DEU NO X

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

A DOR DO SUICÍDIO (1ª PARTE)

Num texto de 26/04/1926 (sem título), Fernando Pessoa (por Álvaro de Campos) faz uma provocação instigante:

‒ Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! Que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria.

No caso dele não era verdade, que jamais pensou nisso. Embora tenham, alguns amigos, tentado sem sucesso. Como Raul Leal, homossexual que abandonou a advocacia para viver sua triste aventura existencial; e, em Madri, se jogou sob as rodas de um automóvel. Escapando, por perícia do motorista, sem mesmo ser atingido.

Em 25/09/1930, deu-se episódio curioso. Quando Pessoa tramou um suicídio no Mata-cães da Boca do Inferno (Cascais), do mago inglês Aleister Crowley ‒ considerado, pelos jornais de seu país, como O pior homem da Inglaterra. Com ajuda de muita gente: o médium londrino A.V. Peters; o amigo Augusto Ferreira Gomes (para quem fez o prefácio de seu Quinto Império); o cunhado Caetano Dias (casado com a irmã Teca), que lhe emprestou uma cigarreira, comprada em Zanzibar, dada como de Crowley; e, até, a Scotland Yard. Mas era só brincadeira.

Único amigo de Pessoa que chegou a se suicidar, fique o registro, foi o poeta Mário de Sá Carneiro. O mesmo que, na hora de se despedir da vida, no hoje Hotel des Artistes (em Montmartre), lhe deixou esse triste bilhete:

‒ Um grande, grande adeus de seu pobre Mário de Sá Carneiro, Paris, 16 abril 1916.

O mesmo Sá Carneiro deixou também, em Página dum suicida, esses belos versos:

‒ Serei um arrojado descobridor de mundos:
Colombo descobriu a América;
Vasco da Gama, a Índia;…
Eu descobrirei a Morte!…

No início de texto importante (Eutanásia, suicídio assistido, ortotanásia e questões paralelas), ainda inédito, o ministro do STJ (Marcelo Navarro) Ribeiro Dantas expõe:

‒ A tensão entre decidir sobre o próprio morrer e a sacralidade ou indisponibilidade da vida, percorre toda a discussão sobre a eutanásia (ato médico que põe fim à vida a pedido do paciente) e o suicídio assistido (quando o paciente, com suporte médico, autoadministra a substância letal). Mas o próprio suicídio, entendido como possibilidade de decidir quando e como morrer, também tem a ver com isso tudo.

Vale ainda lembrar, ao falar nesse tema, do livro Suicide, mode d’emploi (A bula do suicídio), de Claude Guillon. Apesar de vetado pela censura francesa, conseguimos comprar um exemplar nas livrarias. Paris, nesse campo, é um pouco do Recife. Para quem quiser, um bom guia. Ensina como falsificar uma receita médica, para comprar os remédios certos nas farmácias; permite escolher como se quer morrer ‒ rapidamente ou devagar, com sofrimento ou não, quanto vai custar. Interessante de ler. Sobretudo por quem não esteja pensando nisso.

Faz pouco, nesse campo, tivemos uma perda importante. Do grande poeta Antônio Cícero, confrade querido na Academia Brasileira de Letras, que cometeu suicídio assistido na Suíça. E deixou, para os amigos, uma carta pungente. Seguem trechos:

‒ Encontro-me na Suíça, prestes a praticar eutanásia. O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer. Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem. Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi… Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação… A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas – senão a coisa – mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico até com vergonha de reencontrá-los… Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade. Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços!

A respeito, bom lembrar novamente o ministro Ribeiro Dantas:

‒ Causar a morte de alguém — ainda que por compaixão e a pedido expresso do paciente ‒ é crime (art. 114 do Código Penal Suíço). Pena: até 3 anos de prisão ou multa. Mas o suicídio assistido é permitido em determinadas condições. Prestar auxílio para que a própria pessoa ponha fim à própria vida não é punível quando o ajudante não age por motivo egoísta (art. 115 do Código Penal).

Ao longo da vida, tive experiências pessoais dolorosas. Como a de Annie, na cidadezinha de Gilze (Holanda), que fez dito suicídio assistido; quando seu irmão e escritor Harrie Lemmens, outro amigo próximo, lhe perguntou

‒ Você está em paz?

