LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

RLIPPI CARTOONS

DEU NO X

RLIPPI CARTOONS

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

JACOB FORTES – BRASÍLIA-DF

VOCÊ SERÁ O MEU VICE

Nos primórdios da humanidade não existia a figura do vice. Vice-rei, vice-governador e assim por diante. Então, por aqueles tempos, sucedeu um episódio do seguinte teor:

Certo rei, estressado com a rotina da corte, resolveu dar uma volta, a fim de afugentar a fadiga, desenfadar a vida de ferrolho. Ordenou, então, ao chefe da cavalariça que preparasse o Predileto, seu cavalo de estimação. Com o cavalo devidamente encilhado, o rei, agora descaracterizado, a bem dizer, travestido de modo a aparentar outra pessoa, dispensou a escolta real e, sozinho, partiu, sem destino.

De tanto entreter-se com as paisagens sertanejas e a vida campesina, o rei não percebeu que o dia escorrera rapidamente, o entardecer já era realidade. Distante da corte, a noite se avizinhando, endereçou-se a um casebre e ali pediu pouso. Bem acolhido, como é da tradição cabocla, não faltou ao desconhecido visitante a peculiar cortesia matuta e, obviamente, um escasso e franciscano jantar, a lenha. Nessa noite, o visitante não pôde repimpar-se aos moldes dos jantares lautos da corte.

Durante a sesta, os dois, anfitrião e visitante, engataram um manso cavaquear. Em certa altura da conversa, o visitante quis saber a opinião do camponês acerca da administração da corte e a conduta do monarca. Desapressadamente, ao estilo da sinceridade matuta, e da singeleza cabocla, disse o camponês, enquanto entretinha o fogo com galhos secos:

– A bem da verdade, essa corte é uma desordem, uma bagunça, um covil de vagabundos. O rei é um incompetente, desajuizado, extravagante.

No amanhecer do dia seguinte o visitante agradeceu a boa acolhida, estugou o cavalo e partiu. Agora, na corte, desanuviado, o rei restabeleceu a sua rotina.

Não demorou muito, o rei precisou afastar-se por um longo período a fim de visitar um reino distante. Ultimados os preparativos da viagem, despachou uma escolta de cavalaria com o propósito de buscar o tal camponês que lhe concedera pouso. À chegada, o rei pergunta ao camponês se ele mantém a opinião que, naquela noite, proferira sobre a corte e sobre o rei. Sendo de uma palavra só, o camponês reafirmou sua opinião. Então, disse o rei:

– Farei uma longa viagem e, na minha ausência, você será o rei substituto, terá o apoio e a obediência de todos.

Ato continuo, o rei monta e parte com sua cavalaria real.

O camponês, então, manda transformar um couro cru de boi em chibata. Sequentemente manda avisar à vassalagem que no dia seguinte estaria no gabinete real dando expediente. À hora estabelecida formou-se, como de costume, uma longa fila de vassalos, cada qual com sua interminável cantilena, ou queixa, para despejar nos ouvidos do rei substituo.

A cada portador de fuxico, intriga, enredo, ou conversa fiada, o rei mandava aplicar uma ou duas chibatadas, conforme o caso.

No segundo dia de expediente, a fila havia desaparecido. As atividades do reino, então, se tornavam, progressivamente, azeitadas, produtivas, eficientes.

De retorno da viagem, o rei titular pergunta ao camponês sobre o funcionamento do reino. Em resposta, disse o camponês:

– Nunca se viu tanta ordem, tanta produção e prosperidade neste reino.

Constatado o admirável progresso, disse o rei ao camponês:

– Você será o meu vice.

DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

RLIPPI CARTOONS

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

O CORAL NOTURNO DAS CIGARRAS

“A cigarra é um inseto conhecido por todos, principalmente pela sua tremenda cantoria. Em algumas épocas do ano, o som é tão alto que chega a incomodar algumas pessoas.

