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GUILHERME FIUZA

CONSPIRAÇÃO AUDITÁVEL

Você está preocupado à toa com a eleição do ano que vem. Está tudo bem. A corte que reabilitou Lula, tornando-o elegível apesar dos seus crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, tem um ministro bem atento na presidência do TSE – que já contratou simpatizante petista para explicar que o sistema é seguro e à prova de fraude. Dá ou não dá uma tranquilidade total isso aí?

Não há o que temer. Quem põe um ladrão no jogo e usa simpatizante dele para atestar que o jogo será limpo só pode estar bem intencionado.

Esse mesmo ministro diligente esteve nos Estados Unidos na eleição presidencial e concluiu em 24 horas que o processo foi perfeito. As próprias instituições americanas levaram dois meses averiguando uma torrente de indícios de fraude – e apesar da diplomação do novo presidente estão averiguando até hoje em vários estados – mas o observador oficial brasileiro é mais sagaz do que todas as instituições norte-americanas juntas: a ele bastou uma olhada por alto para dar o veredicto instantâneo da lisura.

E a proposta da instituição no Brasil do voto auditável, por meio de comprovante impresso? Não precisa. Não é o caso. Deixa pra lá. Assim tá bom. Não esquenta – argumentaram os eminentes árbitros do processo. Mas a matéria seguiu em frente, as audiências trouxeram técnicos comprovando a possibilidade de fraudar as urnas inauditáveis, e aí o deixa pra lá virou de jeito nenhum!

Pelo menos duas togas esvoaçantes decolaram da suprema caverna em direção ao poder parlamentar – e reuniram em torno de si um bom punhado de líderes partidários. Depois desse movimento cinematográfico, tudo mudou. A comissão temática do voto auditável sofreu uma metamorfose ao vivo. Com vários transplantes de membros, deixou de ser um fórum favorável ao aprimoramento da segurança eleitoral para se tornar um matadouro do voto auditável. Santa coincidência, Batman!

Detalhe: tudo isso à luz do dia, na cara de todo mundo. Não tem ninguém inibido nesse front. Deputados que participaram das audiências e formaram seu juízo a partir de discussões técnicas foram simplesmente rifados pelos partidos e substituídos por integrantes novinhos em folha que não tinham participado de nada. Santa convicção, Batman! E de onde terá vindo tão súbita e irremovível convicção contra a instituição do voto auditável? Adivinha.

Repetindo: não tem ninguém inibido nesse exótico balé de togas e gravatas. Inibido aqui só você, que está vendo essa coreografia estático, da primeira fila – e nas piruetas mais arrojadas as togas e as gravatas chegam a dar na sua cara. Continua sentado aí até a eleição de 2022 pra ver o que te acontece.

Então o resumo é esse: o anseio de grande parte da sociedade por mais segurança no processo eleitoral está em jogo numa comissão da Câmara que foi operada por um lobby togado, na frente de todo mundo, para assassinar a reforma no nascedouro. Esse lobby acha que vai matar a possibilidade de auditagem da eleição com uma manobra de gabinete, metendo o bisturi numa comissão restrita, transplantando uns deputados e correndo pro abraço.

Vejamos se o país vai ficar assistindo ou vai mostrar o seu tamanho aos anões morais dos gabinetes.

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

HÃO DE CHORAR POR ELA OS CINAMOMOS… – Alphonsus de Guimaraens

Hão de chorar por ela os cinamomos,
murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão-de cair os pomos,
lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: – “Ai! nada somos,
pois ela se morreu silente e fria”…
E, pondo os olhos nela como pomos,
hão-de chorar a irmã que lhes sorria.

A Lua, que lhe foi mãe carinhosa,
que a viu nascer e amar, há-de envolvê-la
entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos…
E os arcanjos dirão no azul, ao vê-la,
pensando em mim: – “Por que não vieram juntos?”

Alphonsus de Guimaraens, Ouro Preto-MG (1870-1921)

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JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

AS M(M)ARGARIDAS E SUAS CORES

Foto 1 – As margaridas de Abéché

Maurice Du Paul e Morgannyia Abrillé formavam um casal nascido em Abéché, pequena província do Chade, uma das mais importantes cidades dominadas pela França no século passado.

Depois de viver num verdadeiro inferno de contínuas guerras civis por conta da instabilidade político-administrativa, Maurice e Morgannyia conseguiram fugir pela fronteira de Abéché com o deserto Saara. Na diminuta bagagem, a roupa do corpo, uma pequena quantidade de dinheiro sem valor algum noutras cidades e países; uma sacola de pano com alguns víveres; sementes de várias flores e duas filhas.

