A balança e os pesos usados por Chico
Quando chegamos naquele bairro, vindos de uma temporada como “invasores” da orla marítima de Fortaleza – mais propriamente, Pirambu – dependíamos, todos, do minguado salário paterno. A cada dia a luz divina clareava nosso horizonte e, melhorávamos de vida e patamar.
Bairro Bela Vista, rua Viriato Ribeiro. Já não lembro mais o número da casa. Na verdade, parece que morávamos numa casa s/n (sem número).
Mas, convenhamos, sair de invasor da orla marítima, para pagador de aluguel com perspectivas de alimentação diária (mesmo que fosse uma só), era um avanço inimaginável. Em verdade, uma bênção de Deus.
Pois, naquela mesma rua fizemos amigos que perduram até hoje, século XXI, ano 2024. Mesmo com alguns interessados implantando e apostando firme na frutificação da semente da discórdia – como está acontecendo nos dias correntes neste país continental.
Um desses amigos era o “Chico da bodega”. Talvez a necessidade de sermos ajudados de alguma forma naqueles momentos, tenha servido para não observássemos que, na verdade, estávamos sendo roubados. Tal qual agora, quando aceitamos tudo e continuamos calados e coniventes.
Exemplo: quem de nós reclama troco na compra de um artigo publicado em placa no valor de R$ 5,97? Somos coniventes, ou não?
Assim era Chico. Quem realmente precisava levar para casa o “dicumê” da prole, nunca reclamava que aquele peso de 1Kg, se aferido fosse, só pesaria 0,800 gramas. Ao final do mês, quando a conta era paga, pagávamos 30Kg, mas havíamos consumido menos que 25 Kg.
Eis que, longe da Bela Vista, nas Queimadas, Pacatuba, Guaiúba, Chorozinho, 1litro (pouco usávamos o quilo), se fosse aferido, seria até mais que a medida.
Medida de 1 litro usada na roça
Pois, saibam os incrédulos e desavisados que, de 31 de março de 1964, a medida usada na roça era o litro e o peso de 1 Kg, se aferido fosse, talvez pesasse até mais.
Eis que mudamos de patamar (tal qual mudávamos de invasores da orla marítima do Pirambu, para uma casa de aluguel na Bela Vista), quando, em 1985, saímos da sexta prateleira da estante mundial (Itaipu binacional, Ponte Rio-Niterói, etc., etc., etc.), para ocuparmos quatro ou cinco prateleiras mais abaixo – sem que possamos protestar, sequer, que a mulher do Síndico manda mais que ele próprio, ou qualquer componente da Assembleia de Proprietários.
Há uma vaga esperança: que os moradores da outra rua, compadecidos – um até ofendido gratuitamente com um sonoro “foda-se” – com o nosso sofrimento ou com a visão de celeiro alimentador do mundo que somos, comprem a nossa briga e recuperem a nossa dignidade.
Se dependermos exclusivamente de nós, o recado dado pela primeira-dama para o morador da outra rua, vai cair muito bem para nós e nossas gerações (se vierem a existir, diante de tantos baitolas infestando este país continental. Não se tem conhecimento, ainda, de alguma gravidez anal).
O Chico roubou tanto dos fregueses, mas nada lhe serviu de travesseiro ao ser colocado no caixão e levado para a última e definitiva morada.
Quem sabe e tem certeza se, na hora para carregar o caixão dos opressores para a cremação – nesta Terra – vai aparecer alguém para segurar uma das alças?