Ela, sorrindo,

‒ Mais que isso, aliviada.

Ou o amigo Aguinaldo Lyra, colega de classe no colégio Nóbrega; depois, holandês e alto funcionário do governo, que também fez suicídio assistido. Ligou para mim poucos dias antes, em 29/10/2018, para se despedir. Perguntei

– Como vai ser?

– Até quarta, me despeço de parentes e amigos, entre eles você. Quinta, mulher e filhos. Sexta de manhã, só a mulher. No começo da tarde chegarão médico da família, enfermeiro, juiz, tabelião. E às 16 horas, na cama, tomarei uma injeção. Não sentirei dor, assim prometeram.

– Adeus, Aguinaldo, breve nos encontraremos em algum lugar.

Fim do telefonema. Fiquei paralisado. Tudo iria acontecer na sexta, 2 de novembro – Dia de Finados no Brasil, por artes do Destino. Ao meio-dia daqui. Maria Lectícia mandou rezar, nessa hora, missa para ele. Lembrei versos de Pessoa (Álvaro de Campos, Dois excertos de odes) “Vem, dolorosa/ Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes/ Sabor de água sobre os lábios dos cansados”. Que essa mão fresca torne mais doce a sua partida, querido amigo. Descanse em paz.

Lembro também conversa com Nehemias Gueiros (presidente da OAB Federal). Na Embaixada do Brasil, em Londres, para comemorar o primeiro título na Fórmula 1 de Emerson Fittipaldi (19772). Com o piloto presente, claro. Lá estávamos a convite do embaixador Sérgio Correia da Costa e sua mulher (da época), Zazi, neta de Oswaldo Aranha. E nem pedimos explicações, a Nehemias, por ter sido redator do Ato Institucional número 2, em 27/10/1965, sacralizando a Ditadura Militar. Sem chances porque falava só na mulher que acabara de falecer, tentando suicídio por três vezes, e nos contou

‒ Sabem o que doeu de verdade?

‒ Não.

‒ No hospital em que estava internada para tentar se recuperar, quando eu falava no futuro, que iríamos ficar bem, ela respondia “E você ainda não percebeu que já basta? Que não quero mais?”

P.S. Continua da próxima semana.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JOSÉ ALVES FERREIRA – SÃO PAULO-SP

Olá!

E lá vai nosso “Bessias”, agora não como estafeta, mas para ser “pau mandado” à quem deveria entregar a mensagem.

Antes, exigia-se notável saber jurídico, obras publicadas, lastro que superior a média identificasse o escolhido…pelo menos assim consta na hoje esquecida constituição.

Agora, basta ser um mensageiro, um servo fiel e devotado.

Será aceito, pois a tal sabatina é apenas uma encenação.

E, teremos, mais e mais desmandos, conveniências e total desrespeito às regras constitucionais.

Sou velho, talvez não venha a ver mudanças…, mas, durante algum tempo só teremos “imbecilidades ”…agora sim, vindas de um legitimo “bessias”…

Inté!

DEU NO JORNAL

SÓ UNS MIMIZINHOS

Até para abafar o fiasco da COP-30, Lula subiu no palanque contra o chanceler Friedrich Merz, feliz por ter voltado para casa.

Mas não devolveu os €15 milhões que o alemão deixou para o fundo indígena.

* * *

15 milhões de euros.

Um tiquinho de nada.

Lula tá certo em não devolver uma merreca tão pequena.

Melhor ficar por aqui mesmo.

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A NOITE DE NÚPCIAS

A evolução dos costumes pôs fim ao tabu da sonhada “noite de núpcias”, quando oficialmente ocorria a primeira noite de amor entre o casal, iniciando-se a vida conjugal.

Pois bem. Rosina, moça mimada, muito bonita e rica, foi criada com liberdade, e logo cedo passou a frequentar as festas da alta sociedade carioca. Muito vaidosa, vestia-se com esmero, optando por roupas sensuais, decotadas e coladas ao corpo, que deixavam transparecer suas formas.

Educada no tumulto das rodas elegantes, cujas festas logo cedo passou a frequentar, Rosina tornou-se uma das moças mais cobiçadas da capital.

Convencida da sua beleza, trocava de namorado com frequência, até que, aos 24 anos, conheceu Edmundo, um advogado bem sucedido, que por ela se apaixonou, e, poucos meses depois, com ele se casou.