“Abéché é a quarta maior cidade do Chade e é a capital da região de Quaddai. Abéché tornou-se capital do Sultanato de Wadai na década de 1890, depois que os poços de Ouara , a antiga capital, secaram.

Em 1909, as tropas francesas invadiram o Reino e estabeleceram uma guarnição em Abéché. A França assumiu o poder, forçando o sultão a renunciar ao trono. Naquela época, Abéché era a maior cidade do Chade com 28.000 habitantes, mas grandes epidemias reduziram a população para 6.000 em 1919. Em 1935, o sultanato foi restaurado por ordens do governo francês, e Muhammed Ouarada, herdeiro do trono após seu pai tornou-se rei. Uma vez que um dos redutos da rota do comércio de escravos árabe, a cidade é conhecida hoje por seus mercados , mesquitas , igrejas, praça (a Place de l’Indépendance) e para o palácio do seu sultão.

Abéché tem várias escolas, um hospital, uma universidade e é uma das principais guarnições da Armee Nationale du Tchad ANT. Há um pequeno aeroporto ( IATA : AEH , ICAO : FTTC ), ID do aeroporto: AE, operado do nascer ao pôr do sol (SR-SS) com voos para N’Djaména .

Em 25 de novembro de 2006, a cidade foi tomada pela União das Forças pela Democracia , um grupo rebelde que busca depor o presidente Idriss Déby . Vários saques ocorreram durante a noite. No mesmo dia, a vizinha Biltine foi capturada pelo Rally das Forças Democráticas, outro grupo rebelde. Um dia depois, ambas as cidades foram retomadas pelo exército chadiano.

Em 30 de outubro de 2007, a cidade chamou a atenção internacional quando 17 voluntários franceses que trabalhavam para a instituição de caridade Zoé’s Ark foram presos por suposto sequestro de crianças .

Abeche é o centro para a entrega de assistência humanitária para aprox. 240.000 refugiados de Darfur que vivem em 12 campos a leste da cidade, perto da fronteira com o Sudão. Várias organizações abriram escritórios em 2003 e 2004, por exemplo, o ACNUR, a Cruz Vermelha, a GTZ alemã e a UNICEF.” (Informações pesquisadas no Wikipédia)

A fuga e a chegada ao Brasil

Além do que está citado no primeiro parágrafo deste texto, com informações pesquisadas, o que se sabe de Maurice Du Paul e Morgannyia Abrillé, é que viveram quase uma dezena de anos “fugindo” à procura de um mundo novo, onde pudessem viver em paz – a preocupação maior, além do desejo de viver, era com as duas filhas, por conta do insistente e permitido tráfico de crianças.

Como e quando chegaram ao Brasil, quase ninguém sabia. Mas, todos sabiam que, o amor que tinham pelas filhas era imenso e os fazia enfrentar com risco de morte qualquer adversidade. As filhas, eram, enfim, a maior prova material da existência do amor entre eles, os fugitivos de Abéché.

A vida de fuga os trouxe ao Brasil. Aqui encontrariam várias dificuldades, haja vista que as poucas moedas que carregaram quando fugiram de Abéché sequer eram conhecidas neste país continental. Precisavam vestir, comer e morar.

Também nunca se soube como a família chegou ao Ceará, mais precisamente no povoado Timbaúba, hoje parte de Pacatuba, e já incluída na RMF (Região Metropolitana de Fortaleza).

As quatro pessoas negras, zanzando pelas ruas de um povoado pequeno, e de população também pequena, onde todos se conhecem, chamaram a atenção de alguns, especialmente das autoridades da gestão municipal. Eis que surgiu então o primeiro problema muito sério: a comunicação. Os quatro não entendiam nada do que ouviam e não conseguiam se fazer entender.

Mas, Deus existe, e está em tudo que é lugar. Alguém teve a ideia de tentar uma solução para o problema, usando a cor da pele dos quatro. Foram levados para o Quilombo dos Pretos. Ali ficaram um dia, ficaram dois dias e ficaram uma semana. Não lhes faltaram alimento e uma imensa necessidade de entendimento – o que certamente os levaria a conseguir algum trabalho para a sobrevivência.

Foto 2 – Margarida branca

Finalmente, o problema ganhou uma provável solução, e tudo parecia estar em casa, como era em Abéché.

Mas, a dificuldade de comunicação continuava. Maurice Du Paul passou a ser “Maurício”; Morgannyia, ficou mais acessível, sendo conhecida como “Morgana”. As filhas, com nomes originais impronunciáveis pelos quilombolas, passaram a ser tratadas como Margaridas.

