DEU NO X

DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

AS TRÊS MARIAS E O MISTÉRIO DO MILAGRE

Lourenço casou-se com Maria Quitéria, tiveram seis filhos. Com o falecimento de Maria Quitéria, decidiu que não se casaria novamente. Temia o mesmo que sucedera ao pai: enviuvou duas vezes; o mal da viuvez existe, mas não pega por contágio. Porém, argumentos, recorrentes, de familiares e amigos, fizeram-no mudar de ideia. Ele concordou em casar-se desde que com outra maria. Para Lourenço, toda maria tinha pureza, recato e fé. Então, cassou-se com Maria Linoca, com quem teve cinco filhos. Tendo enviuvado pela segunda vez decidiu, de modo peremptório, que não se casaria nunca mais. Porém, outra avalanche argumentativa lhe veio ao lombo, desta feita com grande poder de convencimento, aos moldes de uma surra de pinhão roxo. Alegavam os convincentes que ele, o viúvo, exprimia prestimosa meia-sola. Ademais, diziam: “quem não casa não engoma os nervos”, “é melhor serem dois do que um”, “você é viúvo, mas não é eunuco”, e por aí além. Lourenço, então, acedeu, casou-se com Maria Teresa, com quem teve quatro filhos.

Tempos decorridos, Lourenço subiu para os desígnios de Deus deixando Maria Teresa em precioso estado de conservação, porém, desprovida de fervor para contrair novas núpcias. Certa feita, por recomendação médica, Maria Teresa passou a tomar um antianêmico denominado Biotônico Fontoura, que continha uma dosagem etílica na sua formulação. Essa dosagem, ao longo de anos, fez com que Maria Teresa se tornasse doidamente apaixonada por Biotônico, a bem dizer, uma viciada. Evidentemente, de conduta socialmente desejável, Maria Teresa não andava em bebedices, mas não se fazia de rogada se alguém lhe franqueasse um beberete, digamos, um cálice de vinho, de licor, enfim.

Sucede que o Ministério da Saúde determinou que os tônicos não mais contivessem substância etílicas nas suas composições. A proibição ministerial levou Maria Teresa a engendrar a ideia de misturar cachaça ao Biotônico, isso, às escondidas dos familiares.

Com o falecimento de Maria Teresa — que se notabilizara por ter sido a idosa mais longeva da região —, quis a municipalidade saber, não exatamente a causa da sua morte, mas que extraordinária razão a fizera ter vida tão duradoura: um centenário e dois lustros. Isso espantou até Matusalém.

Depois de muita investigação, com o apoio de médicos da Secretaria de Saúde, não se descobriu o que motivou os cento e dez anos da vovó Teca, porém, enterradas nos seus aposentos, foram encontradas dezenas de garrafas de cachaça, vazias, é claro. Milagre, houve, não se sabe quem o obrou. Os devotos da cachaça asseguraram que as aguardentes, a exemplo dos vinhos, dão longevidade humana. Os que desaprovam a ingestão de bebidas alcoólicas, declararam, sob juramento, que a longevidade da vovó Teca tem tudo a ver com o uso do formidável Biotônico Fontoura, “o fortificante ideal”, lançado em 1910 pelo farmacêutico Cândido Fontoura.

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO X

RLIPPI CARTOONS

DEU NO JORNAL

J.R. GUZZO

ARCABOUÇO FISCAL: IDEIAS MORTAS E CONVERSA FIADA

A ministra do Planejamento, Simone Tebet, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente Lula: novo arcabouço fiscal prega aumento da arrecadação.

A ministra do Planejamento, Simone Tebet, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente Lula: novo arcabouço fiscal prega aumento da arrecadação

A equipe econômica, após três meses de conversa, de reuniões e de anúncios variados, apresentou, enfim, o que deve ser o plano financeiro do governo – basicamente, a declaração pública de como as autoridades pretendem que o Estado brasileiro se mantenha em funcionamento durante os próximos anos. É o “arcabouço fiscal” de que se fala; muita gente boa, a começar pelos comunicadores, nunca tinha ouvido até hoje a palavra “arcabouço”, nem sabe o que isso significa, mas a mídia gostou dela e agora faz parte fixa do noticiário.