Mesmo não gostando dos hábitos da noiva, Edmundo aceitava o seu temperamento extrovertido e exibicionista, pois a paixão que ela lhe despertou era maior do que tudo. A sua intenção, no entanto, era modificar o temperamento da noiva, depois de casados. Coisa impossível de acontecer.

Edmundo marcou o casamento, apesar da sua decisão não ter sido vista com bons olhos pela sua família. Mas ele não deu ouvidos a ninguém. Era tão violenta sua paixão, que ele não queria enxergar o comportamento leviano de Rosina.

Trajando sempre os tecidos mais leves e transparentes, sugeridos por figurinos inadequados, os modelos que a jovem escolhia deixavam à mostra uma perna, o colo e as costas. Quanto ao resto do corpo, não havia quem não o adivinhasse, na transparência indiscreta do crepe da China, ou da seda que lhe modelavam sensualmente, os seios e quadris volumosos, e a cintura fina.

Um dia, foram os círculos elegantes surpreendidos com uma notícia sensacional: o Dr. Edmundo Filgueira, um dos advogados mais bem sucedidos da nova geração, havia pedido em casamento a belíssima senhorita Rosina Ferreira, filha do Dr. Peixoto Ferreira, um dos maiores juristas do Rio.

Realizado o casamento, em que Rosina se apresentou com um vestido de noiva mais sensual e provocante do que nunca, e com recepção no mais chique salão de festas da época, o casal seguiu para a lua de mel, hospedando-se no hotel mais badalado dos anos 60.

Ao adentrarem à alcova nupcial do hotel, os noivos exultavam de felicidade e desejo. Envolta, de leve, na seda finíssima de uma camisola transparente, ou melhor, na névoa imperceptível que a deixava nua, a recém-casada fazia lembrar as estátuas de mármore, como Anfitrite, veladas convencionalmente, para o momento da inauguração. Nem Anfitrite, com os pés mergulhados na espuma e vestida, apenas, pela bruma fugitiva do Arquipélago, não seria, talvez, mais nua, e mais bela!

Entreolhavam-se, os dois, na alcova silenciosa, ninho de ouro e seda, armado para um casal de pombos amorosos, quando o noivo se adiantou, e, sorrindo, anunciou à moça, tomando-lhe, carinhosamente, as mãos geladas e brancas:

– Sabes, meu amor, que te preparei uma surpresa?

– Surpresa? Qual? – indagou a noiva, demonstrando curiosidade e aflição.

O noivo suspendeu os travesseiros da cama, e tirando daí um vestido para a noite, comprido até o tornozelo, e composto, com mangas longas, trabalhado em seda branca e opaca, com o decote alto, pediu:

– É para que me faças também uma surpresa, dando-me uma sensação inédita nesta noite de núpcias.

E entregando-lhe o vestido, falou:

– É que eu nunca te vi vestida com uma roupa composta!… Nua, já vi demais!!!

Desapontada, Rosina atendeu ao marido e foram felizes para sempre.

DEU NO X

COMENTÁRIO DO LEITOR

MÍSSIL x FLECHA

Comentário sobre a postagem VAI ARRASAR OS ZISTEITES

Paredão de Barragem:

Não precisa explicar, mas é bom a gente entender.

Um míssil americano pode atingir a Venezuela de qualquer distância.

O navio de guerra que está nas águas caribenhas, pode simplesmente detonar o Palácio de Miraflores.

Isso sem a necessidade de nenhum soldado americano pisar na Venezuela.

O alcance de uma flecha é entre 70 e 90 metros, no entanto, isso depende, por exemplo, do arco.

Esse Maduro é um imbecil mesmo

DEU NO JORNAL

O CERCO À FRAUDE

Editorial Gazeta do Povo

Por algum tempo, parecia que os esforços para encontrar os culpados por uma fraude hedionda cometida contra idosos pobres dariam pouco resultado. O noticiário recente andava pródigo em fatos capazes de desviar a atenção da opinião pública – da COP 30 à megaoperação policial contra o Comando Vermelho no Rio – e a CPMI do INSS continua tendo dificuldades para ouvir aqueles que realmente importam. No entanto, uma nova fase da Operação Sem Desconto mirou peixes graúdos e reacendeu as esperanças de que os brasileiros finalmente saibam como foi possível montar o esquema fraudulento.

