco morreram nos ataques no mês passado no Capitólio dos EUA: uma pessoa foi pisoteada; outra, baleada por um policial; duas parecem ter tido ataque cardíaco; e a polícia do Capitólio ainda não divulgou a confirmação da causa da morte de um policial.

Cooper não usou tais comparações inflamadas com os manifestantes do movimento Black Lives Matter que perpetraram repetidas explosões de violência política no verão passado. Devido à violência, várias dezenas de norte-americanos morreram em meio a distúrbios e centenas de outros foram assassinados enquanto a polícia se retirava de suas funções em meio a críticas violentas.

Mas nem só da banalização das palavras – e do que elas significam – vive a atual sociedade. Revisionismos históricos e a criação de vilões que alimentam as ideologias nefastas são pontos importantes na banalização do pensamento jovem.

Na semana passada, a revista The New Yorker fez uma entrevista com a presidente do conselho escolar de São Francisco, Gabriela López, uma ex-professora de 30 anos que anda liderando a missão do distrito do norte da Califórnia de enterrar a História norte-americana. Sob sua liderança, o sétimo maior distrito escolar do país passou seu tempo não ensinando seus 57 mil alunos – que estão “aprendendo” on-line por quase um ano inteiro -, mas planejando tirar nomes de figuras históricas de mais de 40 edifícios distritais. Os nomes destinados à remoção incluem Abraham Lincoln, George Washington e Thomas Jefferson, entres outros presidentes e fundadores da nação mais próspera do planeta.

O esforço faz parte de uma onda de iconoclastia antiamericana que varreu os Estados Unidos no ano passado. Incluiu ativistas violentos derrubando e vandalizando estátuas ilegalmente e prefeitos removendo monumentos e nomes de escolas legalmente, às vezes na escuridão da noite. Cristóvão Colombo e Thomas Jefferson estão entre as figuras históricas mais visadas nessas varreduras ideológicas, assim como figuras religiosas, incluindo santos e Jesus Cristo.

A entrevista com Gabriela López, uma das pessoas mais importantes na educação do Estado da Califórnia, revela como a ideologia política substituiu o conhecimento entre os esquerdistas norte-americanos. Eles procuram validar e replicar sua ignorância entre os mais jovens, colocando líderes históricos na lista negra e, assim, menosprezando ideais e valores que se tornaram a base civilizatória do país mais livre do mundo. Às vezes, é assustador como esse movimento lembra a revolução cultural chinesa dos anos 1950 e 1960, que também apresentou desfiguração de monumentos, revisionismo histórico e eterno assassinato de caráter.

Em tempos obscuros, em que crianças estão fora da escola e muitos andam aceitando qualquer informação regurgitada pela imprensa militante, gaste um tempo a mais com os filhos, netos e sobrinhos. Abra um livro de História, discuta os defeitos de homens e mulheres. Precisamos ajudar a futura geração a não acreditar apenas em manchetes. Como dizia Roger Scruton, filósofo e escritor inglês que se especializou em estética e filosofia política: “Uma pessoa que diz que a verdade é relativa está pedindo para você não acreditar nela”.

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