A ARTE DE CONVIVER

Quando jovem, papeando com um parente já bastante calejado pelos percalços da vida, após escutar a sua ladainha de dissabores acumulados ao longo da profissão que abraçara, exclamei: Viver é difícil! Ele logo me contestou, afirmando:

– Discordo, Narcelio, viver é fácil. Tomemos como exemplo a vida de um ermitão, o indivíduo que se propõe enfrentar a vida longe da sociedade, privado de qualquer conforto, envolto apenas pela liberdade da solidão. Ora, se essa foi a maneira ideal que o cidadão escolheu para viver, de certa forma, ele encontrará a felicidade em assim viver – e continuou: O difícil, meu amigo, é conviver.

Embora sem ter esquecido essa conversa de mais de meio século atrás, na época, não percebi a dimensão nem o tom profético daquela observação. Ao adquirirmos a experiência advinda com o passar dos anos e, após engolirmos contrariedades e sofrermos decepções, somente então, perceberemos a exata medida do quão difícil é conviver em sociedade.

Cada um de nós somos únicos, dispondo de essências diferentes com as quais nem sempre conhecemos a forma correta de lidar. Depois da invenção da prensa móvel, por Gutenberg, já devem ter sido impressos milhares de livros, tratados e orientações de como se relacionar e bem conviver entre os semelhantes.

São conselhos do tipo: busque gostar das pessoas, seja bem-humorado, ouça seus interlocutores, saiba perdoar, aceite a diversidade de cada um, aprenda a elogiar e agradar, valorize os pontos positivos do outro e esqueça os negativos, reconheça seus erros, nunca constranja alguém, respeite e exercite o autocontrole e aprenda a abdicar de seus interesses em favor do próximo.

Atendendo a toda essa gama de indicações o indivíduo, em princípio, já estará no entorno da felicidade beatífica se encaminhando para a plenitude da vida eterna, onde dispensará o aprimoramento do bom convívio em sociedade.

Pressupõe-se que ninguém vai conseguir agradar a todos no mundo. Cristo é o mais nítido espelho de mártir repudiado por caminhar junto ao próximo. Poucos conseguem conviver em sociedade oferecendo a outra face para espancamento.

Para muitos de nós é difícil perdoar ou distribuir elogios e agrados gratuitos. Facilmente, passeamos por longe do autocontrole, da prática do amor ao próximo, da humildade para reconhecer os próprios erros e da habilidade para aceitar as diferenças dos outros.

Porém, para esses, existe uma regra básica no enfrentamento da maioria das situações difíceis na convivência em sociedade: falar pouco. O silêncio é a mais estridente e poderosa das vozes. Consegue calar todas as demais com a sua penetrante ausência de som.

Falando pouco você angaria amizades, não se envolve em situações polêmicas ou desagradáveis e, o melhor de todos os resultados, torna-o respeitado – desde que nunca esqueça de manter os olhos abertos.

Se essa dica não funcionar com você, meu prezado irmão, então largue tudo e faça como o papa Bento XVI: abandone o convívio em sociedade e arranje um eremitério para encerrar os seus dias neste mundo. Por que? Ora, você não nasceu para viver entre humanos, tampouco para interagir com qualquer ser pensante. Talvez, convivendo entre primatas você… Ops, paremos por aqui!

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