A mudança e a adaptação de “Maurício” e família continuava. Agora, com celeridade, pois o tempo não volta, depois que passa.

A simpatia, o bom trato com os novos amigos e a disponibilidade para o trabalho, mereceram o respeito dos que ali já viviam há muitos anos.

Maurício ganhou um bom “pedaço de terra” para trabalhar, e, assim, alimentar a família com dignidade. Ganhou, também, alguns equipamentos para trabalhar a Terra. E foi à luta!

Eis que começou a esquecer Abéché e até as dificuldades que enfrentara para estar ali naquele momento. Vivo, e ao lado da família. Mas, vivendo momentos de alegria, lembrou que, em algum lugar guardara algumas sementes que trouxera de Abéché, na fuga com Morgana e, agora, as Margaridas.

Foto 3 – Margarida vermelha

Encontrou as sementes, e entendeu que chegara a hora do plantio. Preparou a terra e, para isso, até que teve ajuda de alguns novos amigos que, naquele quilombo, nunca ninguém vivia só.

Maurício plantou todas as sementes. Misturadas. Alguns dias depois de plantadas as sementes, nasciam os brotos. A mão de Deus funcionou e Maurício foi usado para separar brotos de brotos, como se os conhecesse desde muito tempo.

Chuva. Mais chuva. Os brotos cresciam e tomavam forma de roseiras. Cresciam e cresciam, até que alcançaram o tamanho ideal para a floração na primavera que se aproximava.

Foto 4 – Margaridas amarelas

A brisa noturna levou Maurício e a família – Morgana e as Margaridas – ao recolhimento para o descanso de mais um dia de intenso trabalho na plantação.

Distante dali, com os primeiros raios de luz, o cantar de um galo que não possuía, acabou por despertar a família – Só então Maurício percebeu que, ao redor de si, em vez de apenas duas, havia várias margaridas.

Margaridas amarelas, brancas, roxas e até vermelhas. A colheita foi farta e o resultado da fuga, do sofrimento enfrentado ao lado de Morgana e das Margaridas, estava sendo recompensando.

Reflexão: o que seria de Maurice Du Paul e Morgannyia Abrillé, se não fossem as margaridas. As que carregaram consigo na fuga, para evitar o rapto e o sequestro, e as que lhes mostraram na chegada da primeira primavera, uma luz para uma nova vida?

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PERCIVAL PUGGINA

O QUE CUBANOS E BRASILEIROS TEMOS EM COMUM

Nestes últimos dias, olhamos para a ilha de Cuba com sentimento de solidariedade em relação aos padecimentos a que estão submetidas sucessivas gerações de cubanos, desarmados e impotentes, perante a brutalidade do Estado totalitário, de partido único. Alegramos-nos com as manifestações de rua pedindo liberdade e democracia. Vimos a reação do Estado e ouvimos a proclamação de Diaz Canel convocando os comunistas “a salir à la calle” porque as ruas são dos comunistas, são da “revolución”.

Como previ, foram momentos excepcionais na longa história destes últimos 62 anos naquele país. Mas não havia como levar a algo dada a disparidade de recursos existente entre a máquina dissuasora do regime e o povo, pobre e desnutrido, que começa a se conscientizar sobre as reais causas de suas descomunais carências.

O que custei a perceber foram as semelhanças entre a situação dos cubanos e a nossa, neste momento peculiar de nossa própria história.

Como eles, temos uma imprensa que vê com um olho só e pensa com um lado só do cérebro, a serviço de uma única causa. Lá, para manter o governo; aqui para derrubar o governo.

Como eles, saímos às ruas. Nossas manifestações, porém, têm levado a nenhum resultado desde 2018. Pregamos no deserto, clamamos aos ventos, protestamos contra poderes que não nos escutam. Como os cubanos, estamos reduzidos à impotência.

Como eles, estamos sob uma ditadura. Enquanto a deles é real, aqui a democracia é uma farsa que nos impõe a ditadura conjunta do STF e do Congresso Nacional. Os dois poderes desprezam a opinião pública e tudo fazem para se preservar sem precisar do povo, sem ouvi-lo, submetendo-o ao tacão de seu querer e de suas próprias conveniências.

Claro, nosso presente é bem melhor do que o deles e nossas perspectivas também. Mas seria imprudente desconhecer que há, aqui, um caminho que leva àquela outra realidade.

DEU NO JORNAL

NOVA CERVEJA NA PRAÇA

A loja oficial do Partido da Causa Operária (PCO) está em promoção, com 15% de desconto para peças como os pôsteres de Lênin vendidos por R$ 127,50.

A “Caneca de Chopp Che Guevara” sai por R$ 55.

