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A PALAVRA DO EDITOR

UM DOMINGO VERDE-AMARELO

Foi hoje aqui no Recife.

A concentração começou na Praia de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana.

E a passeata percorreu toda a zona sul da capital, mesmo sendo um domingo nublado e meio chuvoso.

Não houve invasão, bagunça, depredação de patrimônio, distúrbio ou quebra-quebra de bancos.

Nada de mortadela, nem de maconheira fedorenta do suvaco cabeludo.

Só patriotismo, amor ao Brasil, fé, esperança e solidariedade.

Além de grande faturamento dos vendedores de bandeiras e dos trabalhadores que ganham a vida na beira da praia.

E muita gratidão pela total erradicação da corrupção no governo federal.

Tudo em ordem e em paz, como é de costume entre pessoas ordeiras e decentes.

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GUILHERME FIUZA

O ENIGMA DO TOTALITARISMO FROUXO

Era uma vez uma civilização avançada e pródiga. Ela tinha atravessado um século de grandes guerras e alcançado a paz. Não a paz total, que é impossível. Mas um estado sem precedentes de estabilidade entre os povos. Até um muro que simbolizava a fratura política e a cisão ideológica tinha caído. Um novo século começava com a consagração das liberdades individuais e da compreensão sobre as variadas escolhas de comportamento. Finalmente a maioria tinha conseguido estabelecer que raças e credos não podiam ser fatores de segregação. Estava tudo pronto para o início da Era da Harmonia.

Mas a humanidade não quis. Por razões insondáveis – tédio? – jogou tudo fora. E o que levou tanto tempo para ser construído foi ao chão num instante. Destruir é sempre muito mais fácil e rápido.

O novo século tinha começado com um proverbial salto tecnológico unindo de forma instantânea o mundo inteiro. Os avanços da comunicação no século anterior, que já eram grandes, se multiplicaram vertiginosamente. Não era mais questão de poder saber imediatamente o que acontecia em outro hemisfério. Era poder falar – e ser ouvido – instantaneamente do outro lado do mundo. Qualquer um. Senão toda a humanidade, ao menos uma imensa parte dela, incluindo os menos favorecidos – que até então ficavam frequentemente à margem dos benefícios tecnológicos. Uma revolução democrática.

Eis o escândalo: essa revolução democrática virou recaída autoritária. Talvez nem Freud explicasse – ele que revelou tanto da alma humana na virada de século anterior, quando a humanidade caminhava para o surgimento das guerras mundiais. O que houve com os homens?

Machista! Não vai falar das mulheres?

Desculpe, estava me referindo à humanidade.

E só tem homem na humanidade? Não tem mulher?

Acho que não me fiz entender. Quis dizer Homo sapiens.

E a mulher sapiens? Não vai falar da mulher sapiens?

Mulher sapiens?

Tá vendo? Nem tinha pensado, né? “Esqueceu” de mais da metade da humanidade. Isso é preconceito escondido! Mas agora tá todo mundo ligado, vou postar aqui que você é machista.

Não, por favor. Eu estava me referindo a homens e mulheres.

E os gays? E os trans? Não mente, você só falou de homem. Vou viralizar.

E foi assim que a idiotice “viralizou”. Fantasiada de ética. E a viralização do vírus – ou da suposta preocupação com ele – chegou para trazer a apoteose do heroísmo de videogame. As barricadas de empatia cenográfica foram sendo erguidas a cada esquina digital contra o monstruoso inimigo imaginário – o neandertal moderno que eu posso projetar em qualquer um, no meu vizinho, no meu amigo, no meu irmão, bastando apontar o dedo duro para ele dizendo que ele não segue as normas de segurança difundidas pela Lady Gaga, pelo João Dória e pela empática ditadura chinesa. Você está colocando vidas em risco – e cada vez que eu digo isso meus seguidores se multiplicam e empoderam a minha vidinha de merda.

Como isso foi acontecer? Onde estavam escondidos, naquela caminhada aparentemente firme para a Era da Harmonia, o cinismo e a covardia?

Com possibilidades sem precedentes na história de expansão do bem-estar e da liberdade, como fomos parar nessa epidemia de moralismo, egoísmo e tara pelo controle – todos devidamente dissimulados e fantasiados de humanismo? Como viemos parar de repente nessa proliferação de tiranos enrustidos, que querem impor – e estão impondo – variadas armadilhas autoritárias sob um véu de bondade e altruísmo? Como sociedades tão esclarecidas passaram a se sujeitar docilmente à dominação dos medíocres e dos fracos? Como foi possível a ascensão do totalitarismo frouxo?