Assim como outros animais, o canto é uma forma de comunicação, seja para atacar, avisar do perigo ou até mesmo para a reprodução. Este último é o motivo pelo qual as cigarras tanto cantam. Elas estão à procura de um parceiro, sendo que o responsável por todo o barulho é o macho”.

Ao todo, existem em torno 1500 espécies de cigarras, vivendo nos trópicos ou na bacia do Mediterrâneo, alimentando-se de seiva de plantas. Sua vida varia entre 4 e 17 anos, dependendo da espécie.

A cigarra – espécie homóptera da família cicadidae

A claridade do fim da tarde está terminando. O sol, importante rei, está se recolhendo no horizonte, para voltar no dia seguinte, mais forte e luminoso para sua tarefa e seu mister planetário.

Cansado da capina da tarde, ainda tenho forças para sentar sobre um dos cambitos, enquanto arrumo as ferramentas em lugar fácil para pegá-las de volta na manhã seguinte.

Ando e sento na ponta da calçada. Ao lado, Vovô limpa o cachimbo, preparando-o para enchê-lo de novo e dar uma cachimbada antes de ir banhar no açude.
Quase sussurrando, comenta comigo:

– Alimpamo um bom pedaço hoje. Amanhã a gente termina pela manhã, faz a coivara de tarde e taca fogo. Dois dias adispois, a gente começa a semear o milho e o feijão!

Como se ninguém falasse nada, escuto distante dali o cântico triste do vem-vem, ao mesmo tempo que algumas andorinhas, em rodopios pegam mosquitos.

Vovô, antes de levantar para ir ao açude, garante:

– A chuva não vai demorar muitos dias. Os mosquitos estão avisando!

Aquele diálogo com ares de monólogo conseguiu tirar minha atenção e nem percebi que a claridade ora embora. Silêncio total. E aquele silêncio inodoro, petulantemente traz consigo a impressão de algum cheiro.

E pergunto a mim mesmo: silêncio tem cheiro?

De jasmim?

De açucena?

Entre uma dúvida e outra, percebo o barulho imaginário de duas cortinas se abrindo como num teatro em que eu, sozinho, privilegiado, ouvia as características iniciais de um cântico coral. Cigarras, provavelmente aos milhares, em acordes mil garantiam o início da apresentação regida pela maestrina Natureza.

Perguntei a mim mesmo:

– Por que, e para que, ou para quem, as cigarras cantam?

Há quem afirme, provavelmente sem qualquer entendimento, que as cigarras cantam até morrer. Isso não é verdade. O cantar é, uma realidade, exclusiva dos machos, com o objetivo de atrair e envolver as fêmeas para o acasalamento.

“Tanto a fêmea quanto o macho possuem um órgão na região do abdome que funciona como se fosse uma caixa acústica. Entretanto, só no macho é encontrada uma membrana que produz movimentos que permitem a emissão do som. O som é tão alto que pode atingir cem decibéis.

Após a reprodução, as fêmeas botam seus ovos e morrem. Depois de saírem dos ovos, as jovens cigarras (ninfas) entram na terra e ficam lá até a época de reprodução. Elas alimentam-se da seiva retirada das raízes das plantas, enquanto aguardam o momento certo para cavarem túneis que as levem de volta à superfície. Algumas espécies de cigarras podem ficar até 17 anos enterradas, sendo um dos insetos que possuem a vida mais longa.

Chegada a época de reprodução, geralmente nos meses quentes do ano, elas saem e sobem nas árvores. Nesse momento elas sofrem metamorfose, transformando-se em insetos adultos. Os machos adultos iniciam, então, uma nova cantoria para atrair as parceiras”.

OBS.: Estes três parágrafos são de autoria de Vanessa Sardinha.

Cigarras em acasalamento

O coral continua cantando – com o objetivo proposto pela Natureza, e pelos machos! – e eu, absorto e embevecido, continuo “pregado” na ponta da calçada, tentando entender alguns segredos e privilégios de todos os seres vivos criados por Deus.

DEU NO X