* * *

Faz muito bem a extrema esquerda em abrir uma loja pra negociar e usar esta invenção capitalista chamada internet pra divulgar os seus produtos.

Agora, aqui entre nós, lá na página do PCO eu achei um artigo bem melhor que o poster de Lênin e a caneca de Guevara, citados nessa nota aí em cima.

É este artigo que está a seguir:

Segundo apurou o Departamento Cachacístico do JBF, a Cerveja Lula é fabricada com a urina do ex-presidiário, devidamente trabalhada em laboratório pra ficar ao gosto dos seus devotos.

Como Lula já está livre, leve e solto, a inscrição “Livre Já”, contida no rótulo da garrafa, refere-se ao mijo que se acumula depois de uns copos cheios.

Ou seja, beba e livre já seu mijo luleiro no banheiro do boteco.

O “Fora Bolsonaro” tem a ver com fato de que os lulistas chamam o presidente de “bosta”.

Ou seja, Fora Bolsonaro quer dizer Cague Bolsonaro.

Se não conseguem botá-lo pra fora pelo voto, vão conseguir botando força no vaso sanitário.

Quem quiser entrar na loja capitalista do PCO, basta clicar aqui.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

LEVI ALBERNAZ – ANÁPOLIS-GO

Caro editor:

O Brasil é o país do qual os partidos políticos mais sugam recursos públicos em todo o mundo.

Foram mais de R$ 2,2 bilhões para a eleição de 2020, recorde absoluto.

Uma vergonha mundial este absurdo que os políticos brasileiros fazem com o nosso dinheiro.

E para completar minha participação hoje no nosso jornal, peço ao senhor editor que publique o vídeo em anexo.

Está ótimo.

Muito obrigado e um grande abraços para todos.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Milton Santos

Milton Almeida dos Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, BA, em 3/5/1926. Escritor, professor, jornalista, advogado, cientista e um dos maiores geógrafos do mundo. Considerado um dos mais destacados intelectual brasileiro, lutou contra o modelo de globalização vigente, que chamava de “globalitarismo”, e propunha a construção de outra realidade possível, considerada mais justa e mais humana.

Filho e neto de professores primários, apendeu álgebra e francês em casa. Aos 10 anos foi aluno interno do Instituto Baiano de Ensino, onde tomou gosto pela geografia com o prof. Oswaldo Imbassay. Aos 13 anos lecionava matemática e aos 15 geografia. Aos 22 formou-se em Direito pela UFBA, mas nunca advogou. Foi dar aulas de geografia no Colégio Municipal de Ilhéus. Por essa época tomou gosto pela política e entrou no jornalismo como correspondente do jornal “A Tarde” e depois editor sem abandonar a geografia. Seu 3º livro – Zona do cacau; introdução ao estudo geográfico – tornou-se um clássico como volume 296, da Coleção Brasiliana, em 1957.

Influenciado pela escola francesa do pós-guerra, seu interesse era centrado na geomorfologia e climatologia. Aos poucos foi se interessando pela demografia e por um entendimento global do meio físico-natural, incluindo a dimensão econômica nas relações cidade-campo, apartir da influência recebida do geógrafo Pierre George. Pouco depois do casamento com Jandira Rocha, mudou-se para Salvador tornando-se professor na Universidade Católica de Salvador, em 1956. No mesmo ano participou do Congresso Internacional de Geografia, no Rio de Janeiro, e travou contato com grandes geógrafos que já conhecia por suas obras. Na ocasião foi convencido por Jean Tricart a fazer um curso de doutorado no Instituto de Geografia da Universidade de Strasbourg, um dos mais renomados da Europa. Concluiu o curso em 1958, com a tese O centro da cidade de Salvador, e retorna ao Brasil.

De volta a Salvador, criou o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais da UFBA, sempre em contatos com os mestres franceses. Pouco depois tornou-se Livre Docente em Geografia Humana pela UFBA, participando ativamente da vida acadêmica, jornalística e política. Em 1961 o presidente Jânio Quadros convidou-a a participar da comitiva numa visita à Cuba e foi nomeado subchefe da Casa Civil na Bahia no curto mandato presidencial. Em 1963 foi eleito presidente da AGB-Associação dos Geógrafos Brasileiros e no mesmo ano o governador Lomanto Júnior convidou-o para presidir a CPE-Comissão de Planejamento Econômico da Bahia. Enquanto isso, prestou concurso para lecionar na UFBA, mas teve os planos interrompidos pelo golpe militar, em abril de 1964.