É tarde demais para uma correção de rumo. A semente da falência talvez estivesse na própria pujança. Quem vai saber? Talvez seja simplesmente o percurso cíclico da natureza. Mas com certeza não há mais chance de ajustes sobre o mesmo trilho. A ruptura da civilização como a conhecemos está dada. A dúvida é se teremos no próximo capítulo o resgate da boa índole ou a consumação do massacre dela.

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ESPLANADA ABARROTADA

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MEXE-MEXE NA ESQUERDA

Alexandre Garcia

Muitos políticos estão deixando o PCdoB. Nesta quinta-feira (17) foi o governador do Maranhão, Flávio Dino, que anunciou sua saída – ele deve ir para o PSB. A mesma coisa deve acontecer com a ex-deputada Manuela D’Ávila (RS) e o ex-ministro e deputado federal Orlando Silva (SP).

Até o deputado Marcelo Freixo deixou o Psol provavelmente para ser candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo PSB. Todos eles mudam de partido com a bênção de Lula. Eu fico pensando por que o ex-presidente não levou esses políticos para o PT.

Acho que Lula sente que o PT está marcado pela corrupção descoberta pela Lava Jato. Três tesoureiros do partido foram presos nos últimos anos. O partido está com a ficha suja, mesmo depois da limpa que a Suprema Corte fez na ficha de Lula.

A mesma coisa acontece com o termo comunista. Acho que o pessoal do PCdoB está querendo cair fora do partido porque a palavra comunista puxa para baixo. Todos estão pensando na eleição do ano que vem.

O mesmo aconteceu com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) tradicional, aquele de Luiz Carlos Prestes, que mudou de nome primeiro para PPS e hoje é o Cidadania. Eles queriam abandonar a palavra comunista.

Flávio Dino tuitou afirmando que sua saída do PCdoB é devido a “diferenças estratégicas e táticas”.

Para mim está claro que ele está focado estrategicamente na eleição de 2022 e pensou em qual movimento deveria fazer para se eleger. Parece que ele quer ser candidato ao Senado pelo Maranhão.

Essas são as mudanças e os movimentos partidários que antecedem o ano eleitoral, que será bem interessante.

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES – Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!

Jorge de Lima, União dos Palmares-Al, (1893-1953)

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RODRIGO CONSTANTINO

A OPRESSÃO LATINO-AMERICANA

A América Latina é terreno fértil para demagogos, populistas autoritários, socialistas em geral. Em ambiente com miséria e ignorância, esses oportunistas se criam com mais facilidade, exploram suas vítimas mascarando seu projeto de poder com slogans bonitinhos de igualdade e “justiça social”. E o mais grave é que a história se repete com incrível frequência, como se o povo fosse incapaz de aprender com os próprios erros.

A bola da vez é o Peru, depois de a Argentina trazer de volta ao poder o Foro de SP, mirando no péssimo exemplo venezuelano. Um livro clássico nos meios liberais é O Manual do Perfeito Idiota Latino-americano, escrito por três autores, entre eles Álvaro Vargas Llosa, filho do Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, que escreveu a apresentação do livro. Eles tiveram de retornar ao tema com A Volta do Idiota, perplexos com essa insistência nos mesmos erros.

Mario Vargas Llosa disputou a Presidência do Peru em 1990 e perdeu para Fujimori. Desta vez, o escritor liberal apoiou a filha do ex-presidente, para tentar impedir o destino trágico do socialismo. Mas o “professor esquerdista” Pedro Castillo assumiu a liderança numa contagem sob suspeita e por poucos votos a mais pode selar o destino do país rumo ao abismo. É uma sensação grande de impotência por parte de quem sabe o que está em jogo.

Álvaro é autor de outro livro instigante, Liberty for Latin America, em que define os cinco pilares da opressão. A ideia central talvez possa ser resumida por essa frase de Llewellyn Rockwell Jr.: “Devemos nossa liberdade não ao desejo do Estado de permitir que as pessoas e as instituições sejam livres, mas ao desejo das pessoas e das instituições de resistir”. Os oprimidos esperam tudo do Estado opressor! E aí começam os problemas.

Logo na introdução, Álvaro deixa claro que nada é mais crítico para o objetivo de libertar a América Latina dessa opressão que compreender por que as transformações políticas e econômicas das últimas décadas beneficiaram somente uma pequena elite. O autor levanta o debate entre instituições e culturas, alegando que uma necessita da outra. As regras de relacionamento entre indivíduos precisam mudar, mas os valores que determinam a conduta humana também. Esses valores não mudarão a menos que as pessoas vejam que os novos valores são relevantes por meio de incentivos e recompensas possíveis pela mudança institucional.

