VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

Agenor Maria foi marinheiro tatuado. Estava no navio “Vital de Oliveira, torpedeado em águas da Bahia, durante a 2ª guerra. Salvou-se por milagre, pois 30% dos seus colegas morreram. Comboiou, no destróier “Maranhão” (contratorpedeiro), os navios brasileiros que faziam a rota Rio-África durante todo o ano de 1944 e, em 1945 voltou para São Vicente, no Seridó (RN), sua terra natal.

Agricultor, candidatou-se e foi eleito vereador pelo PSD (1954-1958).

Fundou a Cooperativa dos Produtores de Algodão do Rio Grande do Norte em 1960, quando já estava entrosado na política.

Foi eleito deputado estadual em 1962, pelo PDC (Partido Democrata Cristão) e, após a extinção dos partidos políticos, foi candidato, em 1966, a deputado federal, pelo MDB (Movimento Democrático Brasileiro), obtendo 13.045 votos e ficando como suplente. Quando Aluízio Alves pediu licença, Agenor Maria assumiu.

Na crise de dezembro de 1968, o Congresso foi fechado. Tudo cercado de soldados, Agenor Maria, saindo do “corredor polonês”, olhou para trás, viu as duas conchas do edifício do Congresso, desenhadas no horizonte imenso de Brasília, e fez uma jura:

– SÓ VOLTO AQUI, SE FOR PARA A OUTRA BACIA.

A maior ascensão da carreira política de Agenor Maria aconteceu em 1974, quando, com o apoio de Aluízio Alves (Angicos-RN), extraordinária força política do MDB no Rio Grande do Norte, elegeu-se Senador da República (1975-1983).

Em 1974, uma hora da manhã, na boleia do seu caminhão, levando mercadorias de João Pessoa para Currais Novos, quando passava pelo posto de Parnamirim (RN), um portador o aguardava com uma carta do deputado Henrique Eduardo Alves, chamando-o a Natal no dia seguinte, para uma reunião.

O assunto tratado nessa reunião foi quase uma intimação, para que ele fosse candidato a senador pela Oposição. Agenor Maria aceitou e foi eleito.

No dia da posse, no Senado, em Brasília, o nordestino vitorioso, ex-marinheiro tatuado e agricultor, que trabalhava honestamente transportando mercadorias no seu caminhão, por ele mesmo dirigido, olhou de longe o edifício do Congresso, viu as duas conchas de Oscar Niemeyer desenhadas no horizonte azul e lembrou-se do juramento feito seis anos atrás:

– CUMPRI MINHA JURA! VOLTEI MESMO PARA A OUTRA BACIA, A BACIA EMBORCADA!

A oposição venceu dezesseis das vinte e duas disputas para o Senado, quando Agenor Maria foi escolhido para representar os potiguares na Câmara Alta do país, até ser eleito deputado federal pelo PMDB, em 1982.

Agenor Maria era considerado uma das grandes forças políticas do Seridó, e do Rio Grande do Norte no Congresso Nacional. Durante o período em que esteve, tanto no Senado, como na Câmara, defendeu a agricultura e os trabalhadores, sempre mostrando-se preocupado com a situação econômica, pela qual o Brasil estava passando, e ainda com a situação de outras áreas importantes.

Agenor Nunes de Maria, natural do Rio Grande do Norte, filho de Antônio Inácio de Maria e Júlia Nunes de Maria, nasceu em São Vicente (RN), em 16.08.1924 e faleceu em Natal (RN), em 14.06.1997.

Um homem íntegro, simples, agricultor, e com grande vocação política. Sua atuação engrandeceu a história política do Rio Grande do Norte. Se vivo fosse, hoje estaria entre os “fichas-limpas” do Brasil. Vereador, deputado estadual, deputado federal e senador(1075-1983) pelo Rio Grande do Norte, esse homem “do povo” não se deixou corromper pela volúpia do poder.

10 pensou em “A BACIA

  1. Violante….

    Lendo esse seu escrito, bateu uma saudade do tempo em que Políticos esgrimavam essa arte com amor, retidão, caráter e espírito público. Entravam para a política e saíam para a história. Tempos bons, quando dava gosto de falar… fulano é o meu representante… hoje, vendo que os presidentes das duas casas legislativas não têm biografia, mas folhas corridas, bate um desânimo…..tempos bons que n~~ao voltam nunca mais!!!

    • Obrigada pelo comentário, prezado Colunista Roque Nunes!
      Também sinto saudade do tempo em que a política era uma vocação, cujo maior objetivo era a defesa do bem comum. Houve presidentes da Republica, militares, que para terem um enterro digno, os colegas e amigos se cotizaram.

      Conta a história:

      -Quando Castelo Branco faleceu, vítima de um desastre aéreo, ,seu patrimônio limitava-se, a um apartamento em Ipanema e umas poucas ações de empresas públicas e privadas.

      – Costa e Silva, acometido por um derrame cerebral, recebeu de favor o privilégio de permanecer até o fim da vida, no palácio das Laranjeiras, deixando para a viúva a pensão de marechal e um apartamento em construção, em Copacabana.

      – Garrastazu Médici dispunha, como herança de família, de uma fazenda de gado em Bagé/RS, mas quando adoeceu, precisou ser tratado no Hospital da Aeronáutica, no Galeão.

      – Ernesto Geisel, antes de assumir a presidência da República, comprou o Sitio dos Cinamonos, em Teresópolis, que a filha Luci vendeu para poder manter-se no apartamento de três quartos e sala, no Rio de Janeiro.

      – João Figueiredo, depois de deixar o poder, não aguentou as despesas do Sitio do Dragão, em Petrópolis, vendendo primeiro, os cavalos e depois a propriedade. Sua viúva, ao falecer, deixou um apartamento em São Conrado que os filhos colocaram à venda, segundo comentários de pessoas amigas da família, em lamentável estado de conservação.