Foi preso pelo Exército, por 90 dias, e sofreu um AVC-Acidente Vascular Cerebral em meados de junho. Recuperou a saúde e foi solto após a intervenção do cônsul da França, em Salvador, Raymond Van der Haegen, junto aos militares. Havia recebido vários convites de universidades francesas e após 6 meses de prisão domicilar, partiu para a França já separado do primeiro casamento. Lecionou geografia na Universidade de Toulouse, achando que poderia voltar em breve com o fim da ditadura. Viveu 3 anos em Toulouse e mudou-se para Bordeaux, onde conheceu sua segunda esposa, Marie Hélene Tiercelin, entre suas alunas. Em maio de 1968, em plena efervescência politica, lecionava na Universidade Sorbonne e trabalhava como diretor de pesquisa em planejamento urbano no IEDES-Institut d’Étude du Développement Économique et Social.

Em 1971 foi convidado para lecionar na Universidade de Toronto, no Canadá. Em seguida foi pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, onde trabalhou com Noam Chomsky. Foi aí que iniciou sua grande obra – O espaço dividido -, publicada em 1979. Em seguida fez um périplo por alguns paises latino-americanos, universidades europeias e africanas. Na veneuela, foi diretor de pesquisas sobre planejamento urbano num projeto da ONU e manteve contatos com técnicos da OEA-Organização dos Estados Americanos. Tais contatos lhe proporcionou um convite para lecionar na Faculdade de Engenharia de Lima, Peru, ao mesmo tempo em que foi contratado pela OIT-Organização Internacional do Trabalho para elaborar um estudo sobre a pobreza urbana na América Latina.

Por esta época foram intensificados os estudos sobre os processos de urbanização das cidades do “terceiro mundo”, que renderam novas viagens: volta à Venezuela para lecionar na Faculdade de Economia da Universidade Central; organizou o curso de pós-graduação em geografia na Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia, onde viveu por 2 anos, e recebeu convite para retornar ao Brasil, para lecionar na Universidade de Campinas. Mas as condições políticas do Brasil na época não lhe eram favoráveis. A Columbia University, em Nova Iorque soube aproveitar melhor seu talento. Em fins de 1976 houve novos contatos para trabalhar no Brasil. Tentou a UFBA, mas ocorreram novos impedimentos. Recebeu convite para lecionar na Nigéria, mas a vontade de retornar ao Brasil era maior. Algumas colegas geógrafas brasileiras se empenharam em trazê-lo e conseguiram um posto como consultor de planejamento urbano na EMPLASA-Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano.

Com seu retorno deu-se uma grande mudança estrutural no ensino e na pesquisa em Geografia no Brasil. Em 1977 passou a lecionar na UFRJ e no ano seguinte foi contratado como professor titular do Departamento de Geografia da USP, onde permaneceu até sua aposentadoria, em 1997, e continuou como professor convidado. Seu livro Por uma nova geografia, publicado em 1978, abriu caminhos para o entendimento de novas configurações urbanas e causou impacto na área. Suas atividades no ensino e execução de projetos lhe garantiu a conquista do Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, em 1994, uma espécie de Nobel da Geografia. Foi o único latino-americano a receber a comenda.

Em meados de 1990, soube que portava um câncer de próstata, mas continuou na USP até 2000 e lançou mais 2 livros. No ano seguinte, a doença agravou-se e veio a falecer em 24/6/2001. Uma de suas expressivas contibuições ao estudo da geografia urbana foi derrubar as velhas noções de centro e periferia. Antes mesmo que o conceito de “Globalização” se generalizasse, ele já advertia para “a possibilidade do fim da cultura como produção orginal do conhecimento”. Não se trata de ser contra a globalização e sim contra o modelo vigente no mundo, que ele chamava de “globalitarismo”. Tais ideias foram apresentadas em seu último livro Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal (2000). No penúltimo livro A natureza do espaço (1996) pretendeu estabelecer “uma teoria geral do espaço humano, uma contribuição da geografia e reconstrução da teoria social”.

Além das diversas homenagens e premiações, recebeu títulos de Doutor Honoris Causa de 14 universidades no Brasil e exterior e deixou mais de 40 livros publicados, muitos deles em diversas edições. Devido a sua contribuição no ensino superior e afim de reverenciar sua memória, a ABMES-Associação Brasileira de Mantenedores de Ensino Superior instituiu, em 2004, o Prêmio Milton Santos de Educação Superior, outorgado a cada dois anos aos nomes indicados pelas instituições associadas. Uma biografia homenageando-o foi publicada na revista eletrônica “Scripta Nova”, da Universidade de Barcelona, em 2002 e pode ser consultada no link El ciudadano, la globalización y la geografía. Homenaje a Milton Santos (ub.edu)