O plano é um retrato praticamente perfeito do que está na essência do governo Lula – o esforço, em tempo integral, para tapear a população com ideias mortas, conversa fiada e promessas que nunca serão cumpridas. A estrutura que apresentaram para sustentar as contas públicas não sustenta nada. É apenas um anúncio de que o governo quer gastar e vai continuar gastando enquanto estiver por aí; na prática, não há nenhuma outra proposta no “arcabouço”.

O plano, no português de ginásio em que foi escrito, diz que a quantia monstruosa de dinheiro que o governo Lula vai consumir com as suas despesas, do Bolsa-Picanha aos jatos da Força Aérea para levar ministros verem exposições de cavalos de raça, virão do “aumento da arrecadação”. Pronto: então está tudo resolvido, não é mesmo? É como o sujeito comprar uma casa agora contando com um aumento de salário que espera receber algum dia no futuro.

O único elemento líquido e certo do “arcabouço fiscal” é a despesa. O “aumento da arrecadação” é unicamente um desejo – e um desejo que nada tem a ver com a realidade objetiva do Brasil no momento. Ao contrário, data-hoje, o que se espera é crescimento nulo ou baixo, e com economia parada a receita não pode aumentar. Não dá para ser diferente. Em três meses de atividade, o governo não foi capaz de esboçar a mais remota medida concreta que possa levar a um 0,00001% de crescimento, ou a um emprego de carteira assinada, ou a 1 real de investimento. (O único investimento que o presidente Lula anunciou até agora foi um gasoduto na Argentina.)

Na verdade, tudo o que os 37 ministérios e o resto da máquina do governo disseram até agora é o oposto de progresso econômico – tem sido, sem parar, um ataque direto à produção, ao mundo do trabalho e à liberdade de empreender. Levam peixes gordos do MST para o que anunciam ser uma fenomenal viagem “de negócios” à China; que “negócio” querem fechar desse jeito – algum investimento chinês na invasão de terras, talvez?

Querem a volta do imposto sindical. Querem a volta do seguro obrigatório para automóveis. Querem “imposto sobre fortunas”. Não falam em outra coisa que não seja o combate ao racismo, à “direita”, à transfobia, à “discriminação das mulheres”, ao “genocídio dos povos indígenas”, à desigualdade e a tudo o que acham mau e feio neste mundo. Como gerar um emprego com esse palavrório, ou um tostão de investimento verdadeiro? O governo diz que tudo vai ser lindamente resolvido neste país com “investimento público”. Não existe investimento público num governo do PT; o que existe é gasto para manter a máquina do Estado em seu perpétuo regime de engorda.

Lula e o seu Sistema dizem que querem dinheiro “para os pobres”, mas os pobres não vão ver nem sombra dos trilhões e mais trilhões do “arcabouço fiscal”. Tiveram mais de treze anos e quatro vezes seguidas no governo para “acabar com a pobreza”, como dizem. Por que não acabaram? O PT não está interessado em pobre nenhum. Está interessado em empregos de 76 mil reais por mês na diretoria da Itaipu – como o que acaba de ser doado a um “assessor legislativo” da presidente do partido. O resto é material de propaganda para sair no Jornal Nacional.

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O LUPANAR – Augusto dos Anjos

Ah! Por que monstruosíssimo motivo
Prenderam para sempre, nesta rede,
Dentro do ângulo diedro da parede,
A alma do homem polígamo e lascivo?!

Este lugar, moços do mundo, vede:
É o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede!

É o afrodístico leito do hetairismo,
A antecâmara lúbrica do abismo,
Em que é mister que o gênero humano entre,

Quando a promiscuidade aterradora
Matar a última força geradora
E comer o último óvulo do ventre!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Cruz do Espírito Santo-PB (1884-1914)

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA