DEU NO JORNAL

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO JORNAL

O FIM DO DEBATE É O FIM DE TUDO

Luís Ernesto Lacombe

debate esquerda

Nos “debates” de hoje só podem participar os que pensam da mesma forma

Começou na época da Covid, com o tal “consórcio de imprensa”. Os jornalistas desistiram de seu ofício e assinaram ali sua própria “certidão de óbito”. Todos aceitaram empurrar ao precipício os princípios fundamentais de sua profissão – o apego aos fatos, o compromisso com a busca da verdade, com a apuração profunda das informações, com a isenção e o equilíbrio. Depois, eles próprios se atiraram às profundezas… A imprensa se matou, desistiu de ser imprensa, abrindo mão de ouvir todos os lados das histórias reais, abolindo, submissa a tiranos, o debate.

Na semana passada, um “panfleto” foi destaque na primeira página de O Estado de S.Paulo e ocupou duas páginas inteiras do jornal. Três médicos consagrados, com larga experiência, foram tratados como charlatães. O Estadão afirmou que eles estariam inventando uma “síndrome pós-picadinha”, apenas para vender cursos e tratamentos. O panfleto do jornal, ele, sim, anticiência, fez questão de ignorar cerca de 14 mil artigos científicos sobre o que tem sido material de estudo do imunologista Roberto Zeballos, do infectologista Francisco Cardoso e do neurologista Paulo Porto de Melo.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, comemorou a publicação da matéria e anunciou que o governo vai processar os médicos citados pelo Estadão, usando a AGU. Juntam-se, mais uma vez, o governo do PT e a imprensa que se matou, para atacar as bases da ciência e também do jornalismo: o mundo real; as teses e as antíteses; os pontos e os contrapontos; os argumentos e os contra-argumentos… Não pode haver mais liberdade médica, nem liberdade de imprensa, nem liberdade de expressão… Um regime tirânico se acha no direito de decidir o que é “verdade”, de transformar qualquer divergência em crime, de ameaçar e chamar de “negacionista” quem questiona a narrativa oficial.

Despedaçada, moribunda, vagando como um zumbi, a imprensa aceita de bom grado ser submissa. E passa a perseguir o dissenso e amordaçar quem considera indesejável, quem escolhe como inimigos. Também tem sido assim em relação ao sistema eletrônico de votação no Brasil, assunto terminantemente proibido. Também tem sido assim quando a pauta é meio ambiente. Deve-se aceitar que, por culpa do ser humano, o vilão dos vilões, o clima na Terra está mudando. Deve-se anunciar, potencializando sempre o discurso alarmante e as frases de efeito, que, se nada for feito, o planeta vai acabar depois de amanhã.

Na última quinta-feira, véspera do último dia da inútil e desastrosa COP 30 em Belém, era manchete do G1: “Tempo se esgotando: as prioridades e os piores cenários climáticos para o planeta”. O texto dizia o seguinte: “Reunimos 33 dos principais pesquisadores de referência mundial, ambientalistas e personalidades com voz ativa no debate climático para responder a uma pergunta central: qual é o futuro do planeta? As respostas, reunidas ao longo de meses de apuração, revelam um consenso e um alerta: o tempo está se esgotando”.

É muita cara de pau reunir 33 pessoas que pensam da mesma forma – entre elas, uma chef de cozinha, um DJ, uma empresária petista e um “cacique de boutique” – e afirmar que houve “debate”, “apuração” e que se chegou a um “consenso”… Por que o portal da Globo não ouviu cientistas como os brasileiros Ricardo Felício e Luiz Carlos Molion, ou a climatologista americana Judith Curry, ou o ativista canadense Patrick Moore, um dos fundadores do Greenpeace? Porque mentir dá um trabalho enorme, e os mentirosos não querem dar a ninguém a chance de desmascará-los.

DEU NO X

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

PARA QUÊ?! – Florbela Espanca

Tudo é vaidade neste mundo vão …
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão! …

Beijos de amor! Pra quê?! … Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta! …

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

VAMOS ANDAR – JUNTOS!

O portão eletrônico das Queimadas

O ano, lembro bem, era 1954. Seca braba. Tudo seco. Animais morrendo de sede. Nem as muitas caminhadas para o Açude Novo conseguiam resolver. A jumenta Bonita caminhava trôpega com dois cambitos e dois barris d´água. Seria maldade transportar mais de dois barris – e Bonita, farejando o vento que soprava ao contrário da nossa direção, parecia sentir sede e andava mais rápido – Vovô orientava para não bater no animal. Naquela seca seria muita maldade.

Dia 19 de março se aproximava. Dia consagrado ao Santo Padroeiro do Ceará, São José. Havia em cada novena reunida durante a noite, uma reza muito forte pedindo o milagre da chuva.

Todo dia eu caminhava. Para ir, e, claro, para vir. Era até o Açude Novo, uma boa caminhada. Sempre sofrendo as agruras do calor na trajetória. O banho no açude refrescava um pouco. Banho nu. Sei que muitos banham nu. Mas era hábito, no Açude Novo, banhar vestido com um calção. Havia o local reservado para os homens, ainda que meninos, e para a mulheres, mesmo que meninas com os mamilos aflorando.

Os anos se passaram. Passou 1954. Passou 1955 e passou 1956. Em 1957 a seca que matava não apenas os animais, nos expulsou das Queimadas.

Antiga Praça José de Alencar

Meados de 1957, o êxodo nos levou para Fortaleza. Poderia ter sido Manaus, Salvador ou Curitiba. Não tínhamos nada de posse, além de duas ou três redes e um cachorro que parecia ser nosso Anjo da Guarda. E era.

Andando, chegamos a Fortaleza. Sem dinheiro, sem emprego e sem nada nas mãos além dos dez dedos. Andamos e fomos parar no Pirambu – ali, erguemos uma palhoça, onde poderíamos ter a sensação de liberdade e de um recomeço. Ledo engano. As necessidades materiais bateram à porta e entraram palhoça à dentro sem pedir licença. Fazíamos nossas necessidades fisiológicas onde estivéssemos e onde desse vontade. Despudoramente – e até aprendemos substituir o sabugo de milho pela água salgada do mar.

Os dias que chegaram nos encontraram andando. Andando para lugares incertos e levados pelos sons audíveis dos roncos famintos dos intestinos. Mas, aquela voz não nos deixava parar. Esmorecer, jamais.

Vá em frente, dizia uma voz vindo de algum lugar. Não pare. Ande. E foi aquele incessante caminhar, andar de mãos dadas que nos manteve unidos e de pé.

Chegaria 1958. A caminhada incessante e incentivada me levou ao Liceu do Ceará. Os obstáculos encontrados não me deixavam abater. Mas a insistência, a perseverança, a esperança acaba descortinando um novo horizonte.

Os dias se passaram e foram nos encontrar andando em busca de algo imaterial que acabaria por nos levar à materialidade das realizações. Aprendizado. Empregos. Vida, enfim.

Hora de servir à Pátria. CPOR. Universidade. A continuidade da caminhada nos levou à Western. Primeiro emprego formal. A imaturidade nos conduziu para a composição de uma Diretoria sindical. Sindicato dos Telegráficos. Ilusões. Nada mais que isso.

Theatro Municipal do Rio de Janeiro na Cinelândia

Andamos rápido, para a caminhada que nos levou para o Rio de Janeiro, sem lenço, sem documentos e sem profissão. O pouco tempo – seis anos apenas – de Western não nos garantia uma transferência.

Andando conforme a luz divina iluminava o caminho. Sempre o bom caminho – as necessidades materiais eram janelas abertas para o desvirtuamento. Deus não permitiu e a luz forte clareava a estrada – tanto quanto as lamparinas da Vovó, ou o candeeiro do Vovô iluminando o espraiado do quintal fronteiriço daquela casa onde nasci. Nas Queimadas. Onde dei os primeiros passos até aqui.

Andando sempre. Acreditando em Deus, mas, caminhando.

Vida. Universidade. Casamento e nova família. Problemas, mas continuamos andando, sempre na direção certa e no caminho traçado por Deus.

Sem acreditar jamais na mentira: “cada um será o que quiser”!

Cada um será sempre, o “que Deus quiser e traçar como destino inicial e final.”

Parte do Largo do Carmo em São Luís

Chegou 1987, e continuei andando. Agora, segurando na mão de Deus. Um novo caminho, ainda desconhecido, tanto quanto foi o Pirambu, em 1957 e o Rio de Janeiro, em 1969. Problemas vencidos e a construção de uma nova família. Tudo novo. Recomeço de uma nova caminhada – que mostrava a mesma esperança de quando colocava os cambitos e os barris vazios na jumenta Bonita, para “buscar água” no Açude Novo.

São Luís. Filhos. Três filhos, hoje adultos. Entraram na caminhada traçada por Deus.

Hoje, Deus bondoso e justo, permite que continuemos andando. Juntos. Eu e ELE! Nós, enfim.