Em 13 de novembro, a Polícia Federal prendeu Alessandro Stefanutto, que foi presidente do INSS entre julho de 2023 e abril de 2025, e só foi demitido por Lula após o escândalo da fraude estourar. Além disso, a PF executou outros mandados de prisão e de busca e apreensão – entre os alvos destes últimos estavam José Carlos Oliveira, também conhecido como Ahmed Mohamad Oliveira, ex-ministro do Trabalho e Previdência no governo Jair Bolsonaro; o deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG); e o deputado estadual Edson Araújo (PSB-MA). Segundo a PF, Stefanutto teria recebido propina de R$ 250 mil mensais para permitir os descontos ilegais em aposentadorias e pensões, revertidos à Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer). O ex-presidente do INSS seria o “Italiano” em uma planilha de propinas encontrada com dirigentes da Conafer, e que lembra muito a célebre planilha da Odebrecht, descoberta na Operação Lava Jato.

O caráter multipartidário da lista de investigados tem sua razão de ser. Desde que o escândalo estourou, sabia-se que o esquema de descontos ilegais havia atravessado três governos: Michel Temer, Bolsonaro e Lula. Também é certo que os valores descontados de aposentados e pensionistas explodiram no atual governo, saltando de R$ 706 milhões em 2023 para R$ 1,2 bilhão em 2023 e R$ 2,8 bilhões no ano passado; a conta só não dá a dimensão exata da fraude porque inclui descontos que de fato foram autorizados pelos aposentados, embora eles sejam uma parcela mínima – 97% dos entrevistados pela Controladoria-Geral da União disseram não ter autorizado desconto algum.

Enquanto a Polícia Federal continua seu trabalho, a CPMI do INSS esbarra em habeas corpus e atestados médicos apresentados por depoentes, e na blindagem montada pelos próprios deputados e senadores que compõem a comissão para proteger pessoas como Frei Chico, irmão do presidente Lula que é vice-presidente do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), uma das entidades que mais lucraram com o esquema de descontos ilegais. Na tentativa de mostrar serviço, os parlamentares prometem investir contra outra vertente do esquema, as práticas abusivas envolvendo empréstimos consignados. Para acrescentar sordidez ao esquema, até bebês estão devendo graças a empréstimos que usam o Benefício de Prestação Continuada (BPC, também pago pelo INSS) como garantia, e que somam R$ 12 bilhões, segundo o atual presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior.

Ao contrário do petrolão, um intrincadíssimo esquema de corrupção envolvendo o petismo, partidos aliados e empreiteiras amigas, o esquema do INSS é bastante simples de entender: os fraudadores roubavam milhões de idosos, forjando autorizações para que se descontasse pequenas quantias de cada um deles, em benefício de sindicatos, associações e entidades participantes do esquema. Ganhava-se na escala: tirando pouco de muitos, foi possível obter bilhões de reais. Mas, assim como na Lava Jato, as ramificações vão surgindo, e agora o escândalo pode chegar à Advocacia-Geral da União: o jornal O Estado de S.Paulo mostrou que o advogado-geral Jorge Messias havia sido alertado pela própria AGU em 2024 sobre indícios graves de desvios no Sindnapi e na Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), tradicional aliada do PT, mas teria ignorado o aviso. Os oposicionistas na CPMI falam em convocar Messias para depor, mas levá-lo à comissão promete ser tarefa tão árdua quanto conseguir o depoimento do irmão de Lula.

À medida que 2026 se aproxima, a blindagem de gente muito próxima ao poder deixa de ser o único risco para as investigações, especialmente as da CPMI, enquanto cresce a possibilidade de que a busca pela verdade seja deixada de lado para dar lugar à disputa pela “paternidade” do esquema, em que um lado acusará o outro de ter deixado roubarem mais. Ainda há muito a descobrir: como a fraude começou, como cresceu, por que as tentativas de impor mecanismos de controle falharam, o que explica o crescimento vertiginoso dos descontos nos últimos anos, quem sabia e se omitiu. Os brasileiros – especialmente os que foram roubados, às vezes por anos – merecem as respostas.

PENINHA - DICA MUSICAL