Se é verdade que a tradição ibérica pesa contra o desenvolvimento da região, também é verdade que a Espanha e Portugal, onde tal tradição se originou, conseguiram prosperar após mudanças institucionais. Claro que para um sucesso sustentável é preciso uma mudança cultural. Victor Hugo já dizia que “não há poder maior que o de uma ideia cuja hora é chegada”. Mas postergar a remoção das causas diretas de opressão até que os valores corretos sejam absorvidos pelo povo vai condenar a região à impotência e ceder espaço para aqueles que são tentados a usar esses instrumentos de opressão para impedir a mudança cultural.

Quais são, então, esses instrumentos de opressão estatal, causa principal do fracasso da região? É o que Vargas Llosa busca responder. Os cinco princípios de organização social, econômica e política que oprimem o indivíduo seriam, segundo o autor, o corporativismo, o mercantilismo, o privilégio, a transferência de riqueza e a lei política, aqui entendida como o positivismo, contrário ao império da lei. Vargas Llosa busca as origens desses instrumentos de opressão no passado da região.

O escritor e comentarista político peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura

Uma pessoa não era uma pessoa, mas sim parte de um mecanismo maior, e existia somente como fração dessa entidade coletiva. Os indivíduos trabalhavam não para si próprios, mas para a manutenção dessa entidade que exercia força sobre eles. Não trabalhavam para subsistir, mas subsistiam para trabalhar em prol do Estado e seus parasitas. Os exemplos fornecidos pelo autor incluem o estilo de vida dos astecas e incas, em que nobres desfrutavam de privilégios como roupas de algodão e joias, enquanto exploravam escravos.

A organização desses povos era altamente hierarquizada, e os nobres recebiam direitos sobre a terra e o trabalho, transferindo renda por meio de tributos. O rei ou imperador era visto como a própria encarnação divina, e exercia, portanto, autoridade absoluta. A lei era uma extensão do rei, não uma regra objetiva e isonômica. Os maias e astecas praticavam sacrifícios humanos, já que o líder tinha poder sobre a “verdade” e também sobre a vida de todos.

Quando Espanha e Portugal conquistaram várias regiões da América Latina, no século 16, estavam no auge de uma longa tradição corporativista. Como consequência do surgimento do Estado-nação e sua volúpia fiscal, os direitos de propriedade passaram a ser uma transação mercenária entre a autoridade central e grupos particulares. Quando os direitos seletivos de propriedade não eram suficientes, o Estado expropriava riqueza privada diretamente. Esse era o princípio do mercantilismo ibérico. As encomiendas, grandes pedaços de terras concedidos pelo Estado como recompensa militar e outros motivos, eram talvez o maior símbolo de privilégio. Esse símbolo refletia a ideia dominante de que a riqueza não tinha de ser produzida, mas sim tomada.

A estrutura era bastante centralizada, e Espanha e Portugal não objetivavam desenvolver suas colônias, mas obter o máximo de riqueza possível por meio da exploração delas. Chegou a ser ilegal produzir bens que poderiam ser fornecidos pela metrópole. A sociedade colonial rapidamente aprendeu que sua sobrevivência dependia dos esquemas do Estado mercantilista, porque a única atividade rentável era negociar por meio do governo, não no mercado. Quando os movimentos de independência ganharam força na região, já existia uma cultura de que a lei não tinha nenhuma raiz real, sendo algo arbitrário que depende da vontade de uns poucos poderosos. Todo novo governante apontou ou removeu juízes de acordo com seus desejos, reescreveu a Constituição, refez ou estendeu os códigos existentes etc.

Nesse ambiente, o avanço na sociedade era possível somente pela influência no processo político que dominava a lei. Era no teatro da política, não do mercado, que a competição ocorria. A energia estava focada não em produzir riqueza, mas em direcionar a lei para a vantagem pessoal. Com essa mentalidade e com as suas correspondentes instituições estabelecidas, prosperar como nação era praticamente impossível.

Infelizmente, não foi tanto assim o que mudou desde então. Muitos ainda encaram o Estado como um semideus, defendem medidas mercantilistas ultrapassadas, pedem mais interferência estatal na economia, ignoram a necessidade de um império de leis igualmente válidas para todos, focam suas energias na organização em grupos para extrair o máximo de privilégio possível do governo. Alterar esse quadro lamentável exige mudança cultural e institucional. A mudança no campo das ideias será lenta e gradual, como não pode deixar de ser. Combater as instituições opressoras passa a ser uma necessidade imediata. Eliminar o corporativismo, o mercantilismo, o privilégio, a transferência de riqueza por meio do Estado e a lei política arbitrária deve ser então uma meta perseguida por todos os que defendem a liberdade.

O que assusta são os constantes retrocessos na região. É como se o fantasma de Montezuma ou o de Atahualpa ainda pairassem sobre nós, ou então o espectro cubano, cujo regime opressor calcado nessas falácias persiste há mais de meio século. Até quando seremos vítimas de opressores mascarados de salvadores igualitários? Até quando os latino-americanos vão cair na ladainha da esquerda?