      Bem diferente dos tempos atuais.

      Bom fim de semana!

      • Grande Dama Fubânica,
        Todo o meu aplauso para ter colocado em texto a realidade dos presidentes militares e a “fortuna” que deixaram de herança para esposas e filhos…

        Os homens que vestiram o verde-oliva o fizeram (com erros e acertos, tão comuns aos “humanos”),mas (bendito mas), nunca tiveram manchadas suas biografias com “roubo da coisa pública”.

        Quanto a tal ditadura, minha infância ocorreu exatamente nos anos 60 e pude observar durante tal período apenas e tão somente o culto à bandeira, à família, à Pátria, com ênfase nos “valores conservadores” da sociedade da época, inclusive com ensino de excelente qualidade nos colégios estaduais e municipais que frequentei, onde vigorava respeito a todos os “mais velhos”, a educadores e parentes.

        • Os governos militares deixaram uma valiosa herança, para a juventude brasileira daquela época: Respeito, disciplina e muito CIVISMO, que os governos posteriores aboliram,

          Um abraço!

  2. Violante,

    A política já teve sua época em que a maioria dos integrantes eram pessoas que se preocupavam com o povo. Hoje, infelizmente, temos uma imagem negativa dessa classe tão importante para o progresso do país. O seu artigo serve de contraponto aos políticos desprovidos de qualidades necessárias para exercer o mandato provocando a impressão que todos são iguais. Compartilho uma estrofe do poeta Antônio Dutra com a prezada amiga:

    Os políticos brasileiros
    São lenha da mesma mata
    Pólvora do mesmo barril
    Ferro da mesma sucata
    Veneno da mesma cobra
    Sobejo da mesma sobra
    Ferrugem da mesma lata.

    Um excelente final de semana com paz, saúde e alegria

    Aristeu

    • Obrigada pelo gratificante comentário, prezado Aristeu Bezerra!

      Gostei muito dos versos do poeta Antônio Dutra, contidos na estrofe que você, gentilmente, compartilhou comigo. São versos inteligentes e verdadeiros.
      Com raras exceções, os políticos atuais estão mais preocupados em fazer fortuna, do que com o “bem do povo e a felicidade geral da Nação”. Infelizmente, o sistema político contribuiu para isso, criando milhares de mordomias, cargos comissionados em exagero, gratificações graúdas e verbas de gabinete altíssimas e “sigilosas”.

      Um abraço e um feliz fim de semana!

      Violante

  3. Recorro a Roque e Aristeu: Lendo esse seu escrito, bateu uma saudade do tempo em que eram sinônimo de retidão, caráter e espírito público nossos políticos. Entravam para a política e saíam para a história. A política já teve sua época em que a maioria dos integrantes eram pessoas que se preocupavam com o povo.

    Uma pergunta me incomoda (e muito): onde foram parar esses exemplos de virtude? Culpa das gerações que os sucederam? As pessoas de bem foram cedendo espaço para os que hoje dominam o cenário político?

    O que terá acontecido?????

    Querida Violante, cronista em grau máximo, tens a resposta?

  4. Obrigada pelo comentário, prezado Sancho!

    Também sinto saudade do tempo em que os políticos se preocupavam, antes de tudo, com o bem comum e o crescimento da Nação. Entretanto, isso nunca foi regra geral. Basta se ver a quantidade de cassações por improbidade administrativa que tem havido ao longo dos anos.

    No meu entender, o próprio sistema político atual estimula a desonestidade, permitindo e acobertando propinas, criando milhares de mordomias para os políticos, cargos comissionados em exagero, gratificações graúdas e verbas de gabinete altíssimas e “sigilosas”.

    Um abraço e um ótimo fim de semana!

  5. Como sempre, uma deliciosa crônica, da Grande Dama do JBF.

    Quanta diferença dos dias atuais. Um congresso nacional gangrenado pela corrupção, um judiciário, idem, repleto de vagabundos.

    É consabido que, militar, em sua grande maioria, sempre foi sinal de conduta impoluta e exemplo de austeridade.

    Tomo como exemplo histórico, um caso de 1955, no governo JK, quando o ministro da Guerra, Marechal Henrique Teixeira Lott, recebeu uma ligação do líder da câmara, deputado Armando Falcão que, subindo a serra, rumo a Araras com sua família, seu carro sofreu uma pane. Sabedor de que o ministro passaria por ali, rumo a Petrópolis , perguntou “Ministro, o senhor pode me dar uma carona? Lógico! Mas só até Petrópolis. Lá o Sr. chama um táxi. O combustível pertence ao exército brasileiro. Não é pra desperdiçar com outra coisa.

  6. Obrigada pelo generoso comentário, prezado Colunista Marcos André!

    Realmente, entre os políticos antigos e os atuais existe uma diferença de comportamento muito grande. Enquanto os antigos defendiam os interesses da Nação e zelavam pela coisa pública, os atuais, com raras exceções, tem como meta principal o enriquecimento galopante e ilícito.. .

    O exemplo histórico citado por você demonstra o caráter rígido do Marechal Lott, típico dos antigos militares, e o zelo, (nesse caso específico, até exagerado), pela coisa pública.

    .Lott , aos onze anos, entrou no Colégio Militar no Rio de Janeiro (1905).
    Após anos de formação militar em diversas instituições, passou a ser general-de-brigada
    Foi sendo promovido por sua destacada disciplina e mérito admirável. O militar consolidou sua imagem como agente metódico, respeitoso, legalista e obediente às hierarquias. ..

    Um abraço e um excelente final